Livro questiona mitos e 'invencionices' sobre o Contestado Capixaba

Obra revisa história da divisa de Espírito Santo e Minas Gerais, palco de conflitos políticos e agrários

No próximo sábado, 21 de setembro, às 18h, será feita apresentação do livro O Contestado Capixaba: historiografia e aspectos históricos no Trapiche Gamão, Centro de Vitória. A publicação reúne seis artigos de quatro autores sobre a questão pouco conhecida pelos capixabas sobre conflitos fronteiriços e agrários no noroeste do Estado.

Uma das principais questões da obra, que reúne estudos recentes sobre a questão, é desfazer, a partir de uma rigorosa análise histórica, o que chama de mitos e "invencionices" que dominavam o que era conhecido sobre o tema. 

O conflito ocorrido na região do contestado trata tanto da "questão lindeira", relativa à falta de definição sobre a fronteira entre Minas Gerais e Espírito Santo, quanto à organização camponesa de posseiro e à repressão de jagunços e polícia em favor de grileiros e grandes proprietários de terra, sobretudo em meados do século 20.

Com a descoberta de minerais preciosos e a criação da Capitania de Minas Gerais, as fronteiras nunca foram bem demarcadas, já que a região era povoada sobretudo por indígenas. A chegada de pessoas de outras regiões em busca de terras para povoar o local vai explicitar a questão. A falta de clareza sobre o território fez com que imperasse ali a "lei do mais forte". Por muito tempo houve cooperação entre mineiros e capixabas que habitavam a região, inclusive com grandes empreendimentos comerciais.

Porém a disputa pela tributação do comércio e população local entre Espírito Santo e Minas Gerais acirra a questão, que por pouco não desemboca num conflito armado de maiores proporções. A disputa é resolvida por meio de um tratado assinado em 1963.

Em paralelo a essa situação de segurança jurídica, emerge com força um movimento de posseiros organizados diante da ofensiva dos latifundiários para se apropriar das terras que ocupavam, o que levou a duas fortes repressões aos movimentos camponeses, uma nos anos 50 e outra nos anos 60.

Até os estudos mais recentes, esse primeiro massacre aos camponeses tinha como uma das principais fontes bibliográficas um romance histórico, a obra Cotaxé, de Adilson Vilaça, de caráter ficcional que também gerou um documentário. O mesmo autor lançou uma pesquisa histórica chamada Cotaxé: a reinvenção de Canudos. Outro importante registro foi a reportagem O Massacre em Ecoporanga, do jornalista Luzimar Nogueira Dias, que visitou a região buscando retratar o ocorrido.

Por meio de diversas pesquisas realizadas nos últimos anos, foram descobertas novas evidências que questionam vários elementos contidos nessas obras e que serviram de base inclusive para a formação de materiais didáticos sobre o tema, reproduzindo alguns mitos que os autores de O Contestado Capixaba consideram sem lastro histórico.

Na obra, o professor do departamento de História da Ufes, Ueber José de Oliveira e o mestres em História Élio Ramires, Victor Lage Pena e Leonardo Zancheta Foletto, trazem evidências e novos olhares sobre a questão fronteiriça e os conflitos agrários.

Os autores não encontram fontes nem evidências de que havia um movimento separatista e messiânico liderado por Udelino Alves de Matos para fundar o Estado da União de Jeovah, como publicado na obra de Vilaça e em outros locais. Embora de fato Udelino tenha sido líder do movimento agrário nos anos 40 e a mística e religiosidade fossem presentes dentro da luta camponesa, como o é até hoje, os autores apontam a situação como um conflito entre os posseiros e os latifundiários da região na disputa por terra.

Além disso, encontraram fontes históricas que apontam que Udelino não foi morto durante a grande repressão policial ao movimento agrário em 1953. Embora tenha desaparecido da região de Cotaxé, hoje distrito de Ecoporanga, há parcos registros de sua presença em Paraty (RJ) anos depois e também de uma tentativa de visitar Juscelino Kubitscheck em Minas Gerais para agradecer pela atenção dada à solução da questão fronteiriça quando era governador daquele estado.

Na leitura de Elio Ramires, também é possível encontrar no movimento camponês que surge após a desaparição de Udelino, capitaneado pelo então Partido Comunista do Brasil (PCB), elementos de continuidade com o anterior.

AGENDA CULTURAL

Lançamento do livro O Contestado Capixaba: historiografia e aspectos históricos

Quando: Sábado, 21 de setembro, 18h às 20h

Onde: Trapiche Gamão - Rua Gama Rosa, 236, Centro de Vitória/ES

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1 Comentários
  • Edson Pereira , terça, 17 de setembro de 2019

    Parabéns aos mestres, levantar uma história tão importante na região noroeste...hj "CONTESTAMOS" o ÓDIO, a INVASÃO, a VIOLÊNCIA, hj ORGULHAMOS DE SER PARCEIRO E AMIGO DE "MINAS GERAIS".

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