Estudante cega denuncia falta de acessibilidade na Fafi
“Eu sempre fui muito noveleira. Quando era criança, brincava com a minha mãe dizendo que um dia entraria dentro da televisão. Eu falava: ‘Mãe, se a voz sai dali, é porque estão ali dentro’. Eu sou cega de nascença e ser atriz é um sonho de infância”. O relato é de Cynthia de Oliveira, estudante do terceiro módulo do curso técnico em teatro da Escola Técnica de Teatro, Dança e Música (Fafi), da Prefeitura de Vitória, que há mais de um ano tem lutado para concluir o curso na instituição sem o suporte necessário para garantir sua acessibilidade.
Desde o momento da inscrição, Cynthia deixou claro que necessitaria de adaptações para acompanhar as aulas. Entre suas solicitações, estavam um monitor para auxiliá-la no trajeto entre o ponto de ônibus e a escola, suporte para ler e transcrever as provas teóricas, e uma pessoa para descrever as apresentações que fazem parte da carga horária do curso.

“Desde o começo eu sempre falei: ‘Olha, eu preciso de um monitor’. Não foi uma coisa que eles só descobriram depois que eu passei. Eu sempre deixei claro. Eu queria fazer minha parte, mas precisavam fazer a deles também”, explica.
No entanto, a resposta da Fafi não foi ágil. Durante mais de um ano, Cynthia teve que lidar com a falta de estrutura e apoio adequados. A estudante conta que muitas vezes gastou dinheiro do próprio bolso para pagar transporte por não ter um monitor que garantisse sua segurança no trajeto. “A fala deles era: ‘Ah, como um aluno entra e sai da escola, é responsabilidade do aluno’. Ou seja, se vira”, relembra.
Quando a escola finalmente providenciou um monitor, a pessoa designada não tinha preparo para desempenhar a função. “Arrumaram uma senhora que não sabia descrever nada, não sabia escrever palavras básicas, e ela não levava celular. Se eu errasse o ponto, não tinha como me comunicar com ela. Não deu certo. Ela ficou no máximo um mês”, afirmou.
As dificuldades se estenderam para dentro da sala de aula. Por ser a primeira estudante cega da Fafi, Cynthia ouve frequentemente que a escola “está aprendendo” a lidar com sua presença. “No começo, eu super entendia isso, ninguém nasce sabendo. Mas eu já estou lá há mais de um ano. Já deu tempo de aprender, não? Parece que falta vontade também”, considera.
A falta de estrutura afeta diretamente sua formação. Como o curso é focado em teatro, grande parte das atividades envolve expressão corporal e elementos visuais. Cynthia precisa de descrição detalhada dos movimentos e dinâmicas, mas nem todos os professores estão preparados ou dispostos a realizar essas adaptações. “No semestre passado, fizemos uma peça cheia de elementos visuais. Eu só consegui participar porque minha turma me ajudou. O professor dizia que criaria um código para eu saber quando entrar em cena, mas nunca fez. E ainda me criticava quando eu errava”, relata.
A relação com os colegas é o que mais tem ajudado Cynthia a continuar. “Minha turma é excelente. Se não fosse por eles, eu não sei o que seria de mim”. No entanto, nem todos os estudantes com deficiência recebem esse suporte. Cynthia relatou que uma colega, que tem uma deficiência na perna, sofreu humilhação de um professor ao expor suas limitações. “Ela explicou suas dificuldades e ele foi super grosseiro com ela, na frente da turma. Ela não fez nada, talvez por constrangimento”, observa.
Devido ao desgaste emocional e físico, Cynthia decidiu dar visibilidade ao caso. “Demorei muito tempo para pensar nisso, porque quem olha de fora, pode achar que eu quero confusão ou aparecer. Mas não. Eu tentei conversar com a escola várias vezes e não adiantou. Já que não resolvem internamente, tem que procurar outros meios”, pontuou.
Com a formatura prevista para o final do ano, Cynthia segue persistindo. “Eu estou cansada de abrir portas. Quero que elas estejam abertas para mim. É muito cansativo. Às vezes parece que sou invisível, que ninguém me nota. Mas eu continuo porque é meu sonho. Quero meu DRT [Registro Profissional de Artista]. Quero formar. Mesmo sendo cansativo”, destaca.
Além do teatro, Cynthia também atua no cinema. Seu terceiro filme, A Rua do Abismo e o Cinema da Luz, estreia nesta sexta-feira (11), às 20h30, no Cine Jardins, em Jardim da Penha. O longa-metragem é dirigido por Enzo Rodrigues, formando em Cinema pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).