É verdade que a violência no Brasil é desenfreada. Crimes contra o patrimônio e contra a vida fazem parte do cotidiano de quem vive nas cidades e até mesmo no interior. Entre tantas vítimas, uma coisa é certa. Existe uma parcela da sociedade cujo sangue tem jorrado incessantemente, todos os dias. Algumas vezes, de forma silenciosa; noutras, nem tanto.
No último domingo (25), disparos de mais de 60 tiros foram ouvidos por quase todo o Centro de Vitória. As vítimas? Dois jovens moradores do Morro da Piedade, tradicional berço do samba capixaba. Damião Marcos Reis, 22 anos, e seu irmão, Ruan Reis, 19, foram brutalmente executados. Mais de 42 perfurações vararam seus corpos. Foi uma exceção? Não! Essas mortes são regras num país que não consegue sequer encarar seu racismo cara a cara, quanto mais combatê-lo.
São muitas pesquisas e inúmeros dados que comprovam o genocídio da população negra no Brasil, realidade que penaliza os mais jovens e os homens – embora os índices contra as mulheres também sejam alarmantes. Mas vamos citar apenas alguns poucos números, que devem ser lembrados.
No país, 54% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Gegrafia e Estátística (BGE), é negra. Mas 70% das vítimas de assassinato são afrodescendentes. Ou seja, a cada 10 pessoas assassinadas no Brasil, sete são negras. O que se torna uma constatação: negros não morrem mais por serem maioria; morrem mais em função de sua raça. Na faixa etária de 15 a 29 anos, são cinco vidas perdidas para a violência a cada duas horas. Na virada do sábado pra domingo, Ruan e Damião entraram para essa estatística de forma trágica, precoce e chocante.
A Piedade chora a morte dos dois jovens. Damião Reis mostrava sua majestade como passista da escola de samba de sua comunidade, mas também dando aulas de capoeira em um projeto social de Vitória. Num vídeo que circula pelas redes sociais, ele é visto integrando um aluno cadeirante numa roda de capoeira. Lá estava Damião, segurando a cadeira de rodas e fazendo a criança bailar entre os capoeiristas. Um verdadeiro nobre.
Também se mostrava um apaixonado pela vida e, ao que tudo indica, por sua família. Deu a própria vida na defesa do irmão. Como dizem os moradores da Piedade: se fez herói. Deixou esposa e um filho, criança de um ano, que fez aniversário no dia da execução do pai.
Como acontece, costumeiramente, com as mortes de quem é negro e morador das favelas (vide o caso recente da vereadora Marielle, do Psol do Rio de Janeiro), as vítimas têm suas condutas posta em cheque. É preciso até provar “inocência”. Mas o que está em jogo não é a conduta das vítimas e sim crimes hediondos contra a vida. Os verdadeiros criminosos da história, os que apertaram o gatilho, devem ser responsabilizados!
No exemplo hipotético de jovens brancos sendo assassinados no “quintal” de suas casas, no momento em que se preparavam para dormir, talvez a inocência fosse consenso. “Jovens são vítimas da violência”, seria a manchete mais provável em todos os jornais. No caso de Danião e Ruan, não. No Brasil, o racismo leva a crer que a cor da pele (negra) e o local onde se mora (favela) já constituem, por si só, antecedentes criminais.
E, mesmo nesses casos, desde quando antecedentes criminais devem justificar execuções?
Tem-se um modelo perverso de segurança pública que não permite o mesmo tipo de policiamento para quem vive em bairros ricos e pobres. É o mesmo modelo de segurança que não consegue conter o tráfico, nem as milícias, nem as mortes de seus próprios policiais. E também, muitas vezes, que não investiga adequadamente os assassinatos dos jovens mais vulneráveis socialmente.
Neste último final de semana, o Rio de Janeiro, da intervenção militar, também verteu sangre negro. Apenas numa ação, foram identificados oito mortos. Alguns dos jovens assassinados apenas buscavam diversão nas poucas opções a que têm acesso, os bailes funks. Corpos negros foram carregados em pick-ups e expostos à opinião pública. Chocante!
Tamanho genocídio da população negra no Brasil deixa sem palavras a opinião pública internacional. Tal violência foi considerada pela Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) vergonhosa. A própria ONU já denunciou que, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. A entidade chegou a ser protagonista, no ano passado, de uma campanha chamada “Vidas Negras – Pelo fim da Violência Contra a Juventude Negra no Brasil”.
É preciso um basta!
Como diz um poema, cuja autoria não foi identificada, mas que anda circulando nas redes sociais. “Ruan e Damião são reis do alto do morro da Piedade; de lá, avistavam sonhos e esperança…”.
Esses que a gente teima em não querer perder..
Ruan e Damião, sempre presentes!