Jornalista argentino aponta dedo dos EUA contra governos populares na América Latina

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Nestor e Olga: “Macri é Temer, Temer é Macri”.

Roberto Junquilho

“Existe uma ofensiva do poder econômico, com o dedo dos Estados Unidos, para acabar com os governos populares, progressistas, na América Latina. Voltar para o neoliberalismo, ao predomínio do mercado em benefício dos setores mais concentrados da economia em prejuízo das conquistas sociais das últimas décadas”.

A afirmativa é do jornalista argentino Nestor Busso, que passa férias no Brasil com sua esposa, a também jornalista Olga Busso. Ele é um dos formuladores da Lei dos Medios, responsável pela quebra do monopólio dos grandes grupos de mídia na Argentina, agora modificada pelo presidente Maurício Macri.

 

 Para ele, a principal arma utilizada por poderosos grupos econômicos para desestabilizar governos no Continente, como ocorreu no Brasil, é a comunicação:  “ Os tanques midiáticos substituíram a força militar, mas têm grande poder de destruição”, diz Nestor, que se posiciona contrário à destituição da ex-presidente Dilma Rousseff.  “Consideramos o que aconteceu no Brasil um golpe de estado, violador das garantias do sistema interamericano de direitos humanos e esperamos que a Suprema Corte possa restabelecer  o ordenamento jurídico”.

Na Argentina, segundo Nestor, o governo de Macri é voltado exclusivamente para os ricos. É legítimo porque foi eleito, embora por uma diferença mínima de votos, o governo pensa em um direito: fazer negócios. “Esquece todos os outros direitos: à saúde, educação, à comunicação,  à alimentação, à moradia, todos. Nessa liberdade de mercado, de negócios, os benefícios são sempre para os mais ricos”.

E isso pode ser visto claramente nas altas taxas de o desemprego, no aumento dos preços dos alimentos, das tarifas dos serviços  públicas, redução de impostos para os mais ricos, eliminação das taxas de importação, que beneficia empresas, tudo  isso resultou em uma fenomenal transferência de riquezas para os grupos que controlam a economia na Argentina.

“Em meu país, existe uma fuga de divisas, causando desequilíbrio nas finanças. Um exemplo claro é o retorno do Fundo Monetário Internacional (FMI), nesta semana, depois de 10 anos que foi cortado o relacionamento com essa instituição, como aconteceu no Brasil nos governos Lula e Dilma, que pagaram toda a dívida”, denuncia ele, e afirma que os compromissos assumidos para a segunda metade deste ano não estão sendo cumpridos e há uma grande onda de protestos nas ruas.

“No fundo consideramos que é o mesmo projeto do Temer. Isso porque Temer  é Macri, Macri é Temer.  Os dois fazem parte de um projeto imperial para a América Latina, que significa voltar à normalidade dos abastados, para que os relacionamentos social e político sejam conduzidos pelo mercado. Não falam mais de direitos do povo, das pessoas, mas sim de direitos do mercado e de negócios”, diz e ressalta que esse modelo fracassou em países da América Central, na Europa, em todo lugar.

Ele critica a imprensa controlada por poderosos grupos econômicos, como no Brasil, que manipula as informações e fere o direito à comunicação, considerado uma necessidade de todo ser humano. “ Gosto de uma expressão da ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que diz que a direita anteriormente usava a força militar e agora está usando a mídia, os tanques midiáticos.  A mídia do poder econômico, essa grande mídia, que claramente trabalha para um modelo de concentração da economia, porque defende seus interesses, os grupos econômicos”.

Nestor viveu 10 anos no Brasil, fugindo da ditadura militar na Argentina, onde foi sequestrado, em 1976, pelas forças de segurança na cidade de La Plata, e  dado como desaparecido durante vários dias. Conseguiu chegar ao Brasil, com Olga e dois filhos, Mariana e Juan Pablo e  aqui tiveram Maria Clara e Juan José. A família regressou à Argentina na década de 90,  recebendo anistia. Ele foi secretário de Direitos Humanos da Província de Rio Negro e presidente do Conselho Federal de Comunicação Audiovisual e vice-presidente da Associação Latino-americana de Educação Radiofônica. Com Olga, mantém a Rádio Encuentro e a ENTV, e exerce um intenso trabalho voltado para as causas sociais.

Nestor afirma que as conquistas sociais tiveram um avanço nas últimas décadas em todo o Continente e entraram na consciência do povo. Portanto, “haverá uma reação para defender esses direitos. Na Argentina, como no Brasil, terão que explicar o retrocesso.  Nestor denunciou na Comissão Interamericana de Direito Humanos as alterações impostas, via decreto, pelo presidente Macri na Lei dos Medios, festejada quando foi lançada por quebrar o monopólio dos grandes grupos de comunicação argentinos e abrir a possibilidade de um sistema de  comunicação pluralista, diversificado, como um direito fundamental de todo ser humano”.

“Essa lei,  resultado de 20 anos de debates, foi modificada em poucos dias por um decreto de Macri. O governo prometeu uma nova lei de direito á informação, atendendo a uma resolução da Comissão Internacional, estamos aguardando. A discussão não se encerrou e vários países participam do debate”, diz Nestor.

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