Perplexo e indignado com a política, entro de férias

Roberto Junquilho

A partir de hoje, entro em período de férias para promover meu livro “Fogo Estranho no Altar”, que chega às livrarias no final do mês de setembro, aqui e em Portugal. Não poderia sair sem explicitar a minha indignação com o resultado da sessão do Senado Federal que colocou a presidenta Dilma Rousseff na condição de ré no processo pela sua cassação.

A cassação da presidenta, apesar de esperada, traz um sentimento de perplexidade significativa, porque representa um tremendo retrocesso em nossa jovem democracia e forte ameaça às conquistas sociais da última década. A partir de agora, começa a fase do arrocho, principalmente com as alterações previstas nas relações entre patrões e empregados, que vêm de cima para baixo, como bem demonstra recentes declarações de lideranças empresariais, fortalecidas com a cumplicidade do interino Michel Temer.

Como não se indignar ao ver Renan Calheiros, citado 106 vezes na Lava-Jato, falar em moralidade e ideologias políticas? Poderia permanecer calado ao assistir aquele que deveria ser um dos guardiões da Constituição, o presidente do STF, Ricardo Lewandowsky, desempenhar o papel de condutor do teatro absurdo e hipócrita armado para dar a legalidade exigida, segundo o roteiro traçado nos bastidores da traição?

E o que dizer do plenário do Senado, onde tipos como Aécio Neves, Agripino Maia, Álvaro Dias, Ronaldo Caiado, Jader Barbalho, Fernando Collor, só para ficar em alguns, travestidos de defensores da moralidade, proferem discursos raivosos e intolerantes, mas não conseguem esconder o ar da hipocrisia que carregam.  Eles falam da necessidade de o País virar a página, combater a corrupção, quando pelo menos 35 deles estão envolvidos em robustas denúncias de rapinagem do dinheiro público. E o Temer, Padilha, Romero Jucá, igualmente citados na Lava-Jato?

Ora, pode o País sair da crise quando a impunidade cobre Eduardo Cunha, um dos políticos mais corruptos da historia, e todo o seu bando, enquanto se condena uma mulher que não cometeu crime algum?  Nada disso importa, não vem ao caso, como diz o juiz Moro, pois o objetivo é tomar o poder a qualquer custo, desrespeitando o resultado das urnas, a Constituição Federal e levando o País para o abismo neoliberal cujos sinais de derrocada podem ser vistos em todo o mundo sem muito esforço.

Na marcha golpista, o interino Temer publicou artigo na Folha de São Paulo, domingo (7.8), para afirmar que é defensor da democracia amparada na divisão de três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, citando o filósofo e pensador político Montesquieu (século XVII). Esqueceu-se de dizer que essa mesma fonte, formulador desse modelo de governo, defendia, também, os aspectos democráticos com respeito às leis, exatamente o que é enxovalhado na atual política brasileira, apesar de todo o esforço para tornar o golpe legal, tarefa impossível, a história dirá.

Mesmo com o massacre midiático, que entorpece consciências e atinge a maioria da população, desinformada e direcionada para o imediatismo, a verdadeira história está sendo escrita e, de forma implacável, colocará cada golpista no lugar de vergonha que merecem com seus discursos hipócritas. Como um todo, a classe política se perdeu e há necessidade urgente de reformas, visando privilegiar a ética e a transparência, privilegiando o coletivo por meio de conteúdos que possam, efetivamente, tornar a sociedade melhor, mais justa e igualitária.

À situação da política atual se aplicam muito bem as palavras do profeta Isaías, quando diz: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebata”.

Até a volta.

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