Tradição 

Carminha hoje se chama Dona Carmem, e lava roupa pra-fora no tanque de cimento

Neusa lava roupa pra-fora no córrego que passa ligeiro no final da rua, e ali mesmo pesca uns lambaris pro rangu. Esmirrados, mas a família e só ela e a filha, Carminha, que pai não tem. E falta não faz, que embora tenha tido um pai, Neusa nem se lembra que jeito tinha. O cafajeste escafedeu-se, dizia a mãe, outra lavadeira. O pai da  Carminha vive por perto, mas nunca mandou nem mesmo um pirulito no aniversário da filha. Toda manhã antes da escola Carminha vai ajudar a mãe no córrego, pra ir  aprendendo os ofícios da vida. Vai ser lavadeira, que nem todas as mulheres da família. Outra tradição, todas sem pai.

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Carminha hoje se chama Dona Carmem, e lava roupa pra-fora no tanque de cimento no quintal do barraco. Portanto, melhorou de vida. Um olho no sabão quase acabando, outro olho na filha Mariana, brincando entre as mirradas goiabeiras do quintal. “Minina, vai na mercearia do Jovino e pede pra mandar uma barra de sabão de coco”.  Mariana finge que não ouve e  continua com a brincadeira no balanço pendurado num galho da goiabeira. Que nunca deu goiabas. “Minina!” a mãe repete a ordem. “Vou não, que ontem ele disse pra pagar primeiro o que deve. Mas me deu um pirulito”.

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"Velho sovina", Carmem resmunga e desce o morro bufando. “Manda aí uma barra de sabão de coco,” ordena. O velho num ta lá, só o menino, Amaro, outro garoto  'sem pai', e meio-irmão da  Mariana. “Posso não, Dona Carmem. Sêo Jovino disse…”  Carmem pega o sabão na prateleira e leva sem embrulhar, “Diz pra esse velho ranzinza ir reclamar lá em casa”. Jovino não vai subir o morro por causa de uma barra de sabão de coco, e sabe bem o auê que Carmem vai fazer se ele bater em sua porta. Mas uma mercearia no pé de uma favela não é o Carrefour, e se vender eternamente fiado pra toda mãe das crias que pôs no mundo, tá falido.

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Aos doze anos Mariana vai trabalhar de aprendiz na mercearia do Jovino, substituindo Amaro, agora adulto,  que exigiu salário fixo. “Assim aprende um ofício", Jovino explica pra mãe da menina. Sem salário, mas pode almoçar um sanduíche de pão com salame antes de ir pra escola, e no  final da semana leva pra casa um quilo de arroz ou de açúcar. No Natal ainda ganha uma Havaiana de presente. Mariana escuta o acordo e finca o pé,  “Só vou se incluir uma lata de leite condensado”.  Jovino desce o morro bufando, “Criança mal-educada”,  e Carmem grita da janela,  “Velho sovina!” Mariana ri, satisfeita por se livrar do tanque.

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