A Força Nacional e o marketing de uma falsa segurança

Roberto Junquilho

Seria cômico, mas é terrivelmente trágico, o resultado da mega-operação com a participação de quase cinco mil homens, sendo 3.600 das Forças Armadas, realizada neste fim de semana, no Rio de Janeiro. Foram apreendidas três pistolas, duas granadas, quatro quilos de cocaína, 14 quilos de maconha e 14 adultos presos, a um custo altíssimo.

Apesar desse pífio balanço, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, comemorou. Disse que a operação produziu resultados marcantes, destacando o de “acabar com o mito do crime organizado poderoso”. O ministro certamente esqueceu que o crime organizado de verdade continua atuando impunemente, independente de mega-operações focadas, exclusivamente, em áreas varejistas do tráfico de drogas, ou seja, na periferia dos grandes centros urbanos, cuja população é majoritariamente constituída por pobres. Mas o objetivo maior foi alcançado: gerou a chamada pauta positiva para o impopular e ilegítimo governo, invadiu o noticiário, mexeu com o público.    Leia mais

Diante do crime, a democracia sul-americana desaba

Roberto Junquilho

Toma corpo no Brasil, envolta em uma onda com nítidos sinais da paranoia que vê como ação comunista tudo relacionado à justiça social, uma imagem distorcida da crise aguda na Venezuela. Como todos os governos sul-americanos que rejeitam a cartilha do Consenso de Washington, criado por Ronald Reagan e acelerado por Bill Clinton, o País vizinho também é alvo de uma campanha de criminalização com maciço apoio da mídia mantida pelos mercados controlados pela elite mundial.  O Brasil vive situação parecida, com o risco de agravamento em futuro muito próximo.

02/08/2017- Guarulhos- SP, Brasil- Manifestantes durante bloqueiam a via Dutra durante manifestação contra o presidente Michel Temer Foto: Povo sem medo
Manifestantes bloqueiam a via Dutra pedindo a condenação de Temer.Foto: Povo sem medo.

Enquanto por aqui o golpe consegue se manter, diante do reduzido volume de protestos, da cumplicidade da midia e da seletividade da justiça, com enormes prejuízos nas áreas social, política e econômica, na vizinha Venezuela o povo se levantou e o país vive um clima de guerra civil, com mais de 100 mortes.

O desdobramento das investidas golpistas de lá coloca a nu o apoio da imprensa sabuja e a chancela do império do Norte, no mesmo formato do que acontece aqui, para consolidar a derrubada do governo eleito e a manutenção de políticas neoliberais com arrocho das classes pobres. Leia mais

O cinismo explícito e a esperança de fora Temer renovada

Roberto Junquilho

27/06/2017- Brasília- DF, Brasil- Presidente Michel Temer durante pronunciamento com parlamentares que apoiam o governo. Foto: Lula Marques/AGPT
Foto: Lula Marques/AGPT

Usa todo o aparato do Estado, se cerca de parlamentares vendidos e de outros membros da quadrilha, diz que nunca foi corrupto, tem honra, é do bem, nega as fortes evidências e as provas irrefutáveis como cheques nominais a ele, as gravações que comprovam suborno. Desqualifica a cena cinematográfica com Rodrigo Loures, o homem da mala, correndo na noite paulistana com meio milhão de reais em propina para o capo de tutti capi, nada menos do que ele próprio, Michel Temer, o presidente ilegítimo da República, possuidor de extensa ficha de malfeitos. Ele está na TV, na tarde fria e chuvosa de terça-feira 27.

Vejo a bizarra cena e surpreendo-me com um isolado som de panela que sai do andar de cima, o 14º, acompanhado de gritos fora Temer. Chego à janela, observo os prédios em volta ao meu e, de repente, o barulho some. O protesto isolado silencia, certamente por não encontrar ressonância nos vizinhos, que há alguns meses participaram do grande alarido nacional contra a corrupção, em defesa da ética e da moralidade na política. Dilma tinha que sair, mesmo sem ter cometido crime, Michel Temer era o cara, cidadão do bem, assim quis o Congresso em espalhafatosas e infames votações. Leia mais

Mulher “noiada” mostra a falência de programas sociais

Roberto Junquilho

“Dá um dinheiro pra eu tomar café”, diz a mulher, olhar opaco perdido por trás dos óculos dependurado na face morena, quase negra, cabelos escorridos com manchas de sujeira. Magra, tem 31 anos, está na rua há oito meses, deixou o marido e os dois filhos na periferia do município de Viana, na Grande Vitória, onde morava. “Foi depois de uma discussão, coisas que não gosto de lembrar, sabe?” Vejo na mulher a falência dos programas sociais, principalmente o “Onde Anda você?”, lançado há três anos pela Prefeitura de Vitória, com melosos discursos e farta campanha publicitária.

Você usa crack? Não, responde em tom ríspido e ao forçar os lábios deixa à mostra pequenos ferimentos, talvez provocados pelo uso do cachimbo com a droga, e que a faz exalar um odor forte misturado com o hálito malcuidado. A mulher usa vestido azul desbotado, sujo, calça sandálias de um marrom escuro, velhas, a sustentar pernas incrivelmente finas de um corpo que vai se consumindo sob o peso da permanente da degradação social cada vez mais intensa. Como ela, centenas de pessoas perambulam pelas ruas de Vitória, sem rumo certo.  Leia mais

A Odebrecht quebrou a “Omertá”, e agora?

 Roberto Junquilho

O mais famoso código de honra de delinquentes, a “Omertá”, na forma como engendraram seus criadores, os mafiosos italianos, foi quebrado. O poderoso chefão da Norberto Odebrecht, Emílio, com um riso cínico a aflorar os lábios, falou com todas as letras perante o seu inquiridor: a corrupção da classe política por meio do caixa 2 é antiga, com mais de 30 anos, e a imprensa sabe disso: “Por que tanta surpresa?”, pergunta, sarcástico.

Não muito longe de onde ele estava o filho Marcelo, seu sucessor na engrenagem da corrupção que arrasta a maioria dos caciques políticos brasileiros desde a década de 80, confirma sem qualquer cerimônia: “Não existe político eleito no Brasil sem o uso do caixa 2”. Outros companheiros do crime, os chamados executivos da grande organização, adotam o mesmo procedimento e desfilam nomes, planilhas, dados de contas bancárias e encontros sigilosos em palácios e hotéis de luxo, com a presença de cabeças coroadas da República, inclusive o golpista Michel Temer, citado em uma denúncia de propina de R$ 40 milhões. Leia mais

Os tanques de guerra e a marcha dos insensatos

Roberto Junquilho

Uma semana depois do início da paralisação dos policiais militares reivindicando melhorias salariais, e ainda aturdido com os acontecimentos, ouço aplausos de vizinhos quando vejo o comboio das Forças Armadas borrar a paisagem de  Vitória, em mais um “Dia do Bandido” nesta quinta-feira (9.2). O saldo é assustador: mais de 100 homicídios no Estado, saques no comércio, incêndios, roubos, assaltos, agressões, ódio, intolerância e insensatez, um medo coletivo.

Ao invés de buscar o diálogo com o comando da paralisação da Policia Militar, o governo do Estado optou pela adoção de mecanismos extremos que resultam em um confronto aberto, simplesmente para manter sua política de ajuste fiscal que rende dividendos políticos, infla orgulho e exalta vaidades, mas está longe de resolver a questão. O governo afirma não ter caixa para bancar melhorias salariais reivindicadas pelos PMs e também por professores e o funcionalismo em geral, mas, de outro lado, concede isenção fiscal no montante de mais de R$ 4 bilhões até 2018. Leia mais

Não basta excluir os pobres, é preciso matá-los?

Roberto Junquilho

A chacina de presos prossegue no Norte do País e já passa da casa dos 100. Uma situação que coloca os presídios de várias capitais em estado de alerta, num cenário construído por políticas públicas equivocadas e incapazes de impedir a deterioração de um sistema cuja marca é um estado vingativo, sem a preocupação de resgatar camadas da população historicamente exploradas e desassistidas.  Os números da tragédia mostram que os mais atingidos são pretos e pobres.

Isso está configurado em declarações de agentes públicos do primeiro escalão do governo diretamente envolvidos nas chacinas e no noticiário apelativo e sensacionalista, que colocam o assunto bem distante de um debate profundo sobre a questão prisional no Brasil, principalmente a superlotação dos presídios, a falta de fiscalização e a corrupção que permite o controle das prisões por parte de facções criminosas em grande parte do território nacional. Some-se a esse cenário preocupante o fato de que mais de 40% dos presos brasileiros são provisórios, ainda não foram julgados em primeira instância. Leia mais

“Sono buona gente, ma tutti ladri”

Roberto Junquilho

O cenário no País é de caos, de bagunça generalizada em todos os setores da vida nacional. A população sente o reflexo direto dos desmandos praticados pela classe política, com o manto de um poder Judiciário apático e conivente e o estímulo da mídia familiar elitista que comanda o barco segundo os seus interesses. O governo de Michel Temer não tem mais sustentação do ponto de vista ético e de gestão, em decorrência dos números da economia, das acusações de corrupção entre seus ministros, em especial o ato vergonhoso de Geddel Vieira Lima, seu principal articular político. Está na hora da renúncia.

A pressão da sociedade cresce e os jovens se destacam nos protestos, principalmente contra a PEC 55, e aqui e acolá ocorrem atos contrários às ações nocivas promovidas pelos usurpadores do poder. Mas isso ocorre de forma isolada, na medida em que cada facção partidária da esquerda quer a parte maior do bolo, e, assim, não obtém a força necessária para que possam ser olhados como uma movimentação de massa capaz de mudar a situação. Leia mais

As farmácias, o vicioso círculo lucrativo das doenças

Roberto Junquilho

No local onde funcionava a Calçados Itapuã, fechada há poucos meses, em frente ao Centro da Praia, será inaugurada nos próximos dias mais uma grande farmácia, totalizando nove estabelecimentos desse tipo em um raio de cerca de 300 metros na região da Reta da Penha. Talvez você esteja pensando, como muitos, que a nova loja é sinal de que a população amplia a cada dia sua comodidade, tendo o acesso aos medicamentos facilitado.

Pode ser, mas há outro fator bem mais preocupante: a medicalização da sociedade, como demonstra o crescimento fora do comum dos números do setor farmacêutico. O poderio de corporações transnacionais cujo objetivo é, unicamente, vender mais e não, necessariamente, curar enfermidades, monta um cenário que cobre, principalmente, os países emergentes, como o Brasil. Leia mais

O silencioso e mortal cortejo do pó preto sobre a cidade

 

As nuvens negras passam pela Praia do Canto e se espalham sobre Vitória
As nuvens poluentes passam pela Praia do Canto e atingem toda a cidade

Roberto Junquilho

É de manhãzinha lá pelas 5h40m desse chato horário de verão quando abro a janela. Assusto-me com a marcha silenciosa de nuvens escuras formadas por partículas de minério de ferro e de outras substâncias venenosas sobre o belo contorno da cidade. Invadem o céu e despejam toneladas de veneno, atingem o mar, onde já não se nota o azul, engolido que foi pelas partículas de metal que recebe diariamente, ganhando uma estranha coloração de chumbo.
As gigantes corporações Vale e Arcelor Mittal Tubarão comandam o triste espetáculo, responsável por sujeira, doenças, mortes.

Mas isso não conta, o que importa, de verdade, é a proteção de um modelo econômico distanciado da realidade do cidadão, do bem estar de cada um, com a cumplicidade da mídia e acobertado por promoções tipo Feira do Verde, fazendinhas, reservas florestais, tudo dentro do conceito de engodo característico do marketing, encarregado de dar o verniz aceitável, alvo de elogios e premiações, como recente evento de entidade de classe, ao homenagear a poluidora Arcelor pelo “excelente trabalho social que realiza”. Leia mais