A diversão da poesia

Ferlinghetti consagrou-se como um dos maiores editores dos EUA

Lawrence Ferlinghetti foi um dos poetas mais importantes da geração beat americana, não só pelos seus escritos, como pelo seu papel fundamental como editor destes poetas que despontavam nos anos 1960. A editora City Lights, fundada por Ferlinghetti, foi uma das responsáveis pela divulgação da literatura beat nos EUA. Sua editora chegou a ser considerada a mais importante da América nos anos 1960. 
 
O próprio Ferlinghetti ignora onde ou quando nasceu, entre Paris e Nova York, em 1919 ou 1920. O poeta-editor também era conhecido pela alcunha de Lorenzo pelos seus amigos italianos e também aparece com este nome pelas mãos de Kerouac em seu livro "Vagabundos Iluminados". Ferlinghetti foi levado à França e criado lá por uma tia. Aos seis anos foi para Nova York, e depois de um tempo, foi estudar pintura em Paris. Em 1951, retornou aos EUA, se estabelecendo na Califórnia, e no mesmo ano, criou a citada City Lights, primeiro como uma livraria, e em 1955, tal livraria se tornaria uma editora. E, com o sucesso de O Uivo, livro de poemas de Allen Ginsberg, Ferlinghetti consagrou-se como um dos maiores editores dos EUA. 
 
A carreira literária de Ferlinghetti também prosseguia com o mesmo sucesso de sua empreitada com a City Lights. Seu lançamento de 1958, o livro de poemas "Um Parque de Diversões da Cabeça", foi considerado seu melhor livro. Ferlinghetti dizia que fazia "poesia andarilha", segundo o próprio: "Os poetas estão abandonando as salas acadêmicas para sair para as ruas e fazer uma poesia falada, baseada nos olhos e nos ouvidos." O "circo da alma" para Ferlinghetti, em sua obra principal, O Parque de Diversões da Cabeça, reúne, em sua 1ª parte, poemas curtos, surreais, alquímicos. Aqui, o poeta revela influências que vão de Apollinaire, E.E.
 
Cummings, Ezra Pound, T.S.Eliot, e culminam em William Carlos Williams. Os poemas de Ferlinghetti, então, se tornam acontecimentos banais demudados numa súbita realização surrealista, inaugurando, junto com seus companheiros de geração, a nova prosódia americana, no som da língua falada em forma de poemas.
Já na 2ª parte de sua grande obra, Ferlinghetti nos dá, em seu poema "Autobiografia", a palavra que lhe coloca como grande representante de uma tradição de rebelião, que começa com Walt Whitman, se radicaliza com Thoreau, passa por Melville, e desemboca nas letras do músico Bob Dylan. 
 
Ainda em Mensagens Orais, a 2ª parte da atual edição de "O Parque de Diversões da Cabeça", os poemas são longos, numa forma improvisada e jazzística, mais adequados aos recitais declamatórios, que à forma escrita. Ferlinghetti é um dos expoentes da tradição beat e californiana. E, ao se dar a forma recital, ou declamatória, Ferlinghetti tev o cuidado de registrar estes poemas pela voz, que aparecem no LP que o poeta gravou e foi lançado pela gravadora Fantasy.
No início dos anos 1970, um senador americano reacionário, acusou Ferlinghetti, junto com Ginsberg e Jane Fonda, de desequilíbrio mental, dizendo que eles representavam "o enfraquecimento moral da nação." Porém, em 1975, depois deste embate, a prefeitura de San Francisco reconheceu o trabalho importante do poeta-editor, e foi criado no calendário cultural da cidade o Lawrence Ferlinghetti Day. 
 
Na 1ª parte da atual edição, tal como o livro, intitulada "Um Parque de Diversões da Cabeça", segundo o próprio Ferlinghetti: "O título foi tirado da obra de Henry Miller, Into The Night Life". E Ferlinghetti dizia também que tal título estava fora do contexto original: "mas expressa o que eu sentia ao escrever estes poemas - como se juntos eles fossem uma espécie de parque de diversões da cabeça, um tipo de circo da alma."
 
Nesta 1ª parte, podemos ver, em trechos do poema I, o seguinte: "nas melhores cenas de Goya parece que vemos/as pessoas do mundo/no exato momento em que/pela primeira vez elas ganham o título/de 'humanidade sofredora'". Tal é a imagem que Ferlinghetti busca de Goya como primeiro eixo da reflexão que sua poesia fará. O mundo sofre, e na arte da pintura isto está expresso, e seu poema transfere a angústia do mundo de Goya para o verso, a humanidade sofredora vem das cenas do pintor, e aparecem novamente nos versos do poeta. Então, Ferlinghetti, no fim, arremata: "que ilustram ilusões imbecis de felicidade ...". E continua o poeta: "mas muito mais cidadãos mutilados/em carros pintados/que têm placas estranhonas/e motores/que devoram a América." O destino desta mutilação existencial segue, então, a fuga da América, a estrada. Os motores devem devorar o país americano, as ilusões imbecis devem servir ao menos para um gozo pela estrada, a América se realiza neste mito da estrada, a viagem fundamental da década de 1960, como uma alternativa à vida burguesa e careta do conservadorismo de aparências. Pois, se a poesia tem uma virtude, esta é dizer ao que ela veio, criar do mundo devastado da sordidez conformada, um caminho de liberdade que tem como intento "devorar a América."
 
No poema 3, ainda nesta 1ª parte, temos os seguintes versos: "o olhar do poeta olhando obsceno/vê a superfície do mundo" ... "e seu mistério carregado nas árvores/seus parques dominicais de estátuas mudas/sua América/rica de localidades fantasmas e ilhas de formalidades vazias." Nestes trechos, o poeta vê além, ou ainda, já vê a estrada aberta, como um ritmo que só os poetas, com sua intuição, são capazes de decifrar. Ou seja, as formas vazias, em que o olho obsceno do poeta vê o mundo, na sua superfície, tem mistérios que vão além, e é vendo o mistério detrás da superfície, que o poeta denuncia uma América fantasmagórica, aonde o que é superfície ganha mistério e vira poesia. Das estátuas mudas e das árvores se tira o mistério, e a poesia transmuda estes elementos, com o brilho deste olhar especial, que o poeta lança sobre todas as coisas, até as ínfimas. Empenho que Ferlinghetti realiza, ao colocar os objetos simples em tons surrealistas, com esta visão "chapada" de uma poesia viva. 
 
É o que se vê, a seguir, no poema 4: "Num ano surrealista/de homens-sanduíche e banhistas ao sol/girassóis mortos e telefones vivos" ... "Oh era uma primavera/de folhas de peles selvagens e flores de cobalto/enquanto cadillacs caíam como chuva entre as árvores." Eis a visão surrealista de um poeta já moderno, aonde o mundo ordinário ganha e conquista o extraordinário. A ontologia que é feita aqui, transcende e dá luz de mistério às coisas, e torna este mistério traduzido nestes poemas.
 
No poema 10, ainda na 1ª parte, seguem os versos: "Em toda a minha vida jamais deitei com a beleza/confidenciando a mim mesmo/seus encantos exuberantes" ... "no entanto dormi com a beleza/da minha própria e bizarra maneira/e aprontei uma ou duas cenas muito loucas" ... "e daí transbordou um poema ou dois/para esse mundo que parece o de Bosch". Ferlinghetti se dá com a beleza de forma diversa, se se pensar na entidade cara aos poetas que, de toda arte, a poesia é a que mais canta em nome desta suposta deusa chamada "beleza". E então, por sua vez, o poeta beat apresenta esta beleza na forma bizarra, não-clássica, em que os eflúvios ideais esperados da poesia, tornam-se reflexos de um mundo louco, que transborda como pinceladas de Bosch.
 
No poema 13, também na 1ª parte, seguem os versos: "Eu por mim pintaria/um Paraíso diferente/onde as pessoas ficariam nuas" ... "onde até eu podia ter entrado um dia/Os altares no céu seriam só/fontes da imaginação". O paraíso é a imaginação do poeta, sua pintura são seus versos. Ferlinghetti pinta com a escrita, e sua imagem do paraíso é sempre esta transmutação da pintura na poesia. O poeta pinta com os versos, seu bordado é o paraíso que ele imagina. As fontes da imaginação transformam em versos o elemento que se origina das contemplações da pintura. 
 
No poema 15, ao fim da 1ª parte, o ritmo se expande no verso: "o poeta sobe pela rima/como um acrobata/para a corda elevada que ele inventa" ... "fazendo além de entrechats/truques variados com os pés/e gestos teatrais da pesada" ... "Pois ele é o super-realista" ... "no seu avanço pressuposto/para o poleiro ainda mais alto/onde com a gravidade a Beleza/espera para dar/seu salto mortal." Estes trechos citados são golpes de gênio. Ferlinghetti define perfeitamente a atividade poética em lances precisos. A imagem do ser poeta é decifrada pela própria metáfora, tal é o gesto teatral da pesada, o acrobata que faz truques com os pés. O poeta tem gesto corporal. Sua acrobacia é seu corpo com o verso. A poesia, entidade aparentemente metafísica, etérea, é aqui desmistificada como movimento de corpo. E a Beleza, expectativa máxima deste ardor do espírito, faz mais um lance de corpo, um salto mortal.
 
Agora, na 2ª parte, intitulada Mensagens Orais, Ferlinghetti enuncia: "sete poemas concebidos especificamente para acompanhamento jazzístico", e tal forma de poema-música teria a orientação de ser compreendida mais como discurso espontâneo, as "mensagens orais" teriam a voz real como definidora de seu ritmo, ou seja, seriam mais orais, como o título denuncia, do que poemas redigidos para a página impressa. No poema "Estou Esperando", seguem-se os versos: "Estou esperando que meu caso seja lembrado/e estou esperando/um renascimento do maravilhoso/e estou esperando que alguém/descubra de fato a América" ... "e estou esperando/a descoberta/de uma nova fronteira simbólica no Oeste/e estou esperando/que a Águia Americana/estenda realmente suas asas/e se aprume e alce voo" ... "e estou esperando/que calafrios de arte espontânea/percorrem minha máquina de escrever/ e estou esperando escrever/o poema impecável e definitivo". Ferlinghetti, neste poema, usa de dois estribilhos (ou seja, repetições no poema), que são o verso "estou esperando" e o que eu julgo o estribilho principal para o sentido do poema: "um renascimento do maravilhoso". O poeta, aqui, define o que ele espera, diante do mundo normal, aguarda em sua poesia o renascimento do maravilhoso. Tal poesia que tenta então retornar a este mundo originário, que é uma volta ao mesmo mistério de que falei mais acima. O poema surge do mistério, e torna o mundo renascido no maravilhoso. O que Ferlinghetti tanto espera é um desejo que não se conclui. O pendor poético, talvez aqui, sofra da mesma miséria da filosofia, que ama a sabedoria e não pode alcançá-la, assim como a poesia ama a maravilha e o mistério, mas nunca poderá atingir um ápice total de seu anelo.
 
Ainda na 2ª parte, Mensagens Orais, o poema Obbligato do Bicho Louco, tem também imagens poéticas interessantes: "Tomemos os Pardieiros Urbanos/pelo que eles são realmente." ... "Vamos declamar nas esquinas/lendo bíblias bichadas/Seguir piranhas no porto/Falar canções de selvageria" ... "e indo às tantas procurar por pivetes/sob a Ponte de Brooklyn/estátuas de calças largas no vento/nossos gritos de guerra e a voz do lixo/avisando pastosa/que vende quinquilharias!" ... "Tchau que estou saindo de cena/Fim de papo para mim./O sistema está todo contaminado." ... "Estou cansado de esperar por Godot." ... "Vamos pois nós dois/largando as gravatas penduradas nos postes/Assumindo a barba/da anarquia andarilha/com uma cara de Walt Whitman/e uma bomba feita em casa no bolso." ... "Não suporto isso./Vou passar/por pilhas de avaliações/de agentes alfandegárias que se dizem/críticos literários." Ferlinghetti enuncia, aqui, a luta entre o mundo do sistema contaminado, o qual ele quer abandonar, e que pode virar uma espera de Godot, na qual, talvez, ele não se salve. Mesma espera beckettiana contida energicamente no poema anterior "Estou esperando". Aqui, Ferlinghetti vai às ruas declamar, os pardieiros entram com maiúscula não por acaso ou capricho, mas como elemento principal que detona a ordem à favor da selvageria, com a barba anárquica de uma rebelião herdada de seu mestre Walt Whitman, ao passo que condena o aviltamento de burocratas que se vestem como críticos literários, horror dos escritores.
 
No poema mais famoso de Ferlinghetti, Autobiografia, o ciclo vital de Mensagens Orais ganha seu termo maior: "Já tentei o silêncio/o exílio e astúcia." ... "Estou sabendo que Colombo/não inventou a América./Ouvi uma centena de Ezra Pounds amestrados/Acho que todos eles deveriam ser soltos." ... "Li as Seleções de Reader`s Digest/de cabo a rabo/e notei a perfeita identificação/entre os Estados Unidos e a Terra Prometida/já que em todas as moedas está impresso/Confiamos em Deus". A ironia também ataca aqui neste poema, Ferlinghetti detona os Ezra Pounds e os quer livres, já tentou de tudo, o silêncio e a esperteza, sabe que a América inventada passa longe da descoberta simples de Colombo, sabe também que na leitura da popular Seleções, a América e a Terra Prometida se equivalem na sua crença em Deus, e na confiança cega neste Senhor Todo-Poderoso. A América, portanto, sempre esteve nas mãos de Deus, e o poeta só constata o que é óbvio e cunhado até em moedas.
 
Ao fim, os versos seguem, ainda no poema Autobiografia: "Sou uma colina/pela qual os poetas ascendem./Inventei o alfabeto/depois de observar o voo das garças/que faziam letras com as pernas./Sou um lago na planície./Uma palavra/numa árvore./Sou uma montanha de poesia." ... "E talvez transforme meus papéis/em folhas de relva." Neste fim do poema, aqui a reverência máxima é mais uma vez dirigida à Walt Whitman. Folhas de relva, livro do mestre, e que Ferlinghetti materializa como a colina. Todos os poetas passam por este caminho, e na América não há poesia ou poetas sem a leitura de Walt Whitman. Os poetas dos Estados Unidos, e toda a geração beat, por fim, devem muito ao poeta maior, e Ferlinghetti é mais um comparsa desta grande rebelião que sempre foi toda poesia.

Gustavo Bastos, escritor e filósofo
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 
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