As farmácias, o vicioso círculo lucrativo das doenças

Roberto Junquilho

No local onde funcionava a Calçados Itapuã, fechada há poucos meses, em frente ao Centro da Praia, será inaugurada nos próximos dias mais uma grande farmácia, totalizando nove estabelecimentos desse tipo em um raio de cerca de 300 metros na região da Reta da Penha. Talvez você esteja pensando, como muitos, que a nova loja é sinal de que a população amplia a cada dia sua comodidade, tendo o acesso aos medicamentos facilitado.

Pode ser, mas há outro fator bem mais preocupante: a medicalização da sociedade, como demonstra o crescimento fora do comum dos números do setor farmacêutico. O poderio de corporações transnacionais cujo objetivo é, unicamente, vender mais e não, necessariamente, curar enfermidades, monta um cenário que cobre, principalmente, os países emergentes, como o Brasil.

As farmácias surgem a uma velocidade espantosa em regiões onde a população tem poder aquisitivo alto. Em bairros periféricos, funcionam as “portinhas”, pois a população se vale dos postos do SUS, agora no governo neoliberal e ilegítimo de Temer sob a ameaça de ser privatizado, para tornar ainda mais difícil a situação de milhares de famílias. Isso porque há uma cruel relação direta entre a pobreza, a exclusão social e as doenças. E o elevado número de farmácias, no entanto, não consegue dar visibilidade a essas populações. Elas são os invisíveis, como afirma o sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade os ignora.

Com uma fiscalização frágil, submetida a um pesado lobby da indústria farmacêutica, que fabrica doenças, segundo denúncias de organismos especializados, o setor pode registrar neste ano um crescimento de 10,6% mesmo com a crise econômica que o País atravessa.  O uso indiscriminado de analgésicos, ansiolíticos, entre outros, segue uma trajetória com a característica de apresentar curas e soluções para problemas criados, muitas vezes, por exigências de uma sociedade marcada pelo consumismo.

A indústria farmacêutica, por meio de mensagens midiáticas, da comunidade científica e de visitadores, funciona como uma espécie de tábua de salvação e seus departamentos de marketing e as campanhas publicitárias ampliam o leque de enfermidades e habilmente convencem as pessoas que elas estão doentes. Uma estratégia sempre vitoriosa para a ampliação desse mercado.

As farmácias surgem da noite para o dia em todo canto. Em menos de quatro meses, duas lojas Storary localizadas na Reta da Penha, um movimentado centro comercial de Vitória, foram fechadas ou tiveram seus espaços reduzidos. Nesses locais surgiram novas farmácias, como parte da disputa desse mercado altamente compensador, que, no Brasil, neste ano deve registrar um lucro de mais de R$ 70 bilhões. Nesse quadro, todos nós devemos estar muito doentes e necessitados, cada vez mais, de remédios e, de alguma forma, de farmácias, não é assim?

Um círculo vicioso está formado, com elevados níveis de dependência química e o aparecimento de efeitos colaterais provocados pela ingestão de medicamentos de forma indiscriminada. O tema é abordado em círculos científicos e o Prêmio Nobel de Química 2009, o americano Thomas Steitz, denunciou o fato de que os laboratórios farmacêuticos “não querem que o povo se cure. Preferem centrar o negócio em remédios que deverão ser tomados durante toda a vida”. Alguma dúvida sobre essa denúncia?

 

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