A lição do velho K.

Aos poucos, os brasileiros vão formando um dossiê sobre a desumanização de setores da polícia e das forças de segurança

 

Neste Natal, o primeiro sob a tutela da Comissão da Verdade, peço ao Negrinho do Pastoreio que ajude todo mundo a encontrar o que mais ardentemente procura. Que os filhos sem pai nem mãe encontrem amparo na casa de um amigo, colega ou companheiro. Que as mães obtenham resposta à busca dos filhos extraviados e os pais não sejam vencidos pelo cansaço em sua vigília por uma notícia da filha desaparecida.  
 
Neste Natal, recomendo a leitura de K., livro de Bernardo Kucinski editado pela Expressão Popular. Com 180 páginas, está em segunda edição e custa 15 reais. Contando com belos desenhos a nanquim de Enio Squeff, é uma das obras que fazem parte do terrível inventário de perversidades praticadas nos subterrâneos dos governos militares, que fizeram vista grossa ou patrocinaram explicitamente uma política de sequestros, torturas e desaparecimentos de presos políticos.  
 
Trata-se da história do velho K., que peregrina por igrejas e repartições em busca de informações sobre a filha Ana Rosa Kucinski, professora de Química da Universidade de São Paulo, que desapareceu em abril de 1974, junto com o marido. Ambos eram da ALN, a principal organização armada contra a ditadura.
 
O título K. sugere várias leituras. Nos primeiros capítulos é seguramente o nome do velho polonês que chegou ao Brasil fugindo do nazismo. A partir de certo momento, é a abreviatura do sobrenome da família que, representada pelo próprio Bernardo, irmão da desaparecida, fez da procura de Ana Rosa o sentido de uma vida atormentada pelo cinismo dos agentes policiais e militares envolvidos na repressão de grupos opositores. Pode ser ainda uma alusão ao nome de Kafka, o escritor extraviado nos labirintos da burocracia.
 
Em seu livro, que faz uma excelente combinação de realidade e ficção, BK (apelido do autor, que foi repórter de Veja, editor dos jornais Movimento e Em Tempo, professor de jornalismo na USP e correspondente do jornal inglês The Guardian) admite a possibilidade de que Ana Rosa e o marido possam ter escolhido o caminho do suicídio, mediante a ingestão de uma cápsula de cianureto que carregavam consigo, para não passar pelo risco de entregar companheiros em sessões de tortura.
 
Segundo uma testemunha, companheira de cela da prisioneira, isso teria ocorrido na Casa da Morte, uma mansão em Petrópolis onde os presos eram interrogados, seviciados, mortos, esquartejados e enterrados ou incinerados (no livro Memórias de Uma Guerra Suja, o ex-delegado Cláudio Guerra afirma em depoimento a Rogério Medeiros que uma dezena de presos, entre eles Ana Rosa Kucinski, foi queimada na fornalha de uma usina de açúcar no interior de Campos, RJ).
 
À medida que vêm à tona tantas histórias escabrosas, os  brasileiros vão formando um dossiê sobre a desumanização de setores da polícia e das forças de segurança. Quanto a isso, duas coisas não podem ser ignoradas: primeiro, autoridades de outrora (e de hoje) continuam negando o uso de métodos desumanos no tratamento de presos políticos; segundo, as práticas abusivos continuam atingindo os presos comuns, numa escala talvez muito maior do que nos tempos da ditadura militar.
 
Neste Natal, torcemos para que a sociedade brasileira progrida em humanidade condenando os métodos policiais de tortura e submissão física dos presos comuns.
 
Não basta revelar o extermínio de presos políticos durante a ditadura militar. Os direitos humanos dos presos comuns valem tanto quanto os DH dos presos políticos.
 
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
O Negrinho do Pastoreio é uma lenda gaúcha do tempo da escravidão que mistura fé e liberdade. Protegido por Nossa Senhora, o menino ajuda a quem lhe acende uma vela.
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