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Reestruturação da Sedurb beneficia setor privado, alerta Observatório

Projeto que tramita na Assembleia cria estruturas que enfraquecem o controle público

O Projeto de Lei Complementar 57/2024, que reorganiza a Secretaria de Estado de Saneamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sedurb) com foco na regionalização dos serviços, tem levantado preocupações. O Observatório da Água e do Meio Ambiente considera a criação de uma Subsecretaria de Política Estadual de Saneamento e de Apoio Regional e duas gerências para coordenação da Política Estadual de Saneamento Básico como uma medida de facilitação da entrada de empresas privadas no setor de saneamento básico no Estado.  

A proposta tramita na Assembleia Legislativa e passará por análise das comissões temáticas no próximo ano. “As coisas estão sendo muito atropeladas, no apagar das luzes de um recesso parlamentar”, alerta o assessor do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Espírito Santo (Sindaema) e coordenador da organização, Helder Faria.  

Além da nova subsecretaria, serão criadas duas gerências subordinadas: a de Apoio à Governança Regional e a de Estudos e Pesquisas Regionais. Para implementar as mudanças propostas no PLC, o governo estadual prevê a criação de 18 novas vagas, entre cargos comissionados e funções gratificadas, e o valor total da folha de pagamento dessas novas vagas é de R$ 108,2 mil. Entre os cargos, estão o de subsecretário, 12 assessores especiais, dois gerentes, um chefe de grupo de recursos humanos, um supervisor de atividades e dois coordenadores de projetos. Os salários variam entre R$ 1,7 e R$ 16,1 mil.  

Helder Faria ressalta que a medida tem caráter autoritário, ao centralizar as decisões sobre o saneamento básico no Estado, retirando a autonomia dos municípios e abrindo caminho para a privatização do setor. Ele considera que a proposta representa uma imposição de um modelo neoliberal de gestão, que prioriza a lógica do mercado em detrimento do direito humano ao acesso à água e ao esgoto, potencialmente resultando em um aumento das tarifas e na precarização dos serviços. O Observatório Capixaba também destaca a falta de transparência e participação social no processo de elaboração do PLC 57/2024.

A nova estrutura enfraquece o controle público e beneficia o setor privado, ao criar cargos e instâncias para regular a operação das empresas, acrescenta Merci Fardin, que também integra a coordenação da entidade. “A orientação é criar instâncias voltadas para o relacionamento com empresas privadas e colocá-las dentro da administração pública. Dessa forma, o Estado vai criando condições para que as empresas participem da formulação das políticas”, completa. 

Os porta-vozes da entidade lembram que a regionalização proposta pelo governo, com a consolidação da Microrregião de Águas e Esgoto do Estado do Espírito Santo (MRAE/ES), obriga os municípios a aderirem a modelos de gestão compartilhada e cria um “blocão de municípios” que facilita a negociação com empresas privadas

“É uma orientação que já vem do Banco Mundial, de criar um novo arranjo funcional de governança que é atrair investimentos privados. Então, você tem que criar todo um modelo para entregar o patrimônio e a capacidade do Estado de gerir política na área ambiental”, observa Heder Faria. Essa estratégia, acrescenta, resulta na transferência de investimentos públicos para o setor privado, como os realizados pela Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan), que vai garantir quase a universalização do sistema a ser operado em um modelo de Parceria Público Privada (PPP).  

Ainda neste mês, o Tribunal de Contas do Estado (TCES) autorizou a Cesan a seguir com a licitação bilionária para PPPs no setor de esgotamento sanitário, em um processo também marcado pela falta de transparência e participação popular, como tem sido denunciado pelo Sindaema.

Para a diretora da entidade, Wanusa Santos, o processo de privatização do saneamento básico é um retrocesso e coloca em risco a qualidade e a universalização do serviço, além de gerar prejuízos para a população, dada a priorização de interesses das empresas em detrimento da garantia do acesso universal e de qualidade à água e ao esgoto para toda a população. 

Reprodução Cesan

No cenário nacional, outros estados já adotaram modelos de privatização. Em Alagoas, no Nordeste, foi feita a concessão plena, enquanto em Santa Catarina e Paraná, no Sul, o modelo de PPP foi adotado. O modelo de concessão plena, que retira totalmente o controle estatal sobre tarifas e serviços, ocorreu com a Sabesp, em São Paulo, no Sudeste, e a Corsan, no Rio Grande do Sul. 

Na Grande Vitória, onde o esgotamento é operado em modelo de Parceria Público-Privada pela empresa Águas de Teresina Saneamento (AEGEA) nos municípios de Serra, Vila Velha e Cariacica, uma auditoria realizada neste ano pelo Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCES) identificou falhas no tratamento de água e esgoto, além de falta de fiscalização e medidas para conectar imóveis à rede de esgoto, o que deixa 50 mil imóveis fora da cobertura.

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