A juventude de James Joyce

Escritor irlandês foi considerado um dos grandes inovadores do chamado romance moderno

 

James Joyce foi um escritor irlandês do século XX, considerado um dos grandes inovadores do chamado romance moderno, inaugurando um novo modo de escrita denominado fluxo de consciência, incluindo também em seu método de escrita, os jogos de linguagem, revelando uma certa erudição, mas numa estrutura não muito convencional de enredo, o que caracterizaria a tendência moderna de seu estilo. Joyce foi influência decisiva para Samuel Beckett, Jorge Luis Borges, Thomas Pynchon, William Burroughs, dentre outros. Também sendo muito ajudado em sua carreira literária pelo poeta Ezra Pound, que o incluiu 
dentre os cânones dos poetas do imagismo.

 
James Joyce tem em sua obra completa, quatro principais trabalhos: o livro de contos Dublinenses, e seus três romances mais importantes, Um Retrato do Artista Quando Jovem, Ulisses e Finnegans Wake. Sua consagração como um dos principais representantes da prosa moderna chega ao ponto de hoje, em seu país, 
a Irlanda, termos um dia em sua homenagem, o Bloomsday, em 16 de junho, que começou em Dublin, e hoje  se espalha pelo mundo. Dia do ano que remete ao 16 de junho de 1904, que é o único dia em que se passa a estória de seu romance mais importante e emblemático, Ulisses, e que também se refere a um dos personagens 
deste mesmo romance, Leopold Bloom.
 
 
Seu romance Um Retrato do Artista Quando Jovem, que começou como um projeto de conto, e que inicialmente teve outro título, Stephen Hero, foi remodelado completamente, até ganhar seu caráter final, como a estória de Stephen Dedalus, o que se configurou como um alter ego do próprio Joyce, num relato ficcional que se pode chamar de uma metáfora autobiográfica, onde o personagem passa sua infância e juventude, e onde também podemos ver os jogos de linguagem e o fluxo de consciência como métodos de escrita, por excelência, da prosa joyceana.
 
 
Neste romance, Joyce passa por vários questionamentos, na infância de Stephen Dedalus, onde sua família já discute a religião cristã, as questões de soberania da Irlanda, enquanto Stephen convive em alguns colégios e interage com várias pessoas. As discussões de uma criança, no início do romance, vão se sofisticando, à medida que Stephen Dedalus vai se tornando um jovem. O romance é repleto de referências bíblicas e possui uma interrogação fundamental sobre os dogmas cristãos.
 
 
Na parte do romance em que temos o jovem Stephen Dedalus, também se passa um grande discurso de um dos padres de sua escola sobre o inferno, é uma das partes mais interessantes desta obra, em que a eternidade do inferno vem como advertência cristã sobre os pecados, e que levam o jovem Stephen a dúvidas existenciais, que vão percorrer a segunda metade do romance, tendo também, Stephen, uma tendência à teorização, o que se pode ver quando ele explica a um de seus amigos sua teoria estética, em que diferencia a arte em três formas: a lírica, a épica e a dramática. A estética de Stephen é o sensorial e o inteligível sob uma teoria que ele "está desenvolvendo", e, à parte disso, Stephen vive um verdadeiro conflito existencial, fundado em sua luta para aceitar ou negar certos dogmas cristãos. Tomás de Aquino 
é requisitado algumas vezes, e Stephen busca a libertação, e encontra em si mesmo e não no dogma a fonte de sua libertação, talvez uma de suas saídas tenha sido também a sua teoria estética, como um modo de se afirmar intelectualmente.
 
 
É no conflito interior de Stephen Dedalus, e sua interação com o exterior, que James Joyce traça seu romance autobiográfico, também como uma afirmação de sua vida perante as regras que, muitas vezes, não refletem as dificuldades e complexidades da experiência humana, ainda mais quando se trata de uma criança ou de um jovem, que ainda não assimilou completamente certos significados sociais ou existenciais, e que, neste romance, como "um retrato da juventude, um retrato do artista jovem", revela a complexidade de uma experiência de crescimento e amadurecimento. 
 
 
Um Retrato do Artista Quando Jovem é a autobiografia de Joyce, mas também é a experiência universal da juventude, de suas dificuldades e dilemas, e de sua imensa perspectiva de futuro. A juventude, em Joyce, ganha um significado profundo de conflito, e também de busca de liberdade e de libertação. O jovem Stephen Dedalus é Joyce, mas também poderia ser qualquer jovem do mundo, daí a universalidade de tal romance, que não é uma estória fácil ou banal, e que nos leva às riquezas que 
encontramos numa "cabeça em formação".
 
 
James Joyce, com o romance Um Retrato do Artista Quando Jovem, inaugurou sua forma estética, ou seja, uma prosa moderna 
que deixa de se ater muito no descritivo, e que dá mergulhos psicológicos e linguísticos de fôlego. Joyce amadurece, logo após, 
em Ulisses, sua grande obra, e termina seu périplo no polêmico livro Finnegans Wake, que leva ao paroxismo suas experiências 
literárias.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com
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