Mulher “noiada” mostra a falência de programas sociais

Roberto Junquilho

“Dá um dinheiro pra eu tomar café”, diz a mulher, olhar opaco perdido por trás dos óculos dependurado na face morena, quase negra, cabelos escorridos com manchas de sujeira. Magra, tem 31 anos, está na rua há oito meses, deixou o marido e os dois filhos na periferia do município de Viana, na Grande Vitória, onde morava. “Foi depois de uma discussão, coisas que não gosto de lembrar, sabe?” Vejo na mulher a falência dos programas sociais, principalmente o “Onde Anda você?”, lançado há três anos pela Prefeitura de Vitória, com melosos discursos e farta campanha publicitária.

Você usa crack? Não, responde em tom ríspido e ao forçar os lábios deixa à mostra pequenos ferimentos, talvez provocados pelo uso do cachimbo com a droga, e que a faz exalar um odor forte misturado com o hálito malcuidado. A mulher usa vestido azul desbotado, sujo, calça sandálias de um marrom escuro, velhas, a sustentar pernas incrivelmente finas de um corpo que vai se consumindo sob o peso da permanente da degradação social cada vez mais intensa. Como ela, centenas de pessoas perambulam pelas ruas de Vitória, sem rumo certo. 

O encontro casual ocorre em frente a uma padaria, ao lado da Terceira Ponte e próximo ao maior e muito visitado shopping center de Vitória. Não vou lhe dar dinheiro, mas lhe pago um café com pão, você quer? Ela balança a cabeça em sinal de concordância, caminha devagar, como se calculasse cada passo, para não cair. Olhar fixo no chão, nem liga para o que diz o rapaz do caixa:

Ela é “noiada”.  O tom de desprezo não a incomoda mais, acostumou-se com o preconceito, muito maior para ela, por ser mulher. Tento consolá-la: “Não ligue para isso, o amor de Jesus pode lhe tirar dessa vida. Você quer?” Sim, ela diz, e informa à atendente que é “pra viagem”. Vai dividir com o companheiro da rua que a aguarda a poucos metros de onde estamos.

Acompanho-a até a calçada, pergunto se que ela quer sair das ruas, ela muda de ideia, diz que não, vai dar um tempo. “Falar de Jesus foi bom, já fui da igreja Assembléia (de Deus) lá em Viana”, esboça um sorriso, e, ao mesmo tempo, recusa ajuda. A mulher se despede e some na pilastra da ponte. Vai ao encontro da parte que lhe resta neste cenário de desigualdade social secular, de injustiças, ódio, intolerância e preconceito.

O lanche que lhe dei em nada vai alterar sua condição de vida, a não ser aplacar a fome por alguns momentos. Na mente, me vem a pergunta: o que é feito do programa Onde Anda Você?, a badalada ação de Luciano Rezende lançada em seu primeiro mandato na Prefeitura de Vitória, em 2013. Depois de alguns meses de relativo sucesso, desandou.

Basta um rápido olhar nas ruas da cidade para ver a degradação da vida e o descaso dos órgãos oficiais. A constatação é que as políticas públicas são tratadas apenas como fatores imprescindíveis para alavancar capital eleitoral para políticos. Muito longe estão as condições sociais do usuário, maioria absoluta nos cantões de pobreza das periferias dos grandes centros urbanos. O foco não é este e, sim, o que os programas antidrogas possam render politicamente.

Sob esse prisma, que importa a mulher que me pede um café, os grupos de usuários espalhados pela cidade em infame procissão de zumbis e a cena chocante como a que vi tarde da noite de um domingo deste mês de julho ao lado de um posto de gasolina na Reta da Penha, uma das principais avenidas da cidade? Acomodados na calçada ao lado de um latão de lixo, dois garotos, de 12 para 13 anos de idade,  se preparavam para acender um cachimbo com a droga e expressavam sua alegria com sonoras gargalhadas.

Nesta cena de horror, em meio à falência dos sistemas humanos, inclusive os religiosos, e de discursos hipócritas da classe política, o que fazer, a não ser clamar a Deus? As soluções humanas perderam o sentido, o amor ao próximo sumiu no labirinto das vaidades, da autoestima exacerbada, da arrogância e da soberba, integrado pelas  chamadas “pessoas de bem”. Os líderes aceitam suborno, sacerdotes ensinam por interesse e profetas adivinham por dinheiro, como já dizia o profeta Miqueias há quase 3.000 anos. Como o olhar daquela mulher, o cenário da humanidade mantém uma visão sombria que a impede de enxergar pelo menos um pouco além do seu próprio umbigo.

Um pensamento sobre “Mulher “noiada” mostra a falência de programas sociais

  • 18 de junho de 2017 em 08:41
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    Roberto bom dia!O titulo me chamou a atenção,(mulher noiada)voçe comentou uma mulher de rua,mas a coisa está muito pior,está dentro de nossa casa o sexo feminino está bebendo fumando e a sociedade não está nem aí só se toca quando vê um dos seus no fundo do poço.
    E aí não temos uma politica voltada para elas,os programas de governo são fracos ,pessoas sem nenhuma condições de está À frente.querem ditar normas,
    O Caso da Cracolândia SP,eu pergunto.As ONGs e direitos humanos são contra a retiradas e fazer uma triagem a eles qual seria a decisão e ação correta deles quanto ao caso.?

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