“Sono buona gente, ma tutti ladri”

Roberto Junquilho

O cenário no País é de caos, de bagunça generalizada em todos os setores da vida nacional. A população sente o reflexo direto dos desmandos praticados pela classe política, com o manto de um poder Judiciário apático e conivente e o estímulo da mídia familiar elitista que comanda o barco segundo os seus interesses. O governo de Michel Temer não tem mais sustentação do ponto de vista ético e de gestão, em decorrência dos números da economia, das acusações de corrupção entre seus ministros, em especial o ato vergonhoso de Geddel Vieira Lima, seu principal articular político. Está na hora da renúncia.

A pressão da sociedade cresce e os jovens se destacam nos protestos, principalmente contra a PEC 55, e aqui e acolá ocorrem atos contrários às ações nocivas promovidas pelos usurpadores do poder. Mas isso ocorre de forma isolada, na medida em que cada facção partidária da esquerda quer a parte maior do bolo, e, assim, não obtém a força necessária para que possam ser olhados como uma movimentação de massa capaz de mudar a situação.

A Lava-Jato, com o mérito de trazer à tona o submundo da corrupção, perde por sua partidarização e com a denúncia de ligação com organismos de investigação estadunidenses, comprovando entrevista que publiquei neste espaço com o jornalista argentino Néstor Busso, dia 20 de setembro deste ano. Com essa marca, cai na vala comum das incertezas. Como essa operação foi inspirada na campanha Mani Pulite (Mãos Limpas), que levantou casos de corrupção na Itália, mas mergulhou o país num poço sem fundo até hoje, me vem à memória um dito popular italiano, que tomo emprestado para referir-me às elites brasileiras, em especial à classe política, evidentemente com algumas exceções:

“Sono tutti buona gente, ma tutti ladri”, que traduzido para o português significa que eles são boa gente, mas todos ladrões.

Isso é o mínimo que se pode dizer da votação no Congresso Nacional para aprovar a anistia do chamado caixa 2 dos políticos, ao mesmo tempo em que o ilegítimo presidente Temer, ele mesmo envolto em denúncias,  tenta manter como ministro articulador do governo o Geddel Vieira Lima, bem conhecido e afamado na arte da rapinagem nas terras da Bahia. Para piorar o cenário, o senador Romero Jucá é elevado a líder do governo no mesmo momento em que vira réu em processo judicial acusado de corrupção.

E não é somente isso: o Estado policial avança, a guerra civil está às portas, os arautos da moralidade desabam diante de suas falcatruas e de super-salários, a blindagem do PSDB, do juiz Moro e dos procuradores pela mídia, a onda de ódio, preconceito e intolerância cresce, o desemprego dobra e chega a 22% depois do golpe, a economia se retrai, as prisões sem justificativas viram shows nas telas de TV e nos faz pensar sempre no pior, como diz Chico: “Atenção, não demora, dia desses chega sua hora, não discuta à toa, não reclame, clame, chame, clame, chame o ladrão”.

É isso ou não é? A resposta é mais afirmativa se for levada em conta a fala do senador Romero Jucá de que é preciso estancar a sangria da Lava-Jato, deixando à mostra o real objetivo da tomada de poder, com a deposição da presidente Dilma, comprovadamente isenta de culpa em crimes de corrupção.  Os fatos citados neste texto são apenas alguns dos que fazem parte de um bem construído roteiro de ações traçadas ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando a onda neoliberal chegou com força ao País. É preciso, agora, concluir o que foi iniciado naquela época.

As regras estão no chamado Consenso de Washington, como ficou conhecido um conjunto de medidas formulado pelo Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1989, que deveriam ser seguidas pelos países da América Latina. O destaque é dado à eliminação gradativa de programas sociais, a chamada redução de gastos públicos, privatização das empresas estatais, investimentos estrangeiros diretos, reforma tributária, todos de forma a privilegiar as grandes corporações.  Quem não acolher as regras tem que sair, à força ou por um golpe parlamentar. Deu para entender?

O jogo é pesado e destrói povos e nações, toma conta do mundo e me traz à memória o texto bíblico do profeta Isaías, sempre atual: “Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades; para privarem da justiça os necessitados, e arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo; para despojarem as viúvas e roubarem os órfãos”.

No Brasil atual, os “ladri” comandam vários setores e o futuro do País se enche de incertezas. As panelas silenciaram e só se ouve, agora, o pipocar dos tiroteios e o choro dos aflitos, as populações da periferia, excluídas e cada vez mais humilhadas, sem rumo, enquanto o frágil governo se esforça na difícil tarefa de parecer “buona gente”. Ninguém mais acredita. Cai fora, Temer.

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