A imagem que fica

O projeto instituindo a política estadual de produção agroecológica é mais para envernizar a imagem de Hartung

Na reta final do seu terceiro mandato, o governador Paulo Hartung, que nesta quarta-feira (7) deixou o MDB, adota iniciativas visando envernizar sua imagem de gestor público quando relacionado ao campo social, sem dúvida para enriquecer seu legado junto a setores até agora praticamente abandonados, indiferente aos protestos e apelos. 

De um lado, os prefeitos se movimentam para manter o repasse em parcela única de convênios firmados no apagar das luzes, ampliando a possibilidade de realizar obras em seus municípios; e os servidores públicos se alegram com o abono natalino de R$ 1,5 mil. Estes são os atos mais destacados. 

Na esteira de benesses, nessa terça-feira (6), chegou à Assembleia Legislativa projeto do governo que institui a Política Estadual da Produção Agroecológica e Orgânica (Peapo). À primeira vista, a iniciativa do governo contempla a alimentação saudável, o respeito ao meio ambiente e um sistema justo de produção e comercialização. 

Apesar das alardeadas boas intenções do governo, vale ressaltar que a gestão que se encerra em dezembro deixa no Estado um passivo imenso na questão ambiental e na produção procedente da agricultura familiar, enaltecida no projeto que chega agora à Assembleia. 

Esse fato é mais cruel quando se tem conhecimento da expansão sem escala do deserto verde com o planto de eucalipto e o uso de agrotóxicos, legitimados por uma legislação tendenciosa, que só vê o lado das grandes corporações, como a Fibria (Aracruz Celulose), alvo de favorecimentos que incluem incentivos fiscais vultuosos.

Pequenos posseiros, projetos elaborados pelos movimentos sociais do campo, com experiências positivas, técnica e capacidade de produção agrícola, foram esquecidos pela atual gestão. O modelo exclui comunidades inteiras, seca nascentes de rios, destrói mananciais e a biodiversidade, apesar de esses apoios, necessários, constarem na papelada de projetos igualmente sufocados pela burocracia.  

Os estudos técnicos contrários à monocultura do eucalipto e os prejuízos provocados no entorno das grandes plantações, que tomam o norte do Estado até o sul da Bahia e alcança o noroeste até Minas Gerais, não importam muito e, assim, comunidades são destruídas, as populações relegadas a um plano inferior, incluindo os jovens, que deixaram de contar com programas educacionais apropriados para manter os níveis de produção e preparar gerações futuras. 

A escola familiar, integrando campo e educação, foi substituída pela escola em tempo integral, de inspiração privatista, que obriga centenas de alunos do campo a caminharem grandes distâncias para chegar à sala de aula, com agravante de afastá-lo da atividade produtiva. 

O projeto que visa a implantação da produção agroecológica deverá ser votado ainda neste governo e, apesar as falhas, as ações nele inseridas são bem vindas. No entanto, se mostram insuficientes para mudar a imagem do gestor que sai, pois ele carrega a marca de grande incentivador do deserto verde e condutor de uma matriz econômica excludente do pequeno e o micro produtor, a quem cabem apenas iniciativas assistencialistas.  

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