Vitória vai sediar evento internacional contra racismo e desigualdade

Gilberto Campos destaca que serão realizadas importantes atividades para luta local

Entre os próximos dias 26 e 29, o Espírito Santo será palco do maior evento internacional que trata das temáticas sobre racismo e desigualdades: a V Conferência Mundial Sobre Combate às Desigualdades Econômica Racial e Étnicas, que será realizada na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) - Campus de Goiabeiras. Seguindo a tradição dos demais eventos já realizados, a Conferência pretende propor, ampliar e reafirmar as iniciativas de combate às desigualdades no mundo, incluindo discussões temáticas sobre quatro eixos: desigualdades ambientais, econômicas, na educação e na saúde.

De acordo com Gilberto Campos, militante do movimento negro capixaba e que integra o Comitê Organizador da Conferência, no sábado (29), ultimo dia do evento, serão realizadas duas importantes atividades da militância local. A primeira é a Plenária do Movimento Negro, a partir das 8 horas, no Auditório do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Ufes (CCJE), sendo também a última atividade da Conferência. Concomitante, será realizado o Encontro Estadual de Mulheres Negras. 

Segundo Gilberto, outra novidade será a aprovação da Carta de Vitória, documento que denuncia as questões relacionadas ao racismo no Estado e no País. Para os militantes, em texto em que apresentam a V Conferência Mundial de Combate às Desigualdades Econômicas, Raciais e Étnicas, “a realidade em diversas partes no mundo tem demostrado como a pobreza, o subdesenvolvimento, a marginalização, a exclusão social e as disparidades econômicas permanecem intimamente associadas ao racismo, à discriminação racial, à xenofobia e à intolerância correlata”.

E completam: “O cenário de recrudescimento do racismo responsável pela reprodução da desigualdade no acesso aos bens públicos e às oportunidades de desenvolvimento humano em países como o Brasil, somado à diversidade de formas de violência contra as minorias étnicas — raciais, reforçam a urgência da realização dessa Conferência”.

A Conferência tem duas entidades principais como co-organizadoras, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Ufes e o Roy Wilkins Center for Human Relations and Social Justice, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. O publico alvo, de acordo com os organizadores, é o homem e a mulher negra, independente da classe social. Seja oriundo da academia, do quilombo ou da periferia. Os interessados podem fazer suas inscrições neste link.

Delegações

A V Conferência, que receberá delegações da Austrália, de países africanos, sul-americanos, norte-americanos, asiáticos e europeus, pretende dar a sua contribuição ao movimento de enfrentamento às desigualdades e ao racismo por meio da promoção de atividades como cursos, oficinas, seminários e fóruns. O evento é centrado ainda na produção de propostas de enfrentamento às desigualdades raciais e sociais do povo negro. Com envolvimento de  lideranças dos movimentos sociais, empreendedores negros e pessoas que possam contribuir na construção de políticas institucionais, a partir de estados e organizações, favorecendo os sujeitos que vivem o cotidiano das desigualdades raciais, sociais e econômicas. 

Segundo os organizadores, o evento constitui-se uma continuidade de conferências anteriores, sobretudo a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), entre 31 de agosto e 8 de setembro de 2001, em Durban – África do Sul.  

A Declaração e Programa de Ação de Durban (2001), como foi chamado o documento que consolidou os resultados dos debates, tornou-se um marco importante para o direcionamento das ações destinadas a combater as desigualdades étnico-raciais no mundo, sobretudo por ter decretado o Tráfico Transatlântico de Escravos como um crime contra a humanidade e requerido que os países começassem a focalizar sua responsabilidade na perpetuação desse comércio e que buscassem alternativas para reduzir os efeitos relacionados.

Já a primeira conferência foi realizada em 1996 em Minnesota, Estados Unidos, reunindo líderes e pesquisadores da Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e países europeus. A segunda conferência, em 1998, foi co-organizada pela Universidade da Austrália do Sul, com representantes de comunidades indígenas na Malásia, Cingapura, Nova Zelândia, Fiji, Vanuatu, bem como pesquisadores e acadêmicos de todo o mundo.

A terceira conferência foi realizada em 2001 na África do Sul, reunindo ativistas e defensores, advogados, juízes, professores, escritores, cineastas e autoridades governamentais de todo o mundo. Reuniu também uma ampla variedade de grupos raciais e étnicos que enfrentavam discriminação e marginalização.

A quarta e última conferência mundial, por sua vez, foi realizada em Minneapolis, Estados Unidos, em 2012, reunindo acadêmicos e pesquisadores de um lado; e ativistas, políticos, governo e executivos sem fins lucrativos, por outro. O equilíbrio entre os diferentes tipos de participantes tornou- a conferência bem sucedida. Neste ano de 2018, as atenções se voltam para o Brasil, tendo Vitória como a cidade sede do novo encontro. 

A Conferência objetiva também trazer as classes política e acadêmica para discutir divisão de poder e democracia real nas relações raciais e econômicas e incentivar o comprometimento destas instancias e representações (instituições) com a pauta da negritude. Também garantir que as sínteses dos debates dos Grupos de Trabalho sirvam para elaboração de políticas de promoção de Igualdade Racial nos estados e municípios brasileiros e americanos. Para isso, é compromisso pós-evento o monitoramento das deliberações, visando a inserção social da população negra, e cobrar politicamente a adoção das medidas aprovadas no relatório final da Conferencia. 

As Conferências:

1996 — Minneapolis, EUA
1998 — South Austrália, Austrália
2001 — Durban, África do Sul
2012 — Minneapolis, Estados Unidos
2018 — Vitória, Brasil.

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