Os que ainda não sumiram das listas de compras, estão na das espécies em perigo de extinção
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Mas quem não gosta? Ao conquistar o Egito, Napoleão Bonaparte disse: Do alto dessas pirâmides, quatrocentos séculos nos contemplam. As pirâmides ainda estão lá, mas cadê o Napoleão? Virou dinamite. Na cabeceira da minha cama morava um relógio despertador. Imprescindível, irremovível, tinha a nobre função de me acordar na melhor hora do meu sono. Mesmo assim, eu não dormia sem ele. A peça, antes primordial, não me serve mais, obsoleta como as canetas de pena de ganso.
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Levei pro GoodWill e me barraram na porta: Não aceitamos mais relógios despertadores e fitas de vídeo. E o que faremos com essas coisas das quais antes não abríamos mão? Culpa do celular, que virou coringa e faz tudo. Quem ainda tem em casa máquina fotográfica, relógio de pulso, relógio despertador, calculadora, telefone fixo, ou papel de carta, que atire a primeira pedra. Os que ainda não sumiram das listas de compras, estão na lista das espécies em perigo de extinção.
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Antigamente a gente abria a janela e esticava o braço para saber como estava o tempo. O celular substituiu essa técnica antiga, feito bola de cristal que registra o presente e revela o futuro. Não nos desligamos de um celular ligado mesmo com os especialistas informando que nosso novo companheiro de cama faz mal para a saúde e interfere na qualidade do sono. Mas quem ouve os especialistas? Onde outrora repousava meu relógio despertador tic-taqueando a noite toda, hoje repousa um telefone celular – nunca se sabe se acontece alguma emergência.
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Em 2004, mais de 90% dos americanos tinham em casa pelo menos um telefone fixo. Em 2023, apenas 29% dos americanos ainda mantinham o trambolho, a maioria em fazendas onde os celulares nem sempre funcionavam bem. Muitas empresas também preferem continuar com o serviço para atendimento ao cliente: mais barato. Mas o telefone condenado a viver eternamente agarrado a uma tomada na parede também está condenado a desaparecer, segundo nos previu a Pitoniza de Delfos, que sempre acertava mas também desapareceu.
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Outra que sofreu abalos foi a escrita cursiva. Você ainda deve estar anotando um recado para a faxineira usando uma técnica obsoleta – a dobradinha papel-caneta. Nas escolas americanas, a escrita cursiva saiu do currículo mas está voltando. Pesquisas recentes revelam que a antiquada técnica de escrever à mão ativa áreas do cérebro que a digitação em um teclado não alcança.. E tem papel crucial no desenvolvimento da leitura e da personalidade. Então fico pensando, será que o celular vai viver 400 séculos, como as pirâmides, ou as coisas antigas vão voltar? Quem viver verá.