O Brasil e os construtores do caos

Roberto Junquilho

“Todo Feio”, “Índio”, “Caranguejo”, “Santo”, “Boca Mole” “Justiça”, “MT”, “Angorá” são alguns dos indivíduos perigosíssimos que a partir de agora estão às voltas com as autoridades judiciais, depois de denunciados pelo Ministério Público juntamente com dezenas de outros da mesma espécie. Para contrariar o que você certamente deve estar imaginando, não se trata de uma quadrilha desbaratada em morros periféricos desse país. Eles integram a esfera de poder, com livre trânsito nas altas rodas.

Os apelidos pertencem à nata da classe política, delatada por executivos da construtora Odebrecht por ter recebido elevados valores em propinas pelo conhecido caixa 2. Os nomes da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula não constam na relação, é bom lembrar, já que os dois são frequentemente citados em matérias jornalísticas requentadas.

Aqueles que foram às ruas com a camisa da CBF e bateram panelas nas varandas de seus apartamentos, que agora veem um bando de corruptos no comando da nação e passam a temer uma convulsão social diante das manifestações nas ruas, devem estar se perguntado: valeu a pena depor uma presidente sobre qual não pesa nenhuma acusação? No meio dessa cena, o ódio, a intolerância e o preconceito continuam a alimentar os mais obtusos, estimulando a crueldade, o desamor.  Parafraseando Drummond, chega-se àquela fase em que a festa (ou o golpe) acabou, e agora?

A situação é das piores, pois as instituições não funcionam e os últimos acontecimentos desmentem o falatório de quem afirma com insistência que as coisas estão indo bem, como o Michel Temer, agarrado à sua única tábua de salvação, a velha retórica cuja característica principal é o engano debaixo do palavreado empolado. A essa altura, para ele não resta outra opção que não seja a renúncia, considerando que até mesmo a Globo, um  dos comandos do golpe, não o quer mais.

As instituições entraram em conflito aberto e a partir desse ponto o que já estava ruim sempre tende piorar. Ares sombrios pairam sobre a nação brasileira nessa briga de gato e rato, trazendo à lembrança o cenário de 1964, onde cada parte quer salvar o pedaço que acha que lhe cabe, numa corrida louca que desconhece o restante do cenário e, principalmente, os outros personagens: a população. No entanto, a massa dos esquecidos se move, se levanta e segue em frente, aos trancos, desorganizada, sem conseguir construir uma resposta mais clara sobre para onde quer chegar, talvez por ignorar os caminhos da luta de classe, em um estado natural de consciências seqüestradas pelo massacre midiático retrógado.

Uma questão complexa, quando as particularidades de cada Poder se chocam e a indisciplina se espalha sobre as asas de um corporativismo que desconhece o coletivo. O pensamento de cada um é único, egoísta e egocêntrico. O noticiário informa: procuradores da Lava-Jato passam por cima do procurador geral da República, Rodrigo Janot, juízes adotam o mesmo comportamento desrespeitoso de Moro e ignoram abertamente o Supremo, que a cada dia se torna menor; policiais desconhecem superiores, o Senado enfrenta o Judiciário e vice-versa, uma desorganização institucional generalizada, assistida por um presidente da República pequeno, ilegítimo, sem qualquer condição de fazer o País andar, ao lado de um ministério com grande parte de seus integrantes prestes a virar réus em processos judiciais, e ele próprio correndo o mesmo risco.

As delações da Odebrecht atingem a cúpula do PMDB e o ninho tucano em proporções que tornam impossível para a velha e golpista mídia ignorá-las, pois não há um escape capaz de justificar novos atos de  cumplicidade com o poder dominante, causa maior de sua omissão de fatos relevantes, construindo, há décadas, uma narrativa histórica distorcida e perversa.

No mesmo momento em que cabeças coroadas da classe política são arroladas como beneficiárias de corrupção, a ex-presidente Dilma Rousseff ganha o reconhecimento internacional do Financial Time como uma das mulheres mais importantes do mundo, sobre a qual não pesa qualquer tipo de suspeita, exceção aos factóides midiáticos derrubados logo depois que surgem.

O poder foi usurpado por um bando de velhos conhecidos, com o modus operandi de personagens de Martim Scorsese, (cito mais uma vez) o genial diretor de filmes como Os Bons Companheiros e O Poderoso Chefão, que retratam a máfia italiana. A lembrança desse tema vem a calhar, porque, afinal de contas, esse bando age da mesma forma e, com a aparência de moralidade, coloca o Brasil em uma situação de pesados imbloglios, cujo desfecho, ao que tudo indica, aumentará a massa dos excluídos socialmente, conduzindo o país a uma situação insustentável, de vergonha e descrédito.

Resta como único caminho a seguir para resgatar o que foi tomado da população  desmascarar o bando de  bons companheiros, punindo-os e retirando-os dos cargos que assumiram mediante um golpe que coloca mais uma mancha na história. Isso precisa ser feito, a fim de que o Brasil alcance um estágio de maior inclusão e justiça social, banindo o preconceito e o ódio contra os pobres e aqueles que os acolhe, contrariando os ensinamentos de Cristo, que muitas vezes são pregados por quem não os pratica e que, dessa forma, exaltam a hipocrisia.

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