O cinismo explícito e a esperança de fora Temer renovada

Roberto Junquilho

27/06/2017- Brasília- DF, Brasil- Presidente Michel Temer durante pronunciamento com parlamentares que apoiam o governo. Foto: Lula Marques/AGPT
Foto: Lula Marques/AGPT

Usa todo o aparato do Estado, se cerca de parlamentares vendidos e de outros membros da quadrilha, diz que nunca foi corrupto, tem honra, é do bem, nega as fortes evidências e as provas irrefutáveis como cheques nominais a ele, as gravações que comprovam suborno. Desqualifica a cena cinematográfica com Rodrigo Loures, o homem da mala, correndo na noite paulistana com meio milhão de reais em propina para o capo de tutti capi, nada menos do que ele próprio, Michel Temer, o presidente ilegítimo da República, possuidor de extensa ficha de malfeitos. Ele está na TV, na tarde fria e chuvosa de terça-feira 27.

Vejo a bizarra cena e surpreendo-me com um isolado som de panela que sai do andar de cima, o 14º, acompanhado de gritos fora Temer. Chego à janela, observo os prédios em volta ao meu e, de repente, o barulho some. O protesto isolado silencia, certamente por não encontrar ressonância nos vizinhos, que há alguns meses participaram do grande alarido nacional contra a corrupção, em defesa da ética e da moralidade na política. Dilma tinha que sair, mesmo sem ter cometido crime, Michel Temer era o cara, cidadão do bem, assim quis o Congresso em espalhafatosas e infames votações.

As panelas se calaram, hoje as praças não se enchem mais de centenas de pessoas com camisas amarelas, bandeiras agitadas, bonecos inflados com a figura de Lula e Dilma “bandidos, gênios do mal, chefes de quadrilhas”, segundo as manchetes de jornais, carros de som, palhaços, uma festa que fez a classe média obtusa vibrar.  Grupos organizados financiados pelo capital estrangeiro incrustados no País tomaram as ruas, ganharam tempo e espaço na mídia, tudo dentro de um roteiro previamente traçado. Da mesma forma como em 64, agora sem fuzis e baionetas, mas com o verniz da legalidade cuidadosamente colocado pelos tribunais manchados pela hipocrisia histórica.

No cenário atual, de caos generalizado, há um sentimento de desesperança, que alcança também os do andar de baixo na camada social que foram manipulados pela mídia e, ao defenderem o golpe, se colocaram ao lado de seus algozes. A presidenta Dilma Rousseff não está mais no poder, foi deposta, a jovem democracia brasileira está ferida, agora em chagas mais doloridas causadas por uma corrupção intensa, como uma fratura exposta, revelada nos cantos escuros de grandes empresas, nos palácios e tribunais. A corte está apodrecida.

Volto à TV, vejo o presidente ilegítimo falar de honra e enquanto a fina chuva cai e uma rajada de vento frio invade o ambiente, me vem à memória o nome de Ethan, o personagem do livro “O inverno de nossa desesperança”, do escritor norte-americano John Steinbeck (1902/1968). Como Ethan, Temer despreza a ética e a moral para ganhar dinheiro e a admiração de todos e vive em meio a grandes conflitos. Em seu discurso, o presidente ilegítimo tenta cobrir-se com o tecido da honestidade, mas só seus cúmplices conseguem vê-lo assim. Na realidade, está coberto de vergonha.

Na noite anterior, eu tinha visto Galeria F, o excelente documentário de Emília Silveira sobre Theodomiro Romeiro dos Santos, Théo, militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), preso e torturado pela ditadura durante nove anos e o primeiro brasileiro condenado à morte. Antes de sua prisão, lá pelos idos de 1969/70, ele passou uma noite escondido em minha casa, na cidade de Itabuna, na Bahia. O filme mostra a saga de Théo, que fugiu da prisão em 1979, foi para o exterior, e hoje é juiz do trabalho aposentado em Pernambuco. Um herói, como vários outros, inclusive os mais de 600 desaparecidos na tragédia de 64.

A bela cena final o filme mostra Théo andando de um lado para outro na cela em que ficou durante tanto tempo, em Salvador, e gerou uma pergunta entre eu e minha esposa: valeu a pena aquela luta, quando anos depois vemos uma quadrilha tomar o poder e transformar o Brasil num caos como nunca visto? Sim, valeu a pena, é o nosso sentimento, porque bate em nossos corações a esperança de que o País irá se levantar,  com o grito das ruas e a rejeição pelo eleitorado da parte mais podre da classe política.

A denúncia do procurador Janot já está na Câmara dos Deputados, seguindo os trâmites legais, de acordo com o ministro Edson Fachim. Espera-se que essa escória seja punida e, principalmente, receba a derrota nas urnas. Para Temer, a justiça será feita com a perda do mandato que ele ocupa indevidamente, a indenização aos cofres públicos de ao menos R$ 10 milhões, como quer o procurador, e, quem sabe, a cadeia. Para que a população possa confirmar o que diz o livro de Provérbios 30:5: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. Ou como disse Thiago de Melo, o poeta: “Faz escuro, mas eu canto”.

Fora Temer!

Um pensamento sobre “O cinismo explícito e a esperança de fora Temer renovada

  • 14 de julho de 2017 em 09:20
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    Bom dia Junquilho .
    Meus parabéns , pela escrita, tão quanto à informação , sobre Theodomiro .
    Pode informar-me, como posso ter acesso ?

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