Os tanques de guerra e a marcha dos insensatos

Roberto Junquilho

Uma semana depois do início da paralisação dos policiais militares reivindicando melhorias salariais, e ainda aturdido com os acontecimentos, ouço aplausos de vizinhos quando vejo o comboio das Forças Armadas borrar a paisagem de  Vitória, em mais um “Dia do Bandido” nesta quinta-feira (9.2). O saldo é assustador: mais de 100 homicídios no Estado, saques no comércio, incêndios, roubos, assaltos, agressões, ódio, intolerância e insensatez, um medo coletivo.

Ao invés de buscar o diálogo com o comando da paralisação da Policia Militar, o governo do Estado optou pela adoção de mecanismos extremos que resultam em um confronto aberto, simplesmente para manter sua política de ajuste fiscal que rende dividendos políticos, infla orgulho e exalta vaidades, mas está longe de resolver a questão. O governo afirma não ter caixa para bancar melhorias salariais reivindicadas pelos PMs e também por professores e o funcionalismo em geral, mas, de outro lado, concede isenção fiscal no montante de mais de R$ 4 bilhões até 2018.

O quadro é de terror e, em benefício da população, os argumentos precisam ser colocados na mesa de negociações, confrontados com os dos manifestantes, para tentar chegar a uma solução. Da forma intransigente como a questão está sendo vista, tanto do lado dos grevistas, que já demonstraram sua força e, sem dúvida, abraçam uma causa justa, quanto do governo, se abre ampla possibilidade de agravamento do caos, situação que ninguém deseja.

A chegada de tanques de guerra e carros blindados até agora não conseguiu reduzir a onda de violência, apesar dos aplausos. Certamente, os defensores do uso da força nada mais fazem do que tentar impor sua vontade a qualquer custo, seguindo um padrão individualista e egocêntrico. “Ainda bem que estão fazendo uma limpeza”, me disse um cidadão, referindo-se ao elevado número de mortos, a maioria em bairros afastados das zonas onde residem as “pessoas de bem”. As vítimas civis não têm nomes  divulgados. Talvez ele nem saiba, mas a frase é referência direta ao anonimato de centenas de milhares de mortes que são registradas desde os tempos coloniais, um justiciamento iniciado quando a mão-de-obra de pessoas escravizadas foi substituída com a chegada do imigrante europeu.

Essa massa de anônimos simplesmente foi descartada; eles foram atirados á margem das estradas, formando o bloco dos excluídos da sociedade. Só faltou o homem dizer: “Bandido bom, é bandido morto”, como se escuta nesses tempos de ira descontrolada. São palavras de ódio do cotidiano até mesmo de frequentadores de templos religiosos, que, estimulados pela mídia, esquecem da misericórdia, do grande pacificador que foi Jesus Cristo e exaltam a matança dos que “não são de bem”, assim considerados muitas vezes pela cor da pele e da condição social.

A movimentação de pesados veículos verde-oliva traz à memória cenas do golpe de 1964, uma tragédia na vida nacional, e gera na mente a incômoda pergunta: será que eles sabem mesmo o que representa o Exército nas ruas, o avanço sobre o alvo inimigo, que pode ser qualquer um de nós, sob a ótica de guerra com a qual os soldados são treinados? O cenário de guerra leva a outro questionamento: a quem interessa  isso, no momento em que o comando da nação está nas mãos de um grupo de políticos delatados na Lava-Jato e às voltas com processos judiciais por corrupção?

Dois meses atrás, o Espírito Santo foi tema de ampla matéria em mídia nacional como exemplo de boa gestão pública, por meio de um ajuste fiscal, com austeridade nos gastos, dentro do mais puro modelo neoliberal. As medidas, no entanto, atingem diretamente os servidores públicos, incluindo policiais militares com vencimentos defasados em alguns casos há mais de sete anos, alimentando o barril de pólvora que explodiu no fim da semana passada. O terror que tomou conta do Espírito Santo mostra claramente que o paraíso não é aqui, ao contrário do que dizem peças publicitárias do governo e matéria jornalísticas engenhosamente plantadas.

Passado esse momento dramático, em que a população vive o drama da ausência de um Estado falido, bom seria que as políticas públicas se voltassem, efetivamente, para áreas urbanas transformadas em guetos, onde o saneamento básico, mobilidade urbana, lazer, educação, saúde e iniciativas culturais, segurança pública e justiça e toda a infraestrutura apresentam  elevada precariedade. Além disso, o consumismo, a destruição das famílias e o individualismo acirram a violência e nos transforma em vítimas de uma sociedade que se autodestrói a cada dia. Os poderosos não se dão conta, preocupados que estão em construir discursos hipócritas visando seus interesses e a colheita de dividendos políticos.

O cenário daqui não é único. Mostra a realidade do Brasil atual, de desgoverno, injustiças, perseguições e total anormalidade institucional. Um quadro que só tende a se agravar. Por isso, temos que pensar na brutalidade e a estupidez da guerra, o que me traz à lembrança a última estrofe do poema “O vosso tanque, general, é um carro forte”de Bertolt Brecht , que diz assim:   “O homem, meu general, é muito útil: Sabe voar, e sabe matar, Mas tem um defeito
– Sabe pensar!”.

 

2 pensamentos sobre “Os tanques de guerra e a marcha dos insensatos

  • 12 de fevereiro de 2017 em 17:39
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    Muito bom ouvir uma voz equilibrada, mas crítica em meio ao discurso tantalizante que fascina os que vivem uma realidade distinta daquela que sofrem os massacrados de sempre.

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  • 6 de março de 2017 em 15:26
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    Parabens Coronel,um leitura sobria e equilibrada da situaçao sem nenhum vies politico ou partidario,tbm sou filho de um Coronel da reserva da PMES e lamentavelmente vemos a penuria a qual vive a questao da segurança publica no estado.
    A PREGUNTA QUE NAO QUER CALAR!!!!!
    QUANDO PH AGIRA COM SERIEDADE NA SEGURANÇA PUBLICA?

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