Manilhamento do Córrego da Velha Antônia causa indignação em Itaúnas

Moradores clamam pela proteção do córrego e denunciam irregularidades na obra de asfaltamento da estrada

O aterramento e manilhamento do Córrego da Velha Antônia, em Itaúnas, é mais um capítulo da série de irregularidades que vêm sendo denunciadas com relação às obras de asfaltamento da rodovia ES-010 no trecho que liga a vila à sede de Conceição da Barra, norte do Estado.

“É um absurdo, meu coração 'tá' partido com isso”, clama a camareira Alenícia Severo Timboíba, a Lilica.

“Hoje eu estou com 58 anos. Na idade de seis pra sete anos, nós morávamos ali na beira do córrego. A gente vivia ali quando criança, tomava banho ali, meu pai pescava, tanto de linha quanto de muzanza, tinha traíra, morobá. A água daquele córrego era maravilhosa”, narra Lilica.

A situação atual, para ela, “é um crime ambiental”. “A gente não pode deixar isso acontecer. Já aconteceu com vários córregos, que foram mortos por causa da irresponsabilidade das pessoas. Tinha que fazer qualquer coisa pra salvar, até dois meses atrás tinha peixe ainda. Agora você passa lá e não vê mais nada. Não tem mais nenhuma piaba”, lamenta.

A solução para viabilizar o asfaltamento, indica, é fazer uma ponte e não o aterramento. “Não tem cabimento, não entra na minha cabeça. Sem água ninguém vive. E eu lhe pergunto: e o Iema [Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos - responsável pelo licenciamento da obra e gestor do Parque Estadual de Itaúnas (PEI), no entorno do qual as obras acontecem]?

“Vão ter que consertar”, suplica. “Não pode continuar as pessoas fazendo as coisas erradas e a gente calada”, convoca. “Porque o Parque e o Iema, se você for no mato cortar uma varinha de mato, eles vêm pra cima colocar na cadeia. Tá certo, é preservação. Eu agradeço a esse Parque ter vindo pra vila porque se não fosse ele a gente não teria mais um pássaro, nem uma árvore, mais nada. Graças a Deus eles vieram”, agradece. “Mas eu não acredito no que eu estou vendo no Córrego da Velha Antônia”, protesta.

Alagamentos anunciados

A pescadora e atriz na área de educação ambiental, cultura e turismo Wanderléa Campos da Paixão, conhecida como Dequinha, também manifesta sua indignação e alerta para os problemas que a população irá enfrentar devido ao mal dimensionamento da obra.

“O rio realmente sobe e atravessa a estrada, sempre foi assim. Agora com esse asfalto, como vai ser?”, questiona. “Nós estamos precisando evoluir ambientalmente. Você vê em um monte de lugar acontecendo tragédias, Minas Gerais daqui a pouco vai sumir por causa de tanta irresponsabilidade. E a gente aqui vive em um paraíso, mas que pode não existir mais”, alerta.

“Sou pescadora e filha de pescador. Fui criada com a pesca. Meu pai e minha mãe são filhos daqui. Eu e todos os nove filhos da minha mãe moramos em Itaúnas. Nós já temos o rio Itaúnas que a vida inteira nos alimentou. Hoje em dia não tem mais como fazer uma pesca no rio. Graças a Deus a natureza vem se reconstruindo, mas tem o Córrego da Velha Antônia que não tá prejudicando ninguém e querem avançar sobre ele por causa do asfalto. Se já começa assim agredindo a gente através da natureza, como vai ser depois?”, pergunta.

Dequinha também aponta para possíveis irregularidades que envolvem o asfaltamento tão sonhado pela maioria dos moradores locais. “O Poder Público é comprado pela moeda. Até que provem o contrário, é isso o que eles estão levando a gente a pensar”, argumenta.


A pesquisadora socioambiental e integrante da ONG Sociedade Amigos Por Itaúnas (Sapi), Paula Rodrigues Cassuce, diz que passa diariamente pelos menos de mil metros de extensão da obra, deslocando-se de casa até a vila. E diz que, além do “assassinato do córrego”, as manilhas que estão sendo colocadas não suportam a vazão do curso d' água em épocas de cheias, o que vai provocar alagamentos e impedir a utilização do asfalto pela população.


A obra também não deixa espaço para o trânsito de bicicletas, idosos e crianças, aponta Paula. “É super arriscado”, testemunha. “É uma extrema irresponsabilidade do DER [Departamento de Estradas de Rodagem do Espírito Santo] deixar isso acontecer”, critica.

“As pessoas em Itaúnas querem muito o asfalto. E realmente tem uma dificuldade enorme de sair da vila pela estrada atual”, opina. “Mas a obra tem que acontecer de forma correta. Há outras condicionantes que não estão cumprindo, não se reuniram com a comunidade e nem licenciamento tem”, informa. “Não sei se a empresa, a JL Construtora, é ineficiente ou se está tendo conivência do Governo pra economizar dinheiro”, observa.

A ambientalista alerta ainda que há vários córregos, entre a estrada até a comunidade quilombola do Linharinho, que serão impactados. “Eles dizem que em alguns pontos vai ter pontes, mas a gente ainda não sabe quantas, nem onde, porque o projeto não foi apresentado pra comunidade”, reclama.

Duas condicionantes

Há pouco mais de um ano, em fevereiro de 2018, o projeto da obra foi parcialmente apresentado à comunidade pelos então diretores-gerais do DER-ES e do Iema, Ênio Bergoli e Jader Mutzig Bruna, respectivamente.

A apresentação, no entanto, não abordou os aspectos técnicos, sobre os quais Jader Mutzig disse apenas que o projeto “não tem padrão de Estados Unidos, Inglaterra ou Alemanha, mas pros padrões do Brasil está muito bom”.

O pleito principal da comunidade, de definir de forma participativa as condicionantes da obra, foi negado por Ênio Bergoli, que afirmou não ser possível, pois as mesmas já haviam sido definidas quando da obtenção da licença de instalação pelo Iema, em agosto de 2013. Vencida em agosto de 2018, o licenciamento da obra ainda não foi renovado, estando, portanto, irregular.

A aparente irredutibilidade do governo em rediscutir as condicionantes desaguou em dois pleitos possíveis: a inclusão de apenas duas novas condicionantes – a atualização dos Planos de Ordenamento da Vila (Povi) e de uso público do Parque – e a criação de uma comissão local para acompanhamento da execução das condicionantes já definidas, com membros integrantes do conselho gestor do PEI.

O potencial de impactos de uma estrada como essa, tanto positivos como negativos, foram reconhecidos pelo próprio diretor geral do DER/ES, mas Ênio Bergoli disse também que esses impactos não podem ser resolvidos num projeto de estrada, portanto, a comunidade deveria buscar outras ferramentas para resolvê-los.

Nessa busca, a comunidade chegou a conseguiu o comprometimento do prefeito Francisco Vervloet, o Chicão (PSDB), em iniciar o processo de atualização do Povi numa reunião marcada para o dia 15 de março. Passados quase 14 meses, no entanto, nenhuma promessa foi cumprida.

 

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1 Comentários
  • Paty , segunda, 08 de abril de 2019

    Como turista que conheceu Itaunas há pouco tempo concordo e apoio a população local. Manilhar rios é crime sim! Acaba com a fonte de água, empobrece o solo, causa inundações, desabastece o lençol freático... Só desvantagens! Onde está o estudo de impacto ambiental para a obra de asfaltamento? Se órgãos não modificarem o projeto, a obra deve ser embargada! Moradores acionem o Ministério Público!

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