Diante do clima de medo, comunidade acadêmica esvazia Ufes nesta quarta

Apesar de comunicado da Reitoria sobre funcionamento normal, aulas foram canceladas e salas estão vazias

Após ameaças de ataques à comunidade acadêmica da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), disseminadas nas redes sociais na tarde dessa terça-feira (18), por suposto atirador que fez o anúncio no canal Dogolachan, conhecido por disseminar discursos de ódio e frequentado pelo assassinos da escola de Suzano (SP), o campus de Goiabeiras amanheceu vazio nesta quarta-feira (19), data marcada para o suposta ato criminoso, e com reforço no policiamento. Nas ameaças, o autor falou em "matar o máximo de esquerdistas, feministas, viados (sic) e negros que encontrar na minha frente". 

Apesar do clima de medo que se instalou entre alunos, professores e servidores, o reitor Reinaldo Centoducatte decidiu manter as atividades nesta quarta-feira (19), atendendo, inclusive, orientação dos órgão de inteligência, incluindo a Superintendência da Polícia Federal no Espírito Santo. Nesta manhã, no entanto, o campus estava esvaziado; vários professores cancelaram as aulas e os que compareceram se depararam com salas vazias. O policiamento foi reforçado desde a noite dessa terça-feira (18) e continua nesta quarta (19) com viaturas da Polícia Militar e do Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas (Nuroc) em frente ao Teatro Universitário. Rondas também estão sendo realizadas no campus. Ainda, segundo o reitor, diligências estão sendo realizadas para tentar identificar de onde partiram as ameaças.

No fim da tarde de terça (19), diante da difusão dos prints com as ameaças que seriam do canal Dogolachan, o clima ficou apreensivo no campus da universidade em Goiabeiras e muitos estudantes apressaram a saída. No Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE), professores chegaram a dispensar alunos mais cedo do turno noturno. O Centro desmentiu, oficialmente, boatos de que pichações haviam sido feitas no banheiro, fake news que também tem circulado pelas redes sociais.  

A Ufes, no entanto, não é a única universidade ameaçada. Nas últimas semanas, mensagens com conteúdo violento ameaçaram estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também viralizando na internet. As conversas foram travadas na Deep Web, ambiente da Internet de difícil rastreamento e não acessível pelos mecanismo de busca tradicionais. No texto que circulou pelas redes, o autor de codinome Santvs, disse que portava um fuzil AR-15 na Universidade. No entanto, ao avistar um policial militar que fazia ronda no campus, decidiu adiar o ataque para o segundo semestre do ano letivo. Em outro trecho, afirmou que a Universidade era antro de marxistas, militantes, entre palavrões e insultos aos colegas e docentes.

Notas

A Administração Central da Ufes se manifestou por meio de nota, publicada no site da universidade, dizendo ter conhecimento da mensagem e ter acionado imediatamente a Superintendência da Polícia Federal no Espírito Santo, o Núcleo da Polícia Militar na Ufes e a Gerência de Segurança e Logística da Universidade, que adotaram todas as providências cabíveis, além de apurar o caso e pensar em medidas preventivas.

Além da nota oficial da Reitoria da Ufes, outros centros da universidade se manifestaram, como o direção do Centro de Ciências da Saúde (CCS), com o título “Não podemos tolerar um ambiente de ameaça e de terror” e assinada pela professora doutora Glaucia Abreu. Segundo o texto, “as mensagens divulgadas através das redes sociais, contendo ameaças de um possível ataque armado contra estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), representam uma afronta  à democracia e atingem a toda comunidade universitária e a sociedade civil capixaba. Vivemos numa sociedade plural, onde são livres as manifestações de pensamento, de comportamento, de credo, de gênero e de orientação sexual, firmadas historicamente através de muitas lutas. Ataques como esses, atentam contra todos e todas. Atentam contra instituição universitária  e a democracia. Atentam contra a vida. Nós defendemos a vida, em toda a sua plenitude”.

E prossegue: “o respeito e a convivência com a pluralidade são valores que sempre defenderemos de forma enfática. A comunidade universitária não pode e não será acuada por pessoas e organizações que se valem de métodos criminosos e covardes. A direção do Centro de Ciências da Saúde (CCS) se junto ao conjunto da comunidade universitária da Ufes, no repúdio a esse ataque criminoso. O terror e a intolerância devem ser combatidos na forma da lei e na defesa da instituição  universitária. Não admitiremos jamais que nossas vidas sejam ameaçadas e tuteladas pelo medo. É hora de estarmos unidos contra as ações criminosas que ameaçam a vida e a democracia”.

A entidade Professoras(es) Associadas(os) pela Democracia em Vitória–ES (PAD-Vix) também emitiu “Nota de Repúdio aos Ataques a Ufes e Todo Apoio a sua Comunidade”.  

No texto expõe que “... as estudantes e os estudantes no seu pleno gozo da audácia de pensar novos caminhos para o futuro da humanidade sofrem os ventos do fascismo, da ignorância autofágica de seres doentes em si mesmos, nas suas mentes “planas” fundamentalistas. Não podemos aceitar e nem tampouco podemos ficar imobilizados e amedrontados por tamanha barbárie”. 

E continuam: “Solidarizamo-nos com o nosso maior Centro de formação acadêmica porque é nele que fomos sensibilizados a repudiar a violência, ao respeito ao estado de direito e a prezar a educação como direito público, que no bojo das ciências humanas faz com que a educação, em especial a Educação Básica se desenvolva.  Solidarizamo-nos com os corpos aterrorizados dos nossos estudantes, pesquisadores/professores, e muitos deles, da nossa rede municipal. Repudiamos a "política" do terror que vem arrepio do Estado de direito e da educação como bem público fundamental. Alertamos para os nefastos efeitos dos discursos odientos desse governo e de seus seguidores  aos estudantes, aos professores e às Universidades Públicas, refletindo-se em políticas educacionais e sociais autoritárias que alimentam o que há de mais baixo nos seres humanos, contribuindo/produzindo efeitos capazes de destruir vidas e conduzir uma sociedade ao obscurantismo”.

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1 Comentários
  • Araujo , quinta, 20 de junho de 2019

    Um babaca, com ameaça num grupo de doentes ocultos na internet levar ao não comparecimento da comunidade acadêmica as atividades na UFES é triste. Triste pelas pessoas estarem submetidas ao medo do que supostamente ia acontecer. Acho que é palanque demais para um babaca que não consegue estar bem consigo mesmo, frustrado com sua própria sexualidade, cheio de imaginações caóticas. Na verdade ele não passa de um medroso e irresponsável. Esperamos que seja identificado, se for aluno, além de ser expulso da UFES que sofra as sanções da lei. Você vai ler esse texto, e eu afirmo categoricamente que você não passa de um bobão, entendeu!

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