A Odebrecht quebrou a “Omertá”, e agora?

 Roberto Junquilho

O mais famoso código de honra de delinquentes, a “Omertá”, na forma como engendraram seus criadores, os mafiosos italianos, foi quebrado. O poderoso chefão da Norberto Odebrecht, Emílio, com um riso cínico a aflorar os lábios, falou com todas as letras perante o seu inquiridor: a corrupção da classe política por meio do caixa 2 é antiga, com mais de 30 anos, e a imprensa sabe disso: “Por que tanta surpresa?”, pergunta, sarcástico.

Não muito longe de onde ele estava o filho Marcelo, seu sucessor na engrenagem da corrupção que arrasta a maioria dos caciques políticos brasileiros desde a década de 80, confirma sem qualquer cerimônia: “Não existe político eleito no Brasil sem o uso do caixa 2”. Outros companheiros do crime, os chamados executivos da grande organização, adotam o mesmo procedimento e desfilam nomes, planilhas, dados de contas bancárias e encontros sigilosos em palácios e hotéis de luxo, com a presença de cabeças coroadas da República, inclusive o golpista Michel Temer, citado em uma denúncia de propina de R$ 40 milhões.

A partir de agora, quase uma centena de políticos terá que arcar com o prejuízo. Do Espírito Santo estão na relação desde estafetas da propina como Neivaldo Bragato, o prefeito de Vitória, Luciano Rezende, o ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas, os prefeitos de Serra e Vila Velha, Audífax Barcelos e Max Filho, o ex-governador Renato Casagrande e o atual, Paulo Hartung, seu vice, César Colnago, o senador Ricardo Ferraço e outros menos votados, como Sérgio Borges, conselheiro do Tribunal de Contas.

Todos alegam inocência e alguns podem de fato comprovar essa afirmativa, mas, em contrapartida, carregarão para sempre a marca gerada por meio de relações espúrias com o empresariado corrupto das grandes corporações. A ruptura da “Omertá” é uma fratura exposta da classe política brasileira, cuja atuação é historicamente caracterizada pela hipocrisia e voltada exclusivamente para o enriquecimento pessoal.

O desdobramento das revelações começa a aparecer, apesar da manipulação dos meios de comunicação, em especial os grandes grupos, como a Globo, velho cúmplice de práticas nocivas à nação. Os arautos da moralidade estão desmoralizados, entre eles líderes religiosos apaniguados do gangster Eduardo Cunha, de Aécio Neves e José Serra, campeões no recebimento de propina, juntamente com Geraldo Alckmin.

O que virá agora que o silêncio entre os cúmplices foi quebrado? O governo federal, estados, prefeituras e o Congresso estão envolvidos até o pescoço com lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e formação de quadrilha e, nessa situação, ainda se atrevem a discutir reformas que nortearão os rumos do Brasil.

Tarefa difícil é achar uma saída nesse cenário, pois quem terá legitimidade para adotar medidas que resultem na retirada da quadrilha que se instalou no Planalto e reunir força para convocar eleições diretas e possibilitar a punição dos culpados? A morosidade do Judiciário e os acordos que já começam a se esboçar nos escalões superiores não oferecem boas perspectivas.

Desse modo, a alternativa para mudar a situação passa pela mobilização popular em defesa de um amplo referendo para uma reforma política de fato, sem os costumeiros conchavos. O governo e Congresso atual não têm condições morais de atuar em alterações nas leis do País, como a reforma da Previdência,  impossibilidade que atinge em cheio lideranças, entre elas Lula e vários de seus ex-colaboradores, todos citados pelos delatores com ricos detalhes.

A relação inclui mais de 50 políticos que se notabilizaram por combater a corrupção na campanha pró-impeachment da presidenta Dilma Rousseff, numa clara demonstração de hipocrisia. Os citados estão por toda parte, em Brasília, estados e municípios cujos chefes do Poder Executivo, como Paulo Hartung e Luciano Rezende, no caso do Espírito Santo, estão envolvidos nas delações, juntamente com outras lideranças. Eles se deixaram levar pela prática de que os fins justificam os meios, com uma visão direcionada exclusivamente na busca do poder.

Nesse cenário de perplexidade, vale lembrar as palavras de Ulysses Guimarães, o Dr. Ulysses: “O poder não corrompe os homens, são os homens que corrompem o poder”. É o mesmo o que diz a Bíblia no texto de 1ª  Timóteo 6:10: “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos ao males”. A ruptura da “Omertá” varreu grande parte da classe política para a vala comum dos que estão fora da lei e  esse fato os diplomas e títulos honoríficos não podem esconder.

 

3 pensamentos sobre “A Odebrecht quebrou a “Omertá”, e agora?

  • 16 de abril de 2017 em 22:00
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    Faltou mencionar entre os delatados a Iriny Lopes, o Carlos Casteglioni e o Rodrigo Coelho…

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  • 17 de abril de 2017 em 04:07
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    A ruptura da Ormetá, que atinge a todos indistintamente, acaba com essa hipocrisia desses paladinos da moral e da ética, que se arvoram apontar seus dedos (im)puros para seus adversários políticos. O atual dono da capitania hereditária do ES, mais conhecida como o “velho oeste onde vivo” junto com outros políticos puros, uns até com uma auréola de santo, há alguns anos disseram ter varrido o crime organizado instalado na política do ES. Agora, eles próprios são parte dessa organização criminosa internacional, sem o menor pudor, com a cara lavada e risinhos cínicos, estão atolados pela lama movediça que está quase lhes cobrindo a cabeça.
    No velho oeste onde vivo, os hipocritas ocupam todas as instituições dos 3 poderes, é só investigar quais construtoras construíram os prédios do Judiciário e MP, nas últimas 3 décadas para ver que não escapa ninguém! Estou pagando para ver todas as máscaras caindo, expondo as vísceras a céu aberto para que a população veja que a algo de podre no reino do velho oeste!
    Haverá acordo de cavalheiros para se salvarem depois dessa ruptura!

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