A celebração da nossa estupidez

Processo que marca o encontro do brasileiro com as urnas é também o que desnuda a nossa verdadeira essência

Passado o efêmero e conhecido efeito anestésico provocado pela Copa do Mundo de Futebol, o Brasil volta a sentir as dores de suas contradições fundadoras, as quais parecem se tornar mais agudas à medida que se aproximam as eleições gerais de outubro. Isso porque o processo que marca o encontro do brasileiro com as urnas é também o processo que desnuda a nossa verdadeira essência. Em última instância, as urnas transformam-se em espelhos nos quais refletimos a nossa própria imagem.   

Para além da apatia e do desencanto sem precedentes com a política, há algo peculiar a ser observado nestas eleições. Enquanto em outros momentos eleitorais, candidatos concentraram esforços na construção da imagem do politicamente correto por meio do dispendioso marketing político – o que de certo modo mascarava a imagem a ser refletida no espelho-urna –, em 2018, ao que tudo indica, boa parte do que se verá na TV, se ouvirá nas ruas e se lerá nos programas partidários, será menos produto direto do marketing e mais a mera reprodução, de forma nua e crua, de parte daquilo que essencialmente somos enquanto sociedade.

De onde emerge o sucesso de um candidato a presidente que aparece liderando algumas pesquisas de intenção de votos que faz, sem nenhum pudor, apologia às mais odiosas formas de violência como uma pueril proposta para o caos que o país vive no campo da segurança pública? Talvez pela percepção de que somos sim uma sociedade cuja sociabilidade não só é marcada pela violência, mas igualmente se enobrece disso e se orgulha de resolver seus conflitos primitivamente no tapa, na faca e na bala.   

Como entender que um candidato cujo discurso de ódio discrimina criminosamente negros, homossexuais e mulheres pode atrair multidões por onde passa?

Talvez porque ele represente sim o quão racista, homofóbica e machista é boa parte da sociedade brasileira e o quão incomodada ela está com os direitos conquistados pelos negros, pelas mulheres e pelos homossexuais nos últimos anos. Melhor seria se os negros continuassem no tronco, as mulheres apenas no fogão e os gays no armário. Este é o sentimento de quem segue orgulhosamente esse senhor.

Como explicar que a elite industrial e financeira deste país aplauda entusiasmada a um candidato que se diz liberal, mas não sabe sequer o significado do tripé fundador da atual política macroeconômica do país? Uma pista pode estar no fato de que ele represente fielmente grande parte da nossa burguesia, intelectualmente limitada e historicamente comprometida com os interesses do capital internacional e desprovida de qualquer projeto verdadeiro de nação.

O que dizer de um candidato que, em plena democracia, defende práticas de tortura, nega que tenha havido ditadura militar no Brasil, planeja um Ministério composto por Generais do Exército e ainda assim é ovacionado por jovens?

A explicação pode vir do autoritarismo político que caracteriza o Estado brasileiro. Fomos forjados enquanto sociedade por um Estado extremamente arbitrário, que usa e abusa de seu poder de coerção para manter um iníquo status quo. A democracia real, substancial e plena não interessa e nunca interessou aos donos do poder no Brasil. Por isso fomos culturalmente forjados como uma sociedade que despreza a democracia, o diálogo e a igualdade e glorifica o Estado forte capaz de controlar os “vagabundos”, “desordeiros”, “subversivos”, sem, contudo, questionarmos efetivamente a quem serve este Estado.  

E a candidatura presidencial não se trata de um caso isolado na política brasileira atual. Cerram fileiras a ela dezenas de candidaturas a deputado, senador e governador que seguem a mesma direção.

Como não se assustar com o sucesso arrebatador de personagens políticos surgidos a partir dos programas sensacionalistas e policialescos de televisão? Pessoas sem qualquer conteúdo político-ideológico-programático que se tornam campeões de voto simplesmente por saber “dizer o que o povo quer ouvir”. 

Como não observar candidaturas que se fortalecem a partir do discurso de ódio aos direitos humanos, mas hipocritamente exploram, de forma vil e repugnante, dramas humanos dos mais terríveis, como o caso de abuso sexual e homicídio de crianças com transmissão de interrogatórios ao vivo pelas mídias sociais, sob o aplauso de autoridades do Ministério Público e do Judiciário?

O sucesso talvez venha da hipocrisia nossa de cada dia. De certo modo, nos reconhecemos naqueles que se aproveitam da comoção de uma tragédia para vestirem a carapuça do bom moço, defensor da “família” e dos “valores cristãos” e assim escondermos os nossos próprios demônios.

As eleições de 2018, assim, antes de se afirmarem como uma oportunidade, absolutamente urgente e necessária, de reconstrução nacional, de um reencontro do nosso povo com um projeto popular e soberano de nação, pode se tornar um espaço de aprofundamento de nossas contradições. A chamada festa maior da democracia pode se afirmar, assim, como a grande celebração da nossa estupidez, da nossa incapacidade de construirmos consciência política. Celebraremos a nossa ignorância política. Aplaudiremos a nossa mediocridade. Brindaremos o nosso atraso civilizatório e seguiremos sendo o Brasil de sempre. 


Bruno Alves de Souza Toledo – É professor de Direitos Humanos e Doutorando em Política Social pela Ufes

3 Comentários
  • Eduardo , terça, 31 de julho de 2018

    No geral um bom texto, mas em alguns tópicos como sobre o candidato à Presidente , estamos em guerra, política , guerra da violência , onde bandidos são agraciados com as benéficios de nossa legislação . E guerra se combate com rigor, portanto , sem exageros (alguns) do citado candidato , torço muito que ele faça um bom e rigoroso governo, se vencer, claro, sem mimimi. Quem não quer passar perrengue na cadeia, que não faça repetidas bobagens(repetidas). Aqui, tem se o absurdo, de um marginal ter direito a 4 refeições de graça , enquanto país de família tem que trabalhar duro, para mal comer 2 vezes ao dia.

  • Gilberto Clementino dos Santos , segunda, 06 de agosto de 2018

    Utilizando suas palavras farei apenas algumas importantes correções: Preliminarmente, o título, prefiro "A Celebração de nossa Democracia". As eleições de 2018, assim, se afirmarão como uma oportunidade, absolutamente urgente e necessária, de reconstrução nacional, de um reencontro do nosso povo com um projeto nacional e soberano de Nação, se tornando um espaço de aprofundamento de reflexão de "contradições" ideológicas insculpidas na população por pessoas que aqui buscaram implantar um sistema que não deu certo em nenhuma parte do mundo. A chamada festa maior da democracia pode se afirmar, assim, como a grande celebração da nossa capacidade de pensar um Estado Democrático, da nossa capacidade de construirmos consciência política. Celebraremos a nossa capacidade política. Aplaudiremos a nossa generosidade em tolerar o contraditório. Brindaremos o nosso avanço civilizatório e seguiremos sendo o Brasil de todos nós, sem distinção, pois, todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

Comente Aqui
Será necessário confirmar os seus dados no e-mail de verificação que iremos enviar assim que registrar o seu comentário, para que o comentário seja exibido. Comentários não validados em até 48 horas serão desativados.