Espaço cultural no Centro de Vitória foi fechado pela Defesa Civil e procura novo local para funcionar
Tem vezes que parece que a sorte não está favorável. Ou seriam momentos de provação?
O Obanga, projeto de bar cultural, estava pronto para ser inaugurado numa sexta-feira de março deste ano na Rua Barão de Monjardim, no Centro de Vitória. Eis que na segunda-feira vem o decreto de isolamento social com a pandemia, impedindo de abrir as portas, realizando apenas entregas. Como o espaço era fechado, no início da abertura, o idealizador do projeto, Evandro Santos Araújo, mudou para outro local na mesma rua, que permitia ocupar as calçadas ao ar livre, mantendo distanciamento entre as mesas.
Quando começa a ganhar público, com petiscos de boteco, música ao vivo e vinil, eis que um acidente interrompeu novamente a trajetória do Obanga no último dia 24. Era um sábado de muita chuva e Evandro fritava torresmos no bar, quando ouviu um barulho no telhado por volta das 20h. Quando saiu para a rua encontrou muitos gritos e desespero na casa ao lado. O desabamento de uma pedra tinha atingido o edifício e uma criança ficou soterrada, sendo que o comerciante foi um dos que acudiu no socorro e, felizmente, não houve feridos mais graves, apesar do enorme susto.
O resultado é que os dois prédios, inclusive onde estava o Obanga, foram interditados, tendo todos moradores que se retirar. E o bar, oficialmente fechado, sem previsão de reabertura. Apesar de um pouco aturdido, Evandro tenta retomar o projeto, ainda que não possa contar com o antigo espaço que havia alugado. Representante comercial, ele trabalhava há anos nos arredores da Rua Barão de Monjardim, onde se localiza o Parque da Gruta da Onça, e começou no ano passado o projeto Banca da Cultura, ocupando uma antiga banca de revista para realizar atividades culturais, justamente na ampla esquina onde já funcionou a Casa da Cultura, reduto de muitos shows alternativos que foi demolida e hoje dá lugar a um estacionamento, numa triste sina da cidade moderna.
Mas a pequena banca começou a chamar atenção, primeiro dos vizinhos e depois de outros visitantes de mais longe, servindo comidas e bebidas com companhia de um som no vinil, bandas ao vivo, sarau, cineclube e outras atividades culturais. “A proposta foi crescendo e despertei para a necessidade de um espaço maior, pois lá não tinha banheiro, não tinha as condições ideais de conforto”. Foi dali que a proposta rumou para os estabelecimentos seguintes, enfrentando adversidades tão inesperadas e imprevisíveis como uma pandemia e um desabamento.
“Nada é à toa. Tudo tem um propósito”, diz Evandro, tentando talvez convencer a si mesmo e tirar alguma lição das tragédias. Há dez dias parado, não é só o sonho que se vê amargado, mas as necessidades de sobrevivência também urgem. Sem sede, quer retomar as entregas delivery provisoriamente e pretende nas próximas semanas manter a experiência do Obanga de forma itinerante, em parceria com espaços culturais independentes, até conseguir encontrar um novo local, no Centro da Cidade, de preferência nos arredores da Gruta da Onça.
O conceito permanece o mesmo: um bar cultural, tendo como público-alvo pessoas ligadas a movimentos artísticos ou com gosto por diversas manifestações. Seja com banda ou na vitrola, o espaço prima por sons como chorinho, blues, jazz e também passa por samba e forró, aproveitando o público do Centro e da Barão, redutos de artistas e intelectuais, e agregando também pessoas de outros lugares, que o empreendedor cultural entende como “órfãos” desse tipo de espaço que tenha uma produção cultural mais ativa, o que tem sido raro mesmo no Centro.
“É ter um lugar também para as pessoas se encontrarem, trocar ideias e fazerem conexões, surgirem novas parcerias, ter um violão, um palco aberto para tocar e se encontrar”, diz, lembrando que tempos atrás era comum após os shows os artistas se juntarem nesses tipos de bar para continuar a prosa e a festa, como recorda, entre outros, de ter encontrado pelos bares de Vitória Seu Jorge, então vocalista do Farofa Carioca.
“A vida é a arte do encontro. Embora haja tanto desencontro nessa vida”, dizia o músico e poeta Vinícius de Moraes.