A marcha da civilização

É a grande massa pobre que sustenta a minoria rica

 Na banca de jornal, um senhor se diz esperançoso de que, após a reforma trabalhista e a reforma previdenciária, tudo vai melhorar no Brasil...

“Sem chance”, diz outro, lembrando que as coisas estão melhorando para uma minoria e piorando para a maioria. “Enquanto a maioria estiver sendo sacrificada para favorecer uma minoria, as coisas não vão melhorar”, concluiu.

Segundo a manchete do jornal exposto na banca -- que está virando cafeteria e bomboniere, pois a venda de impressos caiu a níveis baixíssimos --, o número de milionários no Brasil cresceu nos últimos anos, chegando a 259 mil pessoas.

Deve o Brasil se orgulhar disso? Ou envergonhar-se? Afinal, somos mais de 200 milhões em ação.

Enquanto isso, quase todo mundo esquece – ou gostaria de esquecer – que, da população economicamente ativa de 100 milhões de pessoas, mais de 12 milhões estão desempregados e um número ainda maior desistiu de procurar trabalho, figurando nas estatísticas como “desalentados”. Entre uns e outros, alguns milhões se viram com trabalhos eventuais, os chamados bicos.

É das coisas mais tristes para um ser humano pensar que a chamada civilização rodou 10 mil anos para chegar a isso que aí está: um bilhão de pessoas sem comida no planeta enquanto alguns milhares de bem nascidos disputam espaço na mídia para exibir seus dotes em gastronomia, gourmeteria e outras anomalias geradas pela gula, a inveja e a soberba.

Isso é o que se vê no tocante a comida, uma situação escancarada na TV, mas igual paradoxo acontece no âmbito da habitação, do transporte público, da segurança, da educação, das artes e da saúde: o acesso é escandalosamente desigual.

São problemas séries que parecem mais graves porque, nos governos e nas empresas, que acumulam os recursos para resolvê-los, poucas pessoas os encaram e tentam equacioná-los. Como os governantes não se sensibilizam diante de tamanha insanidade? Só pode ser porque eles vivem em aviões, carros e gabinetes fechados dentro de palácios protegidos por guardas armados.

Imaginemos o ministro Paulo Guedes saindo às ruas para um reconhecimento sobre o funcionamento da economia nos andares de baixo.   

Mire e veja, ministro: no quarteirão defronte ao maior hospital da cidade, revezam-se dia e noite de seis a oito guardadores de vagas para automóveis que, eventualmente, lavam um carro por 30 reais, concorrendo com o estacionamento que cobra 60 mangos por uma lavagem completa.  Há dois anos, só havia três guardadores, o mais antigo deles com “16 anos de rua”. Recentemente, em pleno inverno, um deles perdeu a companheira e, muito triste, anunciou que voltaria para sua terra, a Bahia, já que ficou sem o barraco onde dormia e passou a dormir debaixo da aba de uma loja fechada pela crise da economia. Pobre Rastafari com sua touca jamaicana, ele sumiu.

Sua vaga na rua está sendo disputada, “de boas”, por três pingentes do mercado de trabalho. São trabalhadores tratados como “vagabundos” que passam as horas tentando juntar dinheiro para um café, um sanduíche e, principalmente, para pagar a pousada (onde têm direito a banho e cama) caso não consigam vaga num albergue público onde as filas começam a se formar antes do anoitecer.

Se não consegue vaga em albergue ou pousada, o guardador tem de descolar uma vaga no recuo de alguma garagem, de onde será enxotado de manhã, deixando atrás de si um cheiro de urina e de suor sujo. A pergunta é: como esses caras vão sair dessa situação de penúria se não contarem com a ajuda de alguma instituição pública ou privada?

“Sem chance”, como diz o outro.        

 LEMBRETE DE OCASIÃO

“Enxada em terra alheia nunca traz dia melhor”.
.Cenair Maicá (1947-1989), cantor e compositor das Missões do RS.

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