A Força Nacional e o marketing de uma falsa segurança

Roberto Junquilho

Seria cômico, mas é terrivelmente trágico, o resultado da mega-operação com a participação de quase cinco mil homens, sendo 3.600 das Forças Armadas, realizada neste fim de semana, no Rio de Janeiro. Foram apreendidas três pistolas, duas granadas, quatro quilos de cocaína, 14 quilos de maconha e 14 adultos presos, a um custo altíssimo.

Apesar desse pífio balanço, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, comemorou. Disse que a operação produziu resultados marcantes, destacando o de “acabar com o mito do crime organizado poderoso”. O ministro certamente esqueceu que o crime organizado de verdade continua atuando impunemente, independente de mega-operações focadas, exclusivamente, em áreas varejistas do tráfico de drogas, ou seja, na periferia dos grandes centros urbanos, cuja população é majoritariamente constituída por pobres. Mas o objetivo maior foi alcançado: gerou a chamada pauta positiva para o impopular e ilegítimo governo, invadiu o noticiário, mexeu com o público.   

O comando mesmo, de verdade, está em locais mais aprazíveis, em luxuosos gabinetes, não sai na mídia, goza de privilégios, como mostram casos como o do helicóptero do senador Zezé Perrela, de Minas, apreendido no Espírito Santo com mais de meia tonelada de pasta base de cocaína, e o do avião com quase uma tonelada da mesma droga encontrado em uma fazenda em Mato Grosso. Ninguém mais fala no assunto, morreu, deixou de ser notícia, saiu da mente da maioria das pessoas. Uma justiça seletiva mantém encarcerados milhares de pobres pretos e suburbanos sem culpa formada, enquanto dá liberdade a privilegiados pilhados na prática do crime, como o  filho de uma desembargadora de Mato Grosso do Sul, preso com drogas e armas.

É que o tom do marketing político segue em outra direção, com a finalidade de levantar uma onda de opiniões favoráveis a um governo cuja marca não é a honestidade e muito menos a ética. Vale lembrar o que disse o jornalista e pesquisador Walter Lippmann  no seu livro “Opinião Pública”, editado em 1922. “Opinião Pública é fruto da ação de grupos de interessados ou de pessoas agindo em nome de grupos. A opinião reconhecida como pública, então, seriam as opiniões feitas públicas. E não as opiniões surgidas do público”.

O objetivo da mídia, de fato, é a manipulação das massas, como um rebanho desorientado que precisa ser guiado por uma instância superior, os detentores do poder. Nesse contexto,  ocorrem transformações: acusadores viram julgadores,  surgem inimigos imaginários, como bem acentua Adorno, a ignorância e a falta de reflexão crescem, a onda fascista avança. Diante da impossibilidade de conhecer a realidade, a massa manipulada através dos canais de comunicação oficiais ou sustentados pelo dinheiro público acata idéias e adota comportamentos contrários ao próprio ao de existir do ser humano.

Neste cenário do salve-se quem puder, no qual o individualismo, a autoestima e o amor-próprio são valorizados ao extremo gerando arrogância e prepotência, o que vale é o orgulho gerador de ódio, disseminado num contexto de heróis e vilões segundo o conceito dos donos do poder econômico. Estes controlam a mídia, a classe política e todas as outras áreas de atividades. Não há lugar para o amor, o tempo é mau, como previsto no texto bíblico de 2 Timóteo 3:1-4:

“Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus”.

As operações de guerra são sempre válidas, caso os alvos sejam, de fato, os comandantes do crime organizado. Atacar o varejo, com extremo constrangimento imposto aos mais pobres, é com enxugar gelo. Pode contribuir para acalmar a opinião pública, mas não soluciona a questão, que é, essencialmente, politica, e passa pelo fim da impunidade que transforma notórios criminosos em intocáveis, com se vê diariamente no Brasil atual, notadamente na classe política. O crescimento da violência vai continuar, no Rio e em todos os cantos, porque o sentimento de solidariedade acabou, a generosidade cedeu lugar ao ódio, o homem perdeu o temor a Deus.

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