A quem fala o presidente

Jânio governava usando bilhetes graciosos, Jair dispara mensagens digitais grosseiras

Em artigo no site Carta Maior, Reginaldo Moraes pergunta a quem se dirige o presidente Jair Bolsonaro em seus pronunciamentos ao vivo ou em seus disparos pelas redes sociais da Internet.

O último tirambaço presidencial foi em Santa Maria, na festa anual da Cavalaria, dias atrás: ele disse que era preciso autorizar o povo a se armar para eventualmente se defender contra “tentações ditatoriais de governantes”.

A quem estaria endereçada mensagem tão misteriosa?

Estaria o ex-capitão eleito presidente por 58 milhões de brasileiros vendo fantasmas?

Ou, na hipótese do articulista Moraes, estaria pensando nos “comerciantes do subúrbio, os que colaboram e até festejam coisas como milícias e justiceiros?”

Continua o jornalista: “Será a classe média dos bairros mais finos?”

Sem negar a existência desses nichos de apoiadores, Moraes envereda por um terreno de hipóteses nada civilizadas: ele “desconfia” que o ex-capitão fala para militares e policiais militares – ativos e da reserva.   

Lembrando que não se refere aos 150 generais aposentados atualmente trabalhando em cargos executivos em Brasília, o articulista expõe alguns números significativos:

“Há 320 mil militares na ativa, uns 200 mil no Exército. E uns 3,5 milhões na reserva.

Há uns 5 mil generais na reserva.

Há uns 150 generais na ativa, proporção grande para o total do efetivo, maior proporção do que exércitos em guerra e operações de porte (Estados Unidos, Israel, Inglaterra, etc.).

Entre os superiores top (generais e equivalentes nas outras armas), há uns 300 caras.

Os oficiais superiores abaixo dos generais (coronel, major, tenente-coronel) somam uns 40 mil.

E os oficiais subalternos (capitão, tenente) somam uns 100 mil.

Dai seguem os sargentos, cabos, soldados, uns 200 mil”.

Ele prossegue focalizando as PMs, “talvez até mais próximas do bolsonarismo do que o Exército”. No Rio, diz ele, há um quartel da PM com o nome do pai do presidente.

Quem são e o que pensam os oficiais superiores e os “médios” da PM? E seus sargentos? “Estes últimos em alguns lugares têm enorme importância...”

No Rio, por exemplo, “a PM tem mais chefes do que comandados. 15 mil sargentos, 11 mil cabos, 9 mil soldados”.

Na PM de São Paulo, “há pouco mais de 1.100 coronéis (patente máxima), mas apenas uns 100 na ativa”.

Novo capítulo: os “desmobilizados” do Exército e das PMs? O que fazem? A que estão dispostos?

Comentário do articulista: “Aposentam-se com valores bem acima do INSS. Em geral, em idade conveniente para se dedicar a outra atividade. Qual? Empresas de segurança? Tempos atrás, jornal paulista informou que mais da metade dos desmanches de automóveis da Grande São Paulo era propriedade de oficiais aposentados da PM. Oficiais da PM não se especializam em conserto de carro durante a carreira”.

Conclusão de Reginaldo Moraes: “Se somarmos esses números, podemos imaginar que temos aí um pequeno exército de militantes mobilizáveis, inclusive para ações mais ofensivas” – ao que acrescento o exército invisível constituído por trabalhadores da segurança (1,6 milhões de pessoas, segundo estimativa de dez anos atrás), contingente que abrange (ou não) avulsos que trabalham como guarda-noturnos em quarteirões chiques, vigilantes de bancos, olheiros de lojas, porteiros de condomínios horizontais e verticais, bedéis, entregadores...

Talvez não devêssemos ficar desconfiados de que haja fantasmas atrás das portas giratórias das agências bancárias, dentro dos carros-fortes das empresas de transporte de valores ou na carona das motocas urbanas...mas a quem interessa colocar armas nas mãos das pessoas num país abalado pelo crescimento da desigualdade social?

LEMBRETE DE OCASIÃO

“Toda época de grandes opressões é época de grandes sutilezas”

Millor Fernandes, em 1973

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