Diante do crime, a democracia sul-americana desaba

Roberto Junquilho

Toma corpo no Brasil, envolta em uma onda com nítidos sinais da paranoia que vê como ação comunista tudo relacionado à justiça social, uma imagem distorcida da crise aguda na Venezuela. Como todos os governos sul-americanos que rejeitam a cartilha do Consenso de Washington, criado por Ronald Reagan e acelerado por Bill Clinton, o País vizinho também é alvo de uma campanha de criminalização com maciço apoio da mídia mantida pelos mercados controlados pela elite mundial.  O Brasil vive situação parecida, com o risco de agravamento em futuro muito próximo.

02/08/2017- Guarulhos- SP, Brasil- Manifestantes durante bloqueiam a via Dutra durante manifestação contra o presidente Michel Temer Foto: Povo sem medo
Manifestantes bloqueiam a via Dutra pedindo a condenação de Temer.Foto: Povo sem medo.

Enquanto por aqui o golpe consegue se manter, diante do reduzido volume de protestos, da cumplicidade da midia e da seletividade da justiça, com enormes prejuízos nas áreas social, política e econômica, na vizinha Venezuela o povo se levantou e o país vive um clima de guerra civil, com mais de 100 mortes.

O desdobramento das investidas golpistas de lá coloca a nu o apoio da imprensa sabuja e a chancela do império do Norte, no mesmo formato do que acontece aqui, para consolidar a derrubada do governo eleito e a manutenção de políticas neoliberais com arrocho das classes pobres.

No Brasil, a história registra ações como essas, sendo a mais recente a que jogou por terra mais de 54 milhões de votos dos brasileiros e submeteu o País a um ato vergonhoso com a derrubada da presidente eleita, Dilma Rousseff.  Os conceitos oscilam de acordo com os interesses: no país vizinho é golpe, aqui, não.  Michel Temer fica, vira autoridade legitimada por um Congresso com a maioria composta por corruptos e uma justiça injusta, cujos atos podem transformar o Brasil numa Venezuela em futuro bem próximo.

Não foi isso o que se viu nesta quarta-feira 2 de agosto? A Câmara dos Deputados montou um autêntico circo de horrores para analisar denúncia de corrupção contra Michel Temer. Uma expressão de democracia da mentira, por conta da compra de parlamentares como se fosse a coisa mais natural do mundo. No comando dessa operação estão notórios criminosos. Mas isso não importa, o golpe tem que prosseguir.

Na Venezuela, sem entrar no mérito das particularidades do regime adotado por Nicolás Maduro, o governo realizou uma Constituinte com alta participação da sociedade civil organizada em sindicatos, associações e outras entidades representativas. Valorizou o voto popular, mas, mesmo assim, é vítima de um massacre midiático de poderosas organizações, como a Rede Globo, visando deturpar o conceito de democracia, jogando-o em uma esfera distanciada dos anseios populares. O objetivo maior é a ampliação do poder geopolítico, a ocupação de espaços estratégicos, a exploração, o controle total.

Nesse contexto, a América Latina, na visão dos estrategistas norte-americanos, não pode deixar de ser submissa às regras formuladas desde a tomada de parte do território mexicano, da anexação do Alaska e do seqüestro de parte da América Central pelos Estados Unidos. Qualquer tentativa de independência no Continente é repudiada e alvo de ações colaborativas ou até de invasões de espaços alheios, como mostra a história.  A soberania dos povos que se dane.

Basta olhar a cena nacional e seus desdobramentos regionais, sem exceção, para prever o que vem por aí. Os atores principais integram o que existe de pior na classe política, tanto em Brasília como nos estados, causando profunda decepção ao cidadão, que sem muitas opções parte para as piores escolhas, como sempre acontece em situações de desespero. O crescimento de Jair Bolsonaro como postulante à Presidência da República deixa isso bem claro.

O Continente agoniza. Na Venezuela, a violência toma as ruas e crescem as  ameaças de uma invasão armada. No Brasil, o dia-a-dia do cidadão desmente o tom otimista do noticiário, comprado com altíssimas verbas publicitárias. A violência cresce, apesar das Forças Amadas nas ruas do Rio, a ex-Cidade Maravilhosa, e de operações como a do bairro da Penha, em Vitória, neste inicio de agosto. O Estado tem que mostrar serviço, faz parte do plano, mas as políticas públicas para conter a criminalidade são frouxas, descontextualizadas da realidade social, como indicam dados estatísticos.

O crime não está somente nos locais patrulhados pela força, onde residem os pobres e oprimidos. Está incrustado nos chamados bairros nobres, nas esferas de poder, no comando dos negócios e goza de impunidade e de regalias impensáveis para o restante do povo cujos direitos estão sendo tomados e que, manipulado, ainda bate palmas para os delinquentes que os exploram.

#foratemer  #diretasjá

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