Em meio à chegada do verão, espaços públicos ficaram com sombreamento reduzido

O verão começará oficialmente no próximo sábado (21). Às vésperas do início da estação mais quente do ano, a Prefeitura de Vitória achou por bem realizar uma poda severa em diversas árvores do Centro da cidade – retirando praticamente a copa inteira em muitos casos, não apenas alguns galhos –, o que gerou descontentamento entre moradores.
O serviço teve início há cerca de duas semanas. Dentre os locais contemplados está a Praça Ubaldo Ramalhete, um dos poucos espaços do bairro com playground infantil e próximo à tradicional Rua Sete Setembro, com grande concentração de bares e restaurantes.
Próximo à Praça Ubaldo Ramalhete é realizada, aos sábados, das 6h às 12h, a Feira Livre do Centro, com comercialização de produtos da agricultura familiar. Há relatos de feirantes que sentiram mal-estar nos últimos dias por causa do calor excessivo, agravado pela ausência da sombra proporcionada pelas árvores.
Em outros espaços do Centro, como as proximidades Catedral Metropolitana de Vitória, também foram realizadas atividades de poda de árvores nos últimos dias. Moradora do bairro, a arquiteta e urbanista Nayara Gava ressalta que é no Centro da cidade que acontece, anualmente, o maior carnaval de rua do Espírito Santo, com a presença de milhares de pessoas de vários lugares, as quais terão menos lugares para se refugiar dos raios solares em 2025.
A forma como a gestão de Lorenzo Pazolini (Republicanos) tem tratado as ações de carnaval tem sido particularmente hostil. No início deste ano, a administração municipal publicou um decreto com uma série de restrições à festa popular, incluindo limite de blocos por dia, horário máximo até 19h e proibição de blocos parados.
“É uma poda muito agressiva. Me parece, como arquiteta e urbanista, que a poda está sendo feita – retirando toda a copa – a fim de não precisarem dar outra manutenção tão cedo – talvez, ficar sem outra ação até o fim da gestão”, comenta Nayara.
Para a urbanista, não há motivos razoáveis para realizar o corte nas árvores neste momento. “Não faz muito sentido, visto que essas árvores são centenárias, já são robustas e firmes, além de ser completamente ineficiente do ponto de vista de sombreamento e qualidade de vida dos transeuntes” afirma.
Também morador do Centro, o biólogo Alan Gerhardt Braz explica que o questionamento à poda se deve mais à questão social e urbanística do que propriamente ecológica. “É fundamental haver poda de árvores em centros urbanos, até mesmo para ajudar no crescimento das plantas. Mas não houve preocupação com a manutenção térmica, exatamente em um período de calor intenso e com o agravante das mudanças climáticas”, ressalta.
“A ampliação da arborização tem papel fundamental na mitigação dos efeitos térmicos das mudanças climáticas que a gente já está sentindo, e uma poda agressiva desconsidera essas questões. Não era necessário acabar com praticamente 100% da copa das árvores. A Praça Ubaldo Ramalhete é um espaço muito frequentado por crianças e pessoas idosas. E um corte tão agressivo certamente vai retardar o crescimento das folhas”, complementa.
‘Solicitação dos próprios moradores’
Questionada por Século Diário, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmam) argumentou, em nota, que a poda das árvores na região do Centro “foi feita a partir de uma solicitação dos próprios moradores e seguiu critérios técnicos previamente definidos”.
A Prefeitura de Vitória não deu maiores explicações sobre a razão das ações do ponto de vista urbanístico, mas a Semmam aproveitou para destacar o que seriam iniciativas bem sucedidas da própria pasta, incluindo o Programa Semmam+, de modernização do órgão ambiental, e o Programa VixFlora, que visa plantar uma muda de espécie nativa por habitante da cidade e criar três novos parques municipais.
“A Semmam tem investido na gestão das áreas verdes, pois atualmente a Capital possui mais de 34 mil árvores localizadas em áreas públicas, como canteiros centrais e laterais, alamedas, praças, recantos, rotatórias e orla da cidade. Além da arborização urbana, aproximadamente 40% do território da Capital (38,96 km2) é composto por áreas protegidas, o que denota um índice de cobertura arbórea de 95.10m2/hab acima da recomendação da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU), que é de15m2/hab”, completa a nota.