Empresa se negou a negociar com a categoria, diz Gessé Gomes, dirigente sindical no Estado

“O iFood não conseguiu responder ao movimento, porque acreditou na própria mentira quando subestimou a organização dos trabalhadores por aplicativos denunciando a precarização das condições de trabalho.” Essa é a avaliação de Gessé Gomes, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Aplicativos do Espírito Santo (Sintappes) e integrante do Comando Nacional do Breque dos Entregadores, sobre a negativa do iFood em negociar com a categoria. A paralisação massiva contra a exploração das plataformas, Breque Nacional dos Apps 2025, ocorreu nessas segunda e terça-feira (31 de março e 1º de abril) em mais de uma centena de cidades, incluindo todas as capitais do Brasil. No Espírito Santo, a maior adesão foi registrada em Guarapari, na Grande Vitória.
Segundo o entregador Thiago de Paula, conhecido como Thiagão, uma das lideranças do movimento e integrante do Comando Nacional, aproximadamente 170 entregadores participaram da mobilização no município. Ele destacou que o movimento foi essencial para unir os trabalhadores da região, que antes não tinham uma organização coesa. “Ver o movimento acontecendo, o pessoal aderindo, para nós, foi um aproveitamento total. Conseguimos unir muitas pessoas que antes estavam dispersas e percebemos que todos querem mudança. Foi importante para nos integrarmos ao Comando Nacional e termos mais conhecimento de causa sobre todas as ações que podem ser tratadas ou dialogadas”, explicou.
Na manhã desta quarta-feira (2), o procurador do Trabalho Renan Kalil reuniu-se com uma comissão formada por lideranças de associações, sindicatos e coletivos de trabalhadores de aplicativo que integram o Comando Nacional do Breque dos Apps. Em seguida, encaminhou um pedido de mediação ao Ministério Público do Trabalho (MPT), que pode evoluir para a construção de um acordo de trabalho. Gessé destaca, no entanto, que a mediação não tem a obrigatoriedade de resultar em um acordo, e ainda não é possível afirmar se o processo será levado adiante ou cumprido. O pedido também pode evoluir para um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).
Nenhuma das empresas de aplicativo se pronunciou sobre a paralisação ou abriu qualquer diálogo com os trabalhadores, segundo comunicado do Comando Nacional. “O silêncio delas deixa claro que a indignação da categoria não vale mais do que os lucros bilionários que acumulam explorando o trabalho dos entregadores”, denunciam.
Além de ignorar as pautas, as plataformas adotaram diversas estratégias para tentar desmobilizar a greve, como promoções e incentivos falsos para manter entregadores ativos, abertura emergencial de novos cadastros, pressão direta sobre os trabalhadores com mensagens e ameaças de bloqueio, além do monitoramento de redes sociais e grupos de WhatsApp para disseminar desinformação e intimidação. Apesar dessas tentativas, os trabalhadores avaliam que “o Breque foi forte e expôs a dependência das empresas em relação ao trabalho dos entregadores”.
Para Gessé, “a empresa não esperava o movimento social nessa dimensão”. Por ora, a paralisação está suspensa até a Plenária Geral, aberta a todos os entregadores, que ocorrerá na próxima quarta-feira (9), quando serão definidas as próximas ações do movimento. A principal reivindicação é o reajuste da taxa mínima de pagamento pelo serviço para R$ 10,00. Atualmente, o valor é de R$ 6,50 para percursos de até 3,5 km de moto, enquanto os ciclistas recebem ainda menos: R$ 3,50.
Os ciclistas, diferentemente dos motociclistas, têm restrição de quilometragem, podendo percorrer no máximo 3 km por entrega. No caso das motos, os entregadores recebem um acréscimo de R$ 1,50 por km rodado após os 3,5 km iniciais. Ambos os modais defendem o reajuste do valor por quilômetro rodado para R$ 2,50 e o fim das coletas duplas e triplas, em que um único trabalhador é encarregado de entregar pedidos de dois clientes do mesmo estabelecimento, recebendo apenas R$ 3,00 pela segunda corrida.
Até a plenária, as lideranças orientam os trabalhadores a manterem estratégias de pressão, como rejeitar corridas abaixo de R$ 8,00 (exceto ciclistas, que devem rejeitar pedidos acima de 3 km), recusar pedidos agrupados, e participar das paralisações pontuais que serão definidas pelo Comando Nacional e comunicadas com até 24 horas de antecedência.
A realidade precária dos entregadores fica evidente no relato de Thiagão, que descreve a situação vivida diariamente: “Nesse momento, estou na beira da rua, sentado praticamente no chão, esperando tocar uma corrida que possivelmente vai ser de R$ 6,50. Muitos, como eu, ainda não almoçaram, porque aproveitam esse horário para tentar ganhar algum dinheiro e levar para casa. Essa é a situação que a gente vive: abandono. Não temos um ponto de apoio, não temos nenhum representante para nos orientar ou auxiliar”.
Carta aberta
Entregadores e mototaxistas marcaram presença na Assembleia Legislativa nessa terça-feira (1º) e entregaram aos deputados uma carta aberta com as reivindicações das categorias, que incluem, ainda,
que todos os aplicativos forneçam a foto de quem aciona o serviço; livre escolha de rotas; ponto de apoio de cada aplicativo; e tempo máximo de espera no estabelecimento e no cliente de no máximo 5 minutos.
Segundo eles, já são quatro anos sem reajustes nas tarifas de entrega, o que vem causando prejuízos aos trabalhadores. Do ponto de vista regional, eles cobram do governo do Estado e das prefeituras reforço na segurança pública, em decorrência de furtos e assaltos, e a melhoria das vias públicas.
O deputado estadual Coronel Weliton (PRD), que leu as demandas em plenário, defendeu a necessidade de regulamentação da atividade. Já a deputada Camila Valadão (Psol) ressaltou que, muitas vezes, quem trabalha entregando comida não tem o que comer e nem como alimentar a família. “É uma luta justa a mobilização em várias cidades do país”, considerou, ressaltando ainda as questões do Espírito Santo que tratam da infraestrutura viária e da segurança pública. “São muitos casos de violência contra os entregadores”, pontuou. Janete de Sá (PSB), por sua vez, apontou que os valores pagos “são uma miséria” e que o mínimo que os entregadores pedem “é sonegado pelas empresas de aplicativo”.