ONGs capixabas que apoiam manifesto nacional criticam falta de independência do MPES no combate à poluição do ar
A atuação do Ministério Público Estadual (MPES) no combate à poluição do ar na Grande Vitória carece de independência em relação ao Poder Executivo e às empresas poluidoras. A avaliação é de duas ONGs capixabas – Juntos SOS ES Ambiental e Sociedade Sinhá Laurinha (SLau) – que integram o conjunto de 150 entidades ambientalistas que assinam um manifesto nacional de reivindicação pela independência do Ministério Público Federal (MPF), enviado na Semana do Meio Ambiente à Associação Nacional dos Procuradores da República e ao Conselho Superior do Ministério Público (CNMP).
“Enquanto nos municípios existe uma grande variação na autuação do MPES, provavelmente relacionada com o talento de cada um dos promotores envolvidos, as ações contra o Estado não são muitas. Temos o caso positivo da implantação e fortalecimento do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Jucu, porém várias outras atuações, como o controle da poluição do ar, são omissas”, pondera Ricardo Braga, diretor da Sociedade Sinhá Laurinha.
“A nossa postura é que se acabem as parcerias do Ministério Público Estadual com os órgãos governamentais e as poluidoras da Ponta de Tubarão, Vale e ArcelorMittal, e que ele trabalhe em parceria com as entidades de representação da sociedade civil na defesa do meio ambiente, na luta pela melhoria da qualidade de vida e da saúde na redução da poluição”, afirma o presidente da Juntos SOS, Eraylton Moreschi.
“Para a poeira sedimentável [pó preto], a pandemia não trouxe os efeitos esperados. O que leva a uma reflexão para revermos o inventário de fontes e a participação atribuída à poluição veicular”, disse Eraylton Moreschi.
Na solenidade, Marcelo Lemos chegou também a elogiar os TCAs firmados com a mineradora e a siderúrgica, como “talvez os termos de compromisso mais importantes da América Latina, talvez até das Américas, em relação à poluição atmosférica”, mostrando grave dissonância com o último parecer técnico apresentado no âmbito da ação civil pública impetrada pela ONG Associação Nacional dos Amigos do Meio Ambiente (Anama) na Justiça Federal, com uma série de pedidos objetivos visando a redução efetiva da poluição do ar oriunda das poluidoras da Ponta de Tubarão.
Em seu parecer, o perito judicial Luiz Roberto Charnaux Sertã Junior concorda com a Anama sobre a ausência de metas objetivas de redução dos poluentes pelas duas empresas nos TCAs firmados com o Estado e elogiados pelo promotor Marcelo Lemos. Os acordos, afirma o perito, dispõem apenas de medidas genéricas, que podem, inclusive, deixar de serem executadas, “em caso de inexistência de viabilidade técnica ou outro fator determinante”.
“O Ministério Público tem que ser sim parceiro dos seus regimentos internos, parceiro da legislação vigente e parceiro das suas obrigações constitucionais, e não parceiro de poluidoras e nem de órgãos públicos submissos e omissos que querem financiar poluidoras”, protestou o presidente da Juntos SOS ES Ambiental.
‘Esperança de controle social’
O manifesto nacional assinado pelas 150 ONGs ambientalistas do país pede que o Congresso Nacional aprove uma mudança na Constituição Federal de modo a obrigar que a indicação do procurador-geral da República, pelo presidente, seja feita a partir de uma lista tríplice elaborada pelo conjunto dos procuradores. Apesar da obrigatoriedade não constar na Carta Magna, essa tem sido a tradição brasileira nos últimos 30 anos, situação que foi modificada por Jair Bolsonaro (sem partido), ao indicar Augusto Aras para o cargo máximo do MPF, nome que não constava na eleição feita internamente pela categoria.
O comando do MPF tem sido crucial para manter os desmandos na área ambiental em nível federal, relatam as ONGs no manifesto. “Com o ministro Ricardo Salles no comando do Ministério do Meio Ambiente, já era público e notório o acúmulo de retrocessos e o pleno andamento do desmonte deliberado do Sisnama (Sistema Nacional de Meio Ambiente), não faltando graves exemplos de prejuízos e degradação ambiental, como a mutilação e inoperância do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e do Conselho Deliberativo do Fundo Nacional de Meio Ambiente (FNMA), assim como o crescente desmatamento na Amazônia, com seus múltiplos efeitos negativos, entre outros prejuízos nos diferentes biomas brasileiros”, destacam as entidades.