A Love Supreme, a obra-prima de John Coltrane

Coltrane consegue com este álbum alcançar tudo o que a sua intuição lhe dizia da música

O ÁLBUM

John Coltrane é um dos grandes do Jazz, junto com Miles Davis, e seu auge foi com o álbum A Love Supreme, que surgiu da obsessão e da inspiração do músico depois de um isolamento no meio do ano de 1964, no andar de cima de sua casa, de onde voltou já com a música que ouvia dentro de si anotada e considerada como um trabalho pronto. E então Coltrane sai de seu isolamento e diz a sua esposa : “Esta é a primeira vez que me veio toda a música que quero gravar, como uma suíte. Pela primeira vez, tenho tudo, tudo pronto”.

E então, em 9 de dezembro, Coltrane entra em estúdio, no Van Gelder Studio, New Jersey, com McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria) para gravar em apenas uma noite e em uma sessão única todo o álbum que viria a ser A Love Supreme, que veio a ser um material de pouco mais do que 30 minutos. Este álbum de Coltrane é o maior de sua carreira solo, e está, como obra-prima do Jazz, com apenas um rival, o Kind of Blue de Miles Davis, este que fora gravado em 1958 (curiosamente com a participação de Coltrane, que tocou com Miles).

A Love Supreme seria lançado em fevereiro de 1965, e é um álbum sobre o amor divino, numa perspectiva mais transcendental, nada de dogmas religiosos, era uma relação da intuição musical e seu contato direto com a inspiração divina, um sopro de vida de um músico que vinha de uma libertação do álcool e da heroína. O álbum apresenta sua base musical feita em jazz modal (ou seja, não segue escala de tons definida), além de também se guiar pelo free jazz.

No álbum temos o lado A com “Acknowledgement”, gravada em um único take, e “Resolution”, fruto de sete takes. No lado B, por sua vez, temos “Pursuance/Psalm”, take único, com o trecho de Psalm tendo o sax tenor de Coltrane usado como voz e parecendo pronunciar o salmo escrito pelo próprio Coltrane, texto este que aparecia na contracapa da edição original do álbum.

O CAMINHO MUSICAL DE JOHN COLTRANE

John Coltrane começou como pupilo de Charlie Parker, ainda como um músico comum e sem a criatividade que só explodiria na companhia de Miles Davis e depois ficaria madura e potente em sua carreira solo. A Love Supreme é o ápice da criatividade e técnica de Coltrane. Contudo, Coltrane só viveria mais três anos, morrendo aos 40 anos com um câncer no fígado, momento em que se encontrava com a sua crença em todas as religiões e livre há uma década do vício em heroína e álcool.

John Coltrane, por sua vez, antes de atingir o seu auge em A Love Supreme, teve outra contribuição histórica, como dito, no álbum de Miles Davis, Kind Of Blue, álbum este que estabeleceria um novo conceito de harmonia, no que passaria a ficar conhecido por “Coltrane Changes”.

O caminho musical de John Coltrane, que começa de fato quando este se junta à banda de Charlie Parker, tem no sax alto um primeiro momento, instrumento este que havia sido esgotado em possibilidades pelo chamado “The Bird”, apelido de Parker, e que faz Coltrane migrar então para o sax tenor, instrumento este que o consagraria. A partir daí ele toca na banda de Dizzy Gillespie.

Miles Davis então convida John Coltrane para entrar na sua banda, um quinteto, depois de uma sondagem com Sonny Rollins, mas este já estava em outra banda, e então Coltrane se junta ao timaço do quinteto de Miles, e é no Miles Davis Quintet que tanto Miles como Coltrane explodem em técnica e criatividade. Mesmo assim, devido aos excessos de Coltrane com álcool e heroína, Miles tira Coltrane da banda.

Quando Coltrane se livra dos vícios que lhe perseguiam, Miles o chama de volta, e este é o momento em que é criado o Kind Of Blue, um álbum que muda o jogo do Jazz e que fecha qualquer caminho de retorno ao que era praticado antes, ou seja, o bebop. Depois deste marco do Jazz, Miles segue a sua carreira e Coltrane finalmente parte também para uma carreira solo e uma banda própria.

A BUSCA E A REALIZAÇÃO DE JOHN COLTRANE

John Coltrane era um obsessivo por conhecimento, e então o músico começa a estudar as religiões, associando isso, claro, a seu conhecimento musical, e juntando este conhecimento com uma pesquisa matemática e também com estudos de física, com a matemática sendo um guia ideal para Coltrane compreender a estrutura musical e as escalas fazendo uso da teoria dos conjuntos e da afinação pitagórica. No campo da música, por sua vez, Coltrane estuda estilos regionais dos Estados Unidos e do mundo, com foco principal na África e na Índia.

E foi com esta busca de conhecimento que A Love Supreme surgiu como outro grande marco, desta vez espiritual, do Jazz. Coltrane consegue com este álbum alcançar tudo o que a sua intuição lhe dizia da música, tudo o que ele gostaria de tocar foi realizado com A Love Supreme. Por sua vez, o álbum é oferecido a Deus, e Coltrane agradece por ser este Deus que lhe granjeara o dom musical.

A Love Supreme (John Coltrane) – 1965 – Integrantes: John Coltrane (Sax tenor), Jimmy Garrison (baixo), Elvin Jones (bateria) & McCoy Tyner (piano).

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog:
http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para manter ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.