Tem sonho acordado e tem sonho dormido, tem sonho de verdade e tem sonho impossível
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Nas gavetas secretas do subconsciente tudo é possível mas indeterminado: tem coisas que queríamos esquecer, como aquele vexame no casamento da prima, e faltam coisas que gostaríamos de lembrar mas se perderam nos emaranhados do dia a dia. Tem sonho que nos faz acordar sorrindo e nem lembramos qual foi. Tem sonho que nos faz acordar de mau humor, mas dizem que é refluxo biliar. Marcel Proust: se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais.
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Tem sonho acordado e tem sonho dormido, tem sonho de verdade e tem sonho impossível. Um sonho recorrente, porém, pode significar muitas coisas. Ou coisa nenhuma. Uma amiga sonhava com batatas fritas todas as noites – qualquer que fosse o sonho, na melhor parte aparecia alguém comendo ou fritando batatas. Sugeri que parasse de comer batatas fritas todas as noites, mas não sei se funcionou – ela mudou de endereço e saiu do nosso grupo no Zap.
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Meu sonho recorrente era bonito – uma paisagem, um momento vivido em um determinado lugar ou visto em algum filme já esquecido. O sonho era bom, mas me intrigava – que lugar era aquele e por que voltava sempre aos meus sonhos? Na vida acumulamos lugares: vistos, vividos, visitados, imaginados, esquecidos. Um lugar que existe e estive lá ou algo que a memória fabricou por conta própria, sem base nos eventos da vida real? Mario Quintana: sonhar é acordar-se para dentro.
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Passaram-se os anos e o sonho teimando em visitar meu sono. Contava a familiares e amigos, talvez alguém soubesse que lugar era aquele, mas nada! O ser humano ê um nômade inquieto vagando pela vida em busca da terra prometida – uns andam mais, outros menos. Nasci em Muniz Freire e mudei para Alegre entre quatro e cinco anos. O tempo passou, morei em 11 cidades, visitei muitas outras, e só voltei a Muniz Freire depois de casada, com quatro filhos. E qual não foi minha surpresa ao deparar com a imagem que me acompanhou em sonhos por mais da metade da minha vida… provavelmente!
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De tudo que vi, vivi ou imaginei, nunca saberei o motivo dessa imagem singela voltar insistentemente aos meus sonhos, pois nada aconteceu ali que a diferenciasse das demais: uma Via Crucis, que na Semana Santa fica enfeitada de gente subindo a colina até a capelinha branca lá no alto, as roupas coloridas criando a ilusão de um filme em technicolor – meu sonho recorrente! Pescada no Google, a foto ilustra essa coluna.
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O subconsciente é um cofre hermético em que se acomodam todas as experiências que vivemos. Não sabemos o que ele guarda ou joga fora, o que revela ou esconde. Mas quando a noite cai, dizem os bruxos, muitas coisas escondidas lá dentro se esgueiram e nos visitam em sonhos – bons ou ruins, momentos felizes ou pesadelos. O sonho era bom, mas a insistência em voltar me tirava o sono. Vendo o local, identificando a imagem e reconhecendo o momento, meu sonho teimoso bateu asas e nunca mais voltou…por mais que eu queira sonhar de novo.