A Revolução dos Bichos

''A Revolução dos Bichos representa uma parábola crítica dos meios de degeneração do igualitarismo soviético''

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nasceu em Motihari, Índia, em 1903. Concluiu seus estudos na Inglaterra, em 1922, alistando-se, depois disso, na Indian Imperial Police e, em 1928, retornou à Europa. Orwell morreu em Londres em 1950. Duas de suas grandes obras literárias são: 1984, publicado em 1949, e A Revolução dos Bichos, de 1945.
 
Já tematizei aqui, numa resenha desta coluna, sobre o livro de Orwell, 1984. Desta vez, o tema será a obra A Revolução dos Bichos, que tem a mesma orientação original de 1984. Mais uma vez, uma imagem da sociedade que, em 1984, se referia a um futuro distópico, e agora, em A Revolução dos Bichos, fala de um tema seu contemporâneo, dos anos 40, que se refere, em forma de parábola, à Revolução Russa de 1917, com sua consequente formação da União Soviética, e suas implicações políticas, sociais e ideológicas, numa crítica ácida ao regime de poder instaurado pelo camarada Stálin, na então União Soviética.
 
Portanto, A Revolução dos Bichos representa uma parábola crítica dos meios de degeneração do igualitarismo soviético. Embora Orwell fosse militante socialista, ele não poupou as contradições e absurdos do poder stalinista, fruto do sonho socialista, mas que realizou um comunismo de comitê, deixando a ditadura do proletariado, em troca de uma burocracia corrupta e centralizada num partido único, o que acabou por ser uma ditadura de partido, e não da classe proletária.
 
A Revolução dos Bichos, embora tivesse sido um livro concluído em 1944, por Orwell, teve de esperar o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, para ser publicado. Nenhum editor inglês quis publicar a obra, na ocasião de sua conclusão, em 1944, por conta de poder significar uma interpretação política da obra, sendo esta, um ataque direto, em forma alegórica, mas de teor evidente, à política do então aliado da Inglaterra, o camarada Stálin. E, de fato, na obra, a fazenda onde se desenrolam os fatos, poderia realmente ser identificada com a União Soviética.
 
Construído sobre o cômico e o grotesco, numa forma satírica, o romance A Revolução dos Bichos é, como dito, uma impiedosa análise das atrocidades que podem acontecer num regime político, que se configura como puro e cínico exercício de poder, independente de sua orientação ideológica. Nas melhores intenções pode morar o ovo da serpente, e este, no caso da União Soviética e do romance A Revolução dos Bichos, tinham em Stálin a sua figura de proa e personalidade central da contradição performática de uma ideologia que, por sua vez, começa como luta libertária, e se torna, logo depois, um regime totalitário de poder.
 
O romance A Revolução dos Bichos se passa numa fazenda, a Granja do Solar. Tal lugar era propriedade de um homem de nome Jones. Dentre os bichos da fazenda, se destacam os porcos, e temos, aqui, a parábola em relação a três camaradas da Revolução Russa: o velho porco Major pode ser associado facilmente à figura de Lênin, enquanto, por sua vez, o porco Bola-de-Neve pode ser Trotsky, e o porco Napoleão, Stálin. A fazenda, por sua vez, é a União Soviética em versão alegórica.
 
Major discursa para os bichos da fazenda, coloca suas ideias, de como os bichos são explorados pelo Homem, e de como nenhum animal é livre na Inglaterra. Os bichos, portanto, para serem livres, teriam que se libertar do Homem. O produto do trabalho dos bichos, por sua vez, deveria ser dos próprios bichos. Os bichos deveriam fazer uma rebelião. "Todos os homens são inimigos, todos os animais são amigos." "O que quer que ande sobre duas pernas é inimigo, o que quer que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo." Este era o discurso proferido pelo velho porco Major que, três noites depois desse dia, e deixando a canção "Bichos da Inglaterra" de herança para a futura rebelião, falece. 
 
Na fazenda, entre os bichos, a tarefa de instruir e organizar os outros recaiu, naturalmente, sobre os porcos, reconhecidamente os mais inteligentes dos bichos. Donde se destacavam, após a morte de Major, dois porcos: Bola-de-Neve e Napoleão. E junto, muito falaz, estava o futuro porta-voz das virtudes do governo de Napoleão, o porco Garganta. Estes três porcos, então, organizam os ensinamentos de Major num sistema de pensamento a que dão o nome da Animalismo. 
 
A rebelião acontece, finalmente. Os bichos se revoltam e expulsam os homens da fazenda, e junto deles, na fuga, o proprietário do lugar, Jones. A esta altura, se vê uma perfeita alusão à Revolução Russa que, aqui, era nada mais que A Revolução dos Bichos. A Granja do Solar é rebatizada de Granja dos Bichos. São feitos os Sete Mandamentos, que todos os bichos, a partir de então, deveriam seguir. Bola-de-Neve pega uma velha toalha verde de mesa e pinta, no centro, em branco, um chifre e um casco. Nas reuniões dos bichos, por sua vez, Bola-de-Neve e Napoleão nunca estavam de acordo entre si, havia uma evidente competição. A Reunião era encerrada sempre com o hino "Bichos da Inglaterra". E, depois de pensar, Bola-de-Neve resume, então, os Sete Mandamentos, em uma única máxima, que era: "Quatro pernas bom, duas pernas ruim." Era o princípio essencial do Animalismo.
 
No romance A Revolução dos Bichos, portanto, ocorrem batalhas entre os homens e os bichos. Alguns homens, dentre eles se incluindo Jones, ex-dono da granja, tentavam invadir e recuperar a fazenda tomada pelos bichos. Os homens derrubam o moinho de vento que era erguido e reerguido constantemente pelos bichos, em trabalho cada vez mais redobrado.  E Napoleão, por sua vez, consegue expulsar Bola-de Neve da fazenda, ao soltar cachorros atrás do mesmo, e toma o poder. 
 
Orwell empreende verdadeiros paralelos entre as ideias de Stálin e Trotsky, e a dos porcos Napoleão e Bola-de-Neve, respectivamente. Leia-se, aqui, um dos paralelos subentendidos: Napoleão queria a defesa da granja, achava que os bichos deveriam conseguir armas de fogo e aprender a manejá-las, enquanto Bola-de-Neve preferia provocar uma rebelião dos bichos em outras granjas. Por outro lado, já após a expulsão de Bola-de-Neve da granja, o porco Napoleão já era chamado de "Líder". Temos aqui a parábola do culto da personalidade, típico de regimes totalitários.
 
A esta altura, tudo que desse errado na granja, a culpa era de Bola-de-Neve, algo semelhante à política de paranoia do stalinismo, que elegia seus inimigos e realizava assassinatos de possíveis conspiradores opostos ao regime. Tal ocorre na granja, por sua vez, ao Napoleão, com os seus cachorros, perseguir a matar possíveis aliados de Bola-de-Neve. 
 
Passam-se os anos, e a granja prospera, estava rica, mas nenhum bicho havia enriquecido, exceto, é claro, os porcos e os cachorros. Mas havia um sentimento de honra pelo privilégio de serem, os bichos, membros da Granja dos Bichos, que continuava a ser a única em toda a Inglaterra de propriedade dos bichos e por eles administrada. Neste ponto, a surpresa fatal ocorre, a parábola de Orwell se conclui terrivelmente. Haveria uma consequência lógica para aquele estado de coisas, a revolução se torna seu inverso, os porcos estavam lá, no poder, e o sentido totalitário se dá no desfecho, algo que culmina com a imagem principal da crítica toda do romance ao totalitarismo stalinista, vocês poderão ver ao ler este romance. 
 
A Revolução dos Bichos se conclui magistralmente pela inspiração orwelliana, o passo criativo deste romance abrirá caminho para a distopia de 1984, em outro contexto, mas com a política e o poder, como sempre, sendo o pano de fundo das parábolas de Orwell. O autor exerce a crítica fortemente, e se utiliza, para isso, do divertimento de uma banalidade aparente, no caso de A Revolução dos Bichos, e de um desespero fatalista, no caso de 1984.
 
A Revolução dos Bichos é o romance político na forma de parábola, e ao bom leitor, atento às suas sugestões, pode ser um desenrolar de enredo mais do que realista, no paradoxo do bizarro e do fantástico, demonstrando, no entanto, as entranhas do poder totalitário, realidade crua e processo histórico, tudo isso numa crítica acerba com a maestria da fantasia, para entrar, contudo, na realidade de fatos políticos e ideológicos efetivados num contexto definido geográfica e historicamente, a União Soviética no seu período stalinista.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com
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