Fuzis e baionetas, nunca mais!

Roberto Junquilho

A ameaça de um golpe militar é real e deve ser motivo de temor para quem vive o trauma histórico, sofreu o pesadelo de 64 e passou pelos 21 anos da ditadura no Brasil, regime responsável pelo fortalecimento de corporações poderosas que hoje estão metidas em processos de corrupção, muitas delas na operação Lava-Jato. A demonstração mais clara da ameaça é o posicionamento de militares de altas patentes às declarações do general Mourão, agravada com a total ausência de autoridade do presidente ilegítimo, Michel, o usurpador. As meias palavras do comandante do Exército, general Vilas-Boas, deixam as coisas no ar, indefinidas.

O presidente está mais preocupado com a segunda denúncia da Procuradoria Geral da República por ser suspeito de praticar corrupção e chefiar uma organização criminosa. O alvo da Procuradoria é a quadrilha que depôs a presidente Dilma, leva o País ao fundo do poço e abre as portas a todo tipo de corrupção, impunidade e seletividade por parte de organismos que deveriam manter uma isenção político-partidária. Somado a processos de dilapidação de riquezas nacionais e supressão de avanços sociais, esse mergulho no caos descortina um imenso retrocesso socioeconômico, político e cultural.

E aí se forma um cenário mais do que propício para o alarido tresloucado de quem defende o uso de fuzis e baionetas como solução para os problemas. No Congresso, igualmente recheado por corruptos, não se ouviu protesto de imediato à fala do general Mourão, exceção do senador Randolphe Rodrigues, que bradou para um plenário quase às moscas o clamor da sociedade em favor de um Brasil melhor, pela via democrática. Para piorar as coisas, muitos são os que acreditam que a salvação virá com uma intervenção militar.

Um exemplo é o deputado federal Cabo Daciolo, crente de que uma intervenção militar tiraria “os corruptos, os bandidos que estão colocando sobre o povo uma carga muito pesada”. O parlamentar amplia o eco do engano que toma mentes cauterizadas, de pesadas cores fascistas, que devem ser contestadas para que não se repita a tragédia de 64, trazendo com ela atos de crueldade, morte, corrupção, desmandos e ilegalidade em todas as áreas. É bom lembrar os presos políticos assassinados ou desaparecidos, a enorme dívida pública e as maracutaias identificadas em grandes obras dos governos ditatoriais.

Os defensores dos fuzis e das baionetas repetem o equívoco histórico da “Marcha com Deus pela Família” de 64 e outros movimentos financiados, na época, por forças cujos interesses são diametralmente opostos aos do Brasil. Essas mesmas forças agiram para organizar, no ano passado. grupos contrários à democracia, que  encheram as ruas e bateram panelas em protesto contra a presidenta Dilma Rousseff. São os mesmos que se calam diante de provas de corrupção de seus eleitos, muitos dos quais continuam se articulando livremente, como Aécio Neves, ignorados por um Judiciário capenga e seletivo e uma mídia com a mesma postura que tornou possível o golpe militar e, também, a sustentação da ditadura.

Apesar de todo o caos, como boiada tocada pelo vaqueiro sem saber para onde vai, a massa desinformada ainda se encanta com o canto da sereia emitido por heróis da hipocrisia. É nesse cenário nebuloso que um tipo como Bolsonaro chega à marca de 19% na preferência do eleitorado. Seu crescimento assusta e com ele cresce a ameaça de uma reconstrução do País que permita retomar o crescimento econômico e os avanços sociais.

No Brasil atual, as instituições estão funcionando precariamente, inclusive o Judiciário, e por isso cabe aos canais democraticamente organizados, que de fato representam a sociedade, posicionar-se contra mais essa afronta à Constituição Federal. Os militares não possuem um carimbo de ética e honestidade, como muitos pensam. São humanos e estão sujeitos aos mesmos desvios de caráter de qualquer um e  os ninhos de corrupção que vieram à tona depois de 64 representam o exemplo histórico dessa afirmativa. Ditadura, nunca mais!

Um pensamento sobre “Fuzis e baionetas, nunca mais!

  • 29 de setembro de 2017 em 20:19
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    É isso, caro Junquilho! Um texto lúcido, coerente, direto, claro.
    Serve como registro tanto histórico quanto testemunho pessoal, tenho certeza.
    Esse texto deveria ser lido por professores de Sociologia, de História – mas, acima de tudo, por pais que querem um país melhor para seus filhos.
    Valeu!!!!
    Abraço!

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