Protesto foi motivado por agressões dos vigilantes contra estudantes que tentavam pular a roleta nessa segunda-feira
“O dinheiro do meu pai não é capim, eu pulo a roleta sim!”. Essa palavra de ordem, muito entoada nos protestos contra o aumento da passagem, foi proferida na tarde desta terça-feira (26), quando dezenas de estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) fizeram um “roletaço”, pulando a roleta do Restaurante Universitário (RU) em protesto contra a violência sofrida por universitários nessa segunda-feira (25). Eles denunciaram que, na ocasião, vigilantes agrediram fisicamente e verbalmente alunos que tentavam pular a roleta do RU.
A manifestação desta terça aconteceu depois de uma assembleia na qual os graduandos aprovaram uma pauta de reivindicações que contempla, principalmente, a necessidade de mais facilidade de acesso às refeições para quem não pode pagar.
O estudante de Arquivologia e representante da comissão eleitoral do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Gabriel Oliveira, relata que foi acompanhar o processo de panfletagem da eleição no RU e viu um tumulto, pois vigilantes queriam impedir que um aluno pulasse a roleta. De acordo com ele, as pessoas argumentaram que alguns estudantes não têm condições de pagar, mas os vigilantes fizeram chacota e disseram que todo mundo tem acesso a R$ 5,00, valor da comida no restaurante.
“Isso não é verdade, R$ 5,00 hoje, se você calcular a soma de uma semana, de um mês, é muito dinheiro para quem ganha um salário mínimo, por exemplo. O preço de tudo subiu, o poder de compra diminuiu. Alimentação é permanência, ninguém estuda com fome”, diz Gabriel.
O estudante relata ainda que, em virtude de os vigilantes estarem gritando e apontando o dedo, uma aluna subiu na cadeira para “se impor”, sendo puxada para baixo. Além disso, outro estudante, que tentou pular a catraca, levou um soco no olho e teve os óculos quebrados.
Gabriel informa que, embora estudantes de origem popular tenha direito à gratuidade no RU, o processo para acessar o benefício é burocrático. “Tem aluno que entrou em janeiro e até agora não conseguiu. Não dá para chegar para uma pessoa que está há seis, sete meses sem auxílio e dizer ‘espera aí, fica com fome, vai para a sala, vai estudar, vai produzir ciência com fome'”.
Os estudantes afirmam que o RU da Ufes é um dos mais caros do Brasil. Eles apontam que nos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), os valores são, respectivamente, R$ 2,50; R$ 1,30 e R$ 1,40. “Nosso aumento em 2017 foi de R$ 1,50 para R$ 5, e vimos como impactou na diminuição dos estudantes que comem no RU e começaram a trazer marmitas para universidade”, dizem os alunos no manifesto aprovado.
Eles também defendem que “pular a catraca é um ato político e uma forma de garantir a alimentação adequada para passar o dia na universidade. Receber estudantes com violência física e verbal não resolve o problema, o agrava e expõe que a universidade tem refletido aspectos da política nacional bolsonarista, que por nós é rechaçada diariamente”.
Diante disso, os estudantes acreditam que “os vigilantes devem continuar suas funções e não agredir estudantes”, e que “universidade não é lugar de polícia!”, reivindicando “outro projeto de segurança universitária, construída e dialogada com a comunidade estudantil”.