O silencioso e mortal cortejo do pó preto sobre a cidade

 

As nuvens negras passam pela Praia do Canto e se espalham sobre Vitória
As nuvens poluentes passam pela Praia do Canto e atingem toda a cidade

Roberto Junquilho

É de manhãzinha lá pelas 5h40m desse chato horário de verão quando abro a janela. Assusto-me com a marcha silenciosa de nuvens escuras formadas por partículas de minério de ferro e de outras substâncias venenosas sobre o belo contorno da cidade. Invadem o céu e despejam toneladas de veneno, atingem o mar, onde já não se nota o azul, engolido que foi pelas partículas de metal que recebe diariamente, ganhando uma estranha coloração de chumbo.
As gigantes corporações Vale e Arcelor Mittal Tubarão comandam o triste espetáculo, responsável por sujeira, doenças, mortes.

Mas isso não conta, o que importa, de verdade, é a proteção de um modelo econômico distanciado da realidade do cidadão, do bem estar de cada um, com a cumplicidade da mídia e acobertado por promoções tipo Feira do Verde, fazendinhas, reservas florestais, tudo dentro do conceito de engodo característico do marketing, encarregado de dar o verniz aceitável, alvo de elogios e premiações, como recente evento de entidade de classe, ao homenagear a poluidora Arcelor pelo “excelente trabalho social que realiza”.

As ações de  marketing, as gerências de relacionamento com a comunidades, as assessorias de imprensa, todos funcionam e conseguem, com a ajuda da grana, manter a situação inalterada desde que a “vocação” do Estado para os grandes projetos foi concretizada, em tempos sombrios da ditadura  militar. Agora é tarde para retroceder, vários locais do Espírito Santo já perderam a beleza natural e a Ponta de Tubarão mais parece um dragão fumegante com elevado poder de destruição e morte.

Os médicos acreditam que as partículas do pó preto podem chegar aos pulmões e reduzir a capacidade de captar oxigênio. O pó é capaz também de atingir a nariz, a mucosa da boca e garganta e provocar o crescimento do número de casos de alergias, asma, enfisemas e doenças cardíacas.

Uma das soluções seria a Vale fechar toda a passagem de minério e carvão, por fora e por dentro, inclusive as esteiras dos piers, como defendem os ambientalistas e apontam para o Domos, usado em outros países com resultados surpreendentes. Para eles, as chaminés, deveriam ter filtros que bloqueiam partículas metálicas acoplados em sua estrutura. No entanto, o tempo passa e nada muda. É que essas coisas representam investimentos que vão pesar no lucro e, portanto, estão fora de qualquer tipo de cogitação.

As CPIs, os discursos ensaiados de políticos em épocas eleitorais fazem parte de uma cantilena antiga e se mostram incapazes para impedir o lento e mortal caminhar das nuvens escuras, tomando de assalto toda a comunidade. Somos, todos nós, vítimas de um sistema perverso e indiferente ao que está à sua volta, em uma trágica confirmação de um fatalismo que sempre leva ao caos e que demonstra o quanto é elevado o nível de hipocrisia do padrão erguido em torno da acumulação e riquezas.

Recente informe de ambientalistas revela que, independente dos prejuízos à saúde e o que isso representa para para as finanças públicas, as grandes corporações continuam investindo em meios de produção altamente poluentes. Agem como se não houvesse o amanhã e não se dão ao trabalho de pelo menos tentar enxergar, de forma mais objetiva, a destruição do meio ambiente e a desigualdade sempre crescente em níveis cada vez mais acelerados.  É nesse cenário que o amanhã virá, em um mundo cada vez mais conturbado e totalmente desprovido de amor.

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