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15/12/2009

Me desculpe, Bandeira


Carolina Ruas


Sérgio Sampaio não estava brincando quando escreveu “lugar de poesia é na calçada”. E não imaginava quanta gente iria perpetuar a idéia. Vinte anos depois da morte do cachoeirense, mesmo entre os que estão iniciando na carreira literária há quem siga a idéia de que a poesia não tem outro lugar que não a boca do povo. Estreante na carreira de poeta, Danilo Ferraz reafirma o ideal de Sampaio, mas com suas palavras: “poesia é uma coisa tão bonita que devia ser mais casual e ocasional na vida das pessoas”, explica. O autor lança A Fábrica, seu primeiro livro de poemas, nesta quarta-feira (16) no Teatro Municipal de Vila Velha.

A Fábrica não tem grandes pretensões, como todo bom livro de estreia de um autor que não se leva a sério. Ainda assim, na própria avaliação do autor “não sei se é um livro comum”, ameaça. O que para Danilo Ferraz é um “antilivro” de “antipoesia”, demorou quase dez anos para ficar pronto sob o formato de poemas de influências várias que passeiam pela música popular e literatura sem cerimônia. “Os poemas dizem sobre a ruptura dos padrões normais da poesia, não respeitam ritmo ou métrica, tem um caráter meio anárquico mesmo”, conta ele.

O conceito anárquico em A Fábrica vem com a questão da forma, e mistura uma série de tendências que vão do humor ao amor, passa pelo concretismo e incorpora poesia futurista, isso tudo povoado de referências a outros escritores, que Ferraz não hesitou em subverter em seu anarquismo poético. “Ele (o livro) zoa com Manuel Bandeira!”, assume, entre outros cânones considerados intocáveis na literatura, como Clarice Lispector, Maiakovski e Bocage. Mas ele explica a tempo “não que eu não goste, pelo contrário, acho genial! Todos eles eu admiro, mas porque essa coisa sagrada que impede de mexer com eles?”, questiona.

Em seu livro, Ferraz propõe uma desglamourização da literatura, utilizando os autores consagrados como personagens em um diálogo que vai contra os estereótipos que colocam a poesia como terreno de “intelectualóide”. Nas suas palavras: “Ao mesmo tempo em que é uma homenagem a eles, também servem para a sátira nos textos. Não gosto dessa erudição intocável da literatura. Acho que isso segrega a poesia e não deveria ser assim”, defende.

E tanto desprendimento tem a ver com o perfil do escritor: até então músico, Danilo Ferraz tem sua formação no rock’n roll, o que reflete diretamente neste estilo rebelde de fazer poesia. “A música aparece no livro também. Aliás, o que me levou à poesia são as letras de música”, explica.

Depois de anos escrevendo sem publicar, Ferraz até então músico e cineclubista – ele participa do Cineclube Central em Vila Velha – encontrou na literatura uma forma de se “expandir da música”. Por ocasião da chegada do edital de incentivo a cultura, A Fábrica, contemplado pela Lei Vila Velha Cultura e Arte, será publicado pela Editora Cousa, uma editora pequena e também iniciante. “Mas já faz dois anos que eu tô escrevendo o segundo livro, dessa vez um romance. Meu lado mais romântico mesmo!”, assume.

Entretanto, Ferraz escolheu o caminho das editoras contando que a Cousa é uma editora que está começando a atuar no estado e tem uma postura diferente quanto à produção capixaba. Recém-lançada enquanto editora capixaba, a Cousa se concentra em lançar livros inéditos em papel, ainda que publicados via internet, alimentando o mercado literário do estado. A Fábrica, de Danilo Ferraz é o segundo título da editora, que iniciou suas atividades em outubro deste ano, com o lançamento do texto da peça teatral Cárcere, de Saulo Ribeiro.

DOIS POEMAS D’A FÁBRICA

poema feito agora
 
pois é,
por umas e outras, que não sei mandar
o meu Maiakovski rimar
pois pensando nela
eu só quero deitar
 
e da pálpebra
até o pescoço
quero o suor dela
pro almoço
 
pra depois descansar
e deitar
e deitar...

* * *   

me desculpe Bandeira,
mas meu primeiro amor foi uma janela
de lá eu vi o mundo estendido pelas madrugadas.

Além das nuvens que cobriam a lua namorada,
convivia comigo
uma tristeza:
a minha insônia minguante nunca entendida
revestia meus olhos.

Nada,
muito menos o namoro de uma  tarde de domingo
vai possuir os carinhos
de uma janela de madrugada

Serviço
O músico e poeta Danilo Ferraz lança A Fábrica nesta quarta-feira (16), às 20h, no em sessão do Cineclube Central, no Teatro Municipal de Vila Velha Praça Duque de Caxias, s/n, Centro, Vila Velha. Haverá ainda exibição do longa-metragem Bang Bang, de Andrea Tonacci. Entrada franca

Saiba mais!
Visite a página da Editora Cousa



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