Milton Ribeiro prestou esclarecimentos no Senado sobre sucessão de falas discriminatórias e homofóbicas
Durante o pronunciamento, Milton Ribeiro alegou que não quis ser discriminatório com os alunos com deficiência e fez um “pedido de desculpas a todos os que se sentiram ofendidos”. Contarato rebateu, relembrando atitudes de outros ministros que passaram pelo MEC na gestão Bolsonaro, também com falas semelhantes. “Senhor ministro, pedido de desculpas, com todo respeito, tem que ser acompanhado por ação de inclusão. Não basta vir pedir desculpas”, disparou.
O parlamentar capixaba também rebateu falas de Milton Ribeiro em que ele disse que “a universidade é pra poucos”. Movimentos estudantis em todo o Brasil criticaram o posicionamento, que reforçou o caráter excludente da gestão Bolsonaro. Na audiência, ele disse não ter uma visão elitista e que a fala tinha o intuito de valorizar o ensino técnico profissionalizante.
Ele prosseguiu: “Vamos imaginar que nos rincões do Brasil, existe uma família pobre – e nós temos 60 milhões de brasileiros em situação de pobreza e extrema pobreza – em que o sonho do filho é fazer um curso de medicina. Ministro, se não for o sistema de cotas, aquele filho do pobre não entra porque aquele pai não tem 9,7,10 mil para pagar por mês em um curso de medicina. A escola tem que ser inclusiva, não exclusiva. Ela tem que ser plural”, apontou.
Contarato também destacou a ineficiência do poder público na educação básica, onde falta laboratórios de ciências, bibliotecas e acessibilidade. “Falar da qualidade na graduação, nas faculdades, nas universidades federais, estaduais e institutos federais é uma coisa. O problema está na educação básica, fundamental, até entrar na universidade”, destacou.
‘Eu não venho de uma família desajustada’
Durante a reunião, Contarato também rebateu falas homofóbicas de Milton Ribeiro. Em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em setembro de 2020, o ministro afirmou que “o adolescente que muitas vezes opta por andar no caminho do homossexualismo [o termo correto é homessexualidade, que faz referência a um comportamento, enquanto o sufixo ‘ismo’ está relacionado a doença ou enfermidade] vem, algumas vezes, de ‘famílias desajustadas”.
Aparentemente emocionado, Contarato rebateu: “Eu tenho muito orgulho de dizer que eu sou casado, que eu tenho dois filhos. Eu tenho orgulho do meu pai que é motorista de ônibus, da minha mãe semianalfabeta. Eu não venho de uma família desajustada, senhor ministro. Eu não tenho subfamília”, declarou.
O parlamentar capixaba prosseguiu, reafirmando que orientação sexual não define caráter. “O que define caráter é o seu comportamento ético. É seu comportamento moral. É seu grau de comprometimento com a redução da desigualdade, com a oportunidade e a educação pública de qualidade, com a geração de emprego e renda”, enfatizou.
Após a fala do parlamentar capixaba, Milton Ribeiro tentou justificar que fez a afirmação “quando estava chegando ao Ministério da Educação e vinha de um contexto em que misturava a postura de pastor com as atividades na pasta”.
Contarato lembrou os impactos que falas como essas, vindas de um ministro da Educação, têm em quem ouve. “Só quem passa por um comportamento sexista, preconceituoso, homofóbico, racista, misógino, sabe a dor que a gente carrega. É como se fosse uma ferida aberta que não cicatriza”, pontuou.
Na mesma entrevista, Milton Ribeiro também disse que professores transexuais não podem incentivar os alunos “a andarem por esse caminho”. “Ministro, se o senhor colocar um cocar de índio na cabeça, o senhor não vai se transformar num índio, então fazer esse interlocução, essa conexão, essa relação de causalidade, fere a razoabilidade”, prosseguiu o senador.
Contarato finalizou lembrando que Milton Ribeiro é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por falas discriminatórias, que levaram o governo federal a ser condenado em ação civil pública, pelos danos causados à coletividade. “O mínimo que o senhor deve à população brasileira que está nos acompanhando é um pedido de desculpas. Aos pobres, negros, índios, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+, mas não só pedido de desculpas. Nesse pedido de desculpas, os atos falam mais que as palavras”.