Este blog fica por aqui

Roberto Junquilho

Com este texto encerro o blog Panorama Atual. Neste espaço foram abordados temas de relevância para a sociedade, principalmente em defesa de uma democracia plena que alcance camadas mais pobres da população, consolide conquistas sociais e impeça retrocessos como os registrados em áreas sensíveis do país depois do golpe que depôs a presidenta Dilma Rousseff e é a causa da maior crise política e econômica da história.

O fim do blog ocorre pela impossibilidade de manter com regularidade a colocação de assuntos da forma como eu gostaria, em decorrência de outros afazeres que tomam a maior parte do tempo. O ato de escrever continua em outras plataformas, porque ele é imperioso para o exercício da observação crítica de uma sociedade desigual marcada pelo preconceito, um ódio gerador de violência e hipocrisia estampada em manchetes diárias.

Exemplo disso são declarações da classe política e de agentes públicos importantes, como a da ministra Carmem Lúcia, presidente da Suprema Corte. Ao afirmar recentemente que “o clamor por Justiça não será ignorado pelo Supremo”, ela fecha os olhos a tantas injustiças que passam batidas, às perseguições e aos gritos de oprimidos que caem no vazio dos escaninhos da burocracia institucional. Na maioria dos casos, os pretos e pobres são as vítimas, confirmando um cenário secular de abandono cruel.

Junto à observação crítica a indignação permanece, pois não há como ser diferente diante do vai-e-vem de uma quadrilha no comando do país, com a benevolência da imprensa chamada grande a noticiar com a maior naturalidade falcatruas e a compra de deputados pelo presidente denunciado, para não ser apeado do cargo que usurpou, juntamente com seus ministros.  Não tem como se calar quando valores são violentados. Um exemplo está na postura da chamada bancada evangélica ao lado de notórios corruptos usando o nome de Deus em defesa de seus interesses e de suas empresas que chamam de igrejas. E a massa com a mente cauterizada vai às cegas, qual rebanho sem pastor.

Recebi elogios, críticas e xingamentos dos que me têm como petista, esquerdista, termos grafados sempre com ódio e preconceito. Não sou uma coisa nem outra, dispenso os rótulos, permaneço fiel aos ensinamentos de Cristo, que ordena amar ao próximo, ser generoso, igual, sem me deixar enganar por falsos líderes e profetas desinformados.  Estes são bajuladores dos que estão no poder e se acostumaram a pisar os mais humildes. Navegam no mesmo barco do fascismo, truculento e irracional, falam de moralidade, apontam o dedo acusatório para o que chamam de esquerda e fecham os olhos diante de crueldades praticadas por “pessoas de bem”, ou seja, a direita secularmente hipócrita.

Obedecem a um tipo de credo como o que aflora nas declarações do presidente da Amil, a maior operadora de planos de saúde no Brasil, Cláudio Lottenberg, que disse em entrevista à Folha de São Paulo: “O brasileiro está vivendo mais e alguém tem que pagar essa conta”.  É assim, a vida tem um alto preço nessa sociedade fragmentada, onde cada um é levado a olhar para o seu próprio umbigo, como bem disse o sociólogo Zigmunt Bauman: a sociedade atual é líquida, perdeu a solidez da verdade, o que é hoje amanhã não será mais, dentro de seu conceito de uma modernidade líquida, sem consistência.

Sigo em frente, cada vez mais assustado com coisas estranhas neste mundo louco e tenebroso, como o negócio dos créditos de carbono, o lucrativo canal que dá às grandes corporações o direito de continuar poluindo e semeando a morte, estranho  o marketing do engodo da classe política, que exalta a todos os seus integrantes, bons ou maus, criando falsas imagens; a omissão frente à tragédia provocada pela Samarco no rio Doce e  também o excessivo apego às armas de fogo nos Estados Unidos, que nem as repetidas tragédias conseguem parar sua disseminação por todo o planeta, e as guerras totalmente sem sentido.

Combato os sistemas religiosos que exalam ódio em nome de um Deus de amor e abomino o evangelho da moda que se adapta às necessidades da platéia, com o foco no lucro, mascarando o pecado. A indignação não me tira, porém, a firme crença nas palavras de Jesus, que venceu a morte – “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. E assim a vida segue, cheia de esperança,como no texto bíblico de Josué 1:9: “Sê forte e corajoso, não temas nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares”.

Aos leitores, ao querido amigo Rogério Medeiros, que resiste bravamente às investidas da censura, e a toda a equipe de Século Diário, muito obrigado. Vocês me verão por aí.

Um pensamento sobre “Este blog fica por aqui

  • 17 de outubro de 2017 em 14:56
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    Lamento, mas sei como é isso.
    Ter de abandonar um barco que nunca ia à deriva, mas ao destino certo, enfrentando o mau humor do mar.
    Enfim, a orfandade deixará saudades.
    Abraço.

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