O Mito da Caverna

A entrada é automática, mas a saída é sempre dolorosa

Às vezes fico pensando como os grandes clássicos dialogam com a contemporaneidade. Tenho priorizado a alegoria do Mito da Caverna, de Platão, para facilitar o despertamento de meus educandos para a atitude filosófica, e acho espantoso o resultado. A convicção de verdades cristalizadas no ser, a partir de suas vivências sociais e culturais, se transforma em verdadeiras prisões mentais de difícil dissolução. 

No contato com Platão, na narrativa da busca da luz para destruição das sombras e clareza da visão do mundo, a reflexão da própria vida e da condição construtiva de suas “opiniões” ficam tão evidentes que lhe provocam o “momento mágico”, o “espanto” consigo mesmo, o que particularmente entendo como o real salário do professor, mas que não deixa de trazer a náusea sartreana.

Essa destruição para reconstrução é como caminhar no fio da navalha, uma vez que estamos falando de uma vida inteira sendo analisada por um momento, rico e revelador, que provoca um insight, balança a estrutura pela destruição de crenças, podendo tirá-lo do conforto de seu chão firme e arremessá-lo no deserto.

As perguntas filosóficas próprias são: e agora? O que me resta? Como continuar?

Somos seres de crenças, mesmo que científicas. Acreditamos piamente, por exemplo, que o sol nascerá amanhã, mesmo sem ter nenhuma garantia, só por que ele nasceu todos os dias até hoje.

O cultivo da dúvida é um ato de coragem, mas não podemos abandonar nossas fraquezas, não dá para esquecer que não suportamos nossos limites e sempre teremos uma saída de emergência, seja na família, religião, moral, arte, etc.

Para a manutenção da “paz interior”, é oportuno manter alguns refúgios que funcionem como uma saída de emergência, um ciclo de amigos para falar bobagens e praticar o riso frouxo, um grupo afinado  com nossas preferências, situações de vida que não gerem conflitos, mas aprovação e comunhão. 

Buscar a verdade, destemidamente, sabendo da impossibilidade de alcançá-la devido aos instrumentos falíveis que temos, é sempre um risco muito grande, mas inevitável para a vida autêntica. 

Não à toa, o grande mestre Platão, em seu realismo fantástico, cria o mundo das ideias, impalpável, mas com todas as respostas, nos ensinando, a nós, os simples mortais, a possibilidade de construir saídas filosóficas para a própria impossibilidade do alcance da verdade. 

Para melhor ilustrar, cito Ludwig Wittgenstein, filósofo austríaco dos mais importantes do séc. XX “Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos...”

Afinal, já aprendemos que o ser é inacessível, sendo o que ele fenomeniza completamente contaminado por suas crenças ou visão própria do mundo, de formas que: o que mais importa no rompimento com as sombras da ignorância, dos preconceitos e dos pré-juízos é a manutenção do lugar desse ser no mundo.

“Sapere aude”, mas, cuidado para não se destruir, recolha os cacos e se reconstrua sempre. 


Everaldo Barreto é professor de Filosofia

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para manter ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.