Livro aborda história do movimento LGBTI+ no Espírito Santo

Primeira obra que sistematiza a luta histórica no Estado será lançado quarta-feira (18) em Vitória

Pela primeira vez, um livro vai contar a história do movimento LGBTI+ no Espírito Santo. A obra “Movimento LGBT+ Capixaba: Fragmentos de uma história de luta por afirmação, direito e dignidade” de Carolina Maria e Lucas Bragança, será lançado na próxima quarta-feira (18), às 19h, no Museu Capixaba do Negro (Mucane), no Centro de Vitória. Na ocasião, além da distribuição gratuita do  livro, haverá exposição fotográfica, performances artísticas e música.

A obra é fruto de uma nova pesquisa conjunta dos autores. Carolina, militante do movimento LGBT e integrante do coletivo Santa Sapataria, havia feito um livro-reportagem como trabalho de conclusão de curso em Comunicação Social em 2013. Lucas, doutorando em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), lançou em 2018 um livro sobre a história Drag no Espírito Santo, no Brasil e no mundo. "É um imenso orgulho lançar esse livro e poder contribuir para a preservação dessa história de luta por direitos. Uma história que tem momentos felizes e tristes", diz Carolina.

Para os trabalhos, os autores fizeram um levantamento bibliográfico, embora considerem que a quantidade de material sobre o tema ainda é escassa. "A história LGBT é silenciada, a disputa de poder quer que ela seja apagada e a gente não tenha essa memória. Não é fácil encontrar documentos", explica Carolina. Mas o livro também se nutre de uma série de entrevistas com pessoas-chave do movimento no Espírito Santo, no passado e atualmente, para compreender suas principais questões. Fotos históricas de manifestações, reuniões e conferências também ajudam a ilustrar a história do movimento.

Vale ressaltar que a obra não aborda o movimento LGBT como algo uniforme, mas sim como uma diversidade e multiplicidade de questões, ativismos e identidades, com suas especificidades e fatores de unidade.

O livro começa abordando e explicando as diversas denominações importantes para tratar da questão LGBTI+, como identidade de gênero, orientações sexuais, LGBTfobia e outros. Os autores também se preocupam em conceituar o movimento LGBTI+, entendido como um movimento social, que assim como outros, luta para transformar a sociedade em que vivemos, resgatando também sua trajetória a nível internacional e nacional antes de aterrissar o debate no Espírito Santo, mostrando como esse grupo social saiu da invisibilidade para disputar a arena política em diversas sociedades.

O livro lista as muitas conquistas das últimas décadas, principalmente a partir da luta organizada de diversos grupos, mas não deixa de mencionar a máxima: “Nunca se teve tanto, mas o que se tem é praticamente nada”. Ou seja, ainda falta muito para avançar contra a discriminação e na luta por direitos para a população LGBTI+.

LGBTI+ no Espírito Santo

Para falar sobre o movimento no Espírito Santo, parte central da obra, os autores abordam antes de tudo as características da população que habita o Estado, como educação e religião, e o impacto que estas podem ter na LGBTfobia. Um levantamento de dados vai ajudar a traçar também quem é a população LGBTI+ no Espírito Santo e um comparativo com outros estados do Brasil.

Os primeiros registros encontrados pelos autores sobre homossexualidade no Espírito Santo datam da década de 1920, quando pessoas atravessavam de barco até a Praia de Camburi, que ainda não possuía ponte, para relacionamentos homossexuais casuais.

O envolvimento e participação dos profissionais e artistas LGBTI+ nos carnavais e outras festividades, a repressão policial, a epidemia de AIDS a partir de meados dos anos de 1980, são algumas das questões abordadas que envolveram esta população no Espírito Santo.

Uma contribuição importante do livro também é listar e falar sobre diversos coletivos e movimentos que pautaram a questão LGBTI+, como o Triângulo Rosa, grupo de discussão criado em Vitória em 1987, o Plur@al, que debatia o tema na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) a partir de 2004,  até o Fórum Estadual LGBT+, que segue ativo até hoje. No final da obra, uma lista registra dezenas de grupos políticos, culturais, partidários, sindicais e acadêmicos que seguem ativos debatendo e agindo em relação à questão LGBTI+, além de grupos que já foram extintos, mas cumpriram um papel histórico importante.

Dos anos 90 aos 2000, foram muitas conquistas em termos de visibilidade, desmistificação e inserção no mercado laboral. Sobre os últimos anos, a obra também acrescenta novas emergências, como a organização das mulheres lésbicas, dos homens trans, dos bissexuais e os questionamentos ao binarismo cada vez mais presentes.

Aborda também a luta dentro da institucionalidade, com a criação de gerências e coordenações específicas em municípios e no Estado e a realização de audiências públicas, fóruns e Conferências Estaduais.

Carolina Maria e Lucas Bragança consideram que “Movimento LGBT+ Capixaba: Fragmentos de uma história de luta por afirmação, direito e dignidade” é um recorte que foi possível e necessário fazer para resultar na publicação que será lançada, embora sejam possíveis outros olhares e caminhos dentro de uma leitura histórica do movimento no Espírito Santo. Porém, já será lançado como uma importante referência para novos ativistas e pesquisadores do tema.

A obra já está disponível online para download gratuito.

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