Admirável Mundo Novo

''Foi feita uma escolha: a civilização do bem-estar e da estabilidade social''

Já tematizei sobre o escritor e ensaísta Aldous Huxley aqui nesta minha coluna, numa resenha que falava sobre duas obras dele: As Portas da Percepção e Céu e Inferno, que são relatos de Huxley sobre suas experiências com a mescalina. Aldous Huxley, no entanto, tem como a sua maior obra o livro Admirável Mundo Novo, romance que é um marco na carreira e na vida deste autor, lançado em 1932, e que trazia uma visão distópica, entrando aí na mesma categoria de livros que já resenhei aqui também, como Laranja Mecânica de Anthony Burgess e 1984 de George Orwell. Aliás, os romances distópicos ganharam sua feição habitual no século XX, recém acabado.
 
A fábula de uma provável sociedade do futuro, imaginada por Aldous Huxley neste seu romance Admirável Mundo Novo, traz em si uma visão essencialmente social de uma biologia aplicada. A ordem social deste mundo distópico é resultado de uma experiência genética controlada, os homens que governam o Admirável Mundo Novo têm o seguinte lema: "Sua meta não é a anarquia, e sim a estabilidade social." Ou seja, tudo foi feito, para edificar tal sociedade, para alcançar esta estabilidade, o uso de meios científicos, a revolução última, pessoal, verdadeiramente revolucionária. Tal é a finalidade de todo condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar.
 
Então, Huxley imagina e tematiza, neste romance, uma sociedade organizada em grupos sociais que são, antes de tudo, programações biológicas. O condicionamento social é fruto de determinações biologicamente planejadas. O destino social do indivíduo é seu caráter biológico, orgânico. Seu corpo é criado e sua alma não é nada mais que o feixe de sugestões de uma educação em vista de uma ordem social que prima pela estabilidade como o caminho da felicidade. 
Há, até, uma reminiscência platônica nisso tudo. Pois, assim como na sociedade ideal de Platão, neste mundo de Huxley também os indivíduos não têm pai ou mãe, eles deixam de nascer, não são mais vivíparos, os bebês são decantados. Há uma supressão sistemática que erradica a reprodução vivípara, de filhos criados por pais, e os bebês passam a ser educados pelos Centros de Condicionamento do Estado. E o pior de tudo: neste plano social, há uma ruptura total com o passado, a maioria dos fatos históricos são vistos como desagradáveis, há uma filosofia do presente eterno.
 
Na divisão do trabalho desta sociedade se evidencia os grupos sociais como castas genéticas: crianças Alfas que trabalham mais que as outras, formidavelmente inteligentes. Betas, não muito superiores aos Gamas ( estes broncos) e Deltas (se vestem de cáqui). Sendo os piores nesta cadeia social os Ípsilons. A educação é organizada segundo um método chamado hipnopedia, que é nada mais que a instrução por palavras sem explicação racional, ou seja, uma educação que é parte de um condicionamento, não há senso crítico, se criam autômatos, e tal método era considerado, portanto, como "a maior força moralizadora e socializante de todos os tempos."
 
Admirável Mundo Novo começa a sua nova era com um marco: A introdução do 1° modelo T de Ford é escolhido como a data inicial da nova era. Ou seja, a doutrina de tal sociedade é fordista, a frase de Ford que ecoa nas cabeças neste novo mundo é: " A História é uma farsa." O espírito da criança criada aí, por sua vez, é nada mais que a soma de sugestões, o adulto vindo daí será o resultado de repetições hipnopédicas introjetadas para tornar o indivíduo apenas uma peça em função de seu destino social, de seu papel determinado biologicamente, a serviço da divisão social-biológica do trabalho, tudo isso para a estabilidade social que aqui se torna sinônimo de felicidade.
 
O provérbio hipnopédico é o seguinte: "Cada um pertence a todos." Ou seja, família, monogamia, romantismo, tudo isso acaba, pois a ordem social da estabilidade sacrifica o indivíduo, o Estado é asséptico, sua estabilidade é uma higiene do senso crítico, da diferença, pois agora cada um cumpre com seu destino social, o qual ninguém escolheu, mas que é aceito docilmente. A genética manipulada se torna a disciplina da mente neste Admirável Mundo Novo, um mundo regido pelo condicionamento hipnopediano, neopavloviano, conceitos como liberdade ou democracia são desconhecidos, há o fim dos sentimentos intensos, das paixões transformadoras, o mundo estável se torna o ideal.
 
Há uma campanha contra o Passado, a nova era de Ford prima pela sua ordem social através de mecanismos próprios de imersão alienadora: cinema sensível, música sintética, ou seja, feixes de sensações, e mais, a chave que faz tudo fluir: o mundo quente, cheio de cores vivas, o mundo infinitamente acolhedor criado pelo soma, gozando do tempo radioso, o céu perpetuamente azul, o lema desta droga soma se resume na fórmula: "Bebo ao meu aniquilamento." Agora, não resta nada do que reclamar, a luz interior da benevolência universal se irradia em cada rosto.
 
Bernard Marx, um dos personagens principais deste romance de Huxley, começa a se questionar, pergunta à moça de nome Lenina pela liberdade. Conclui, secamente, a respeito desta sociedade da estabilidade social: "Adultos intelectualmente e durante as horas de trabalho. Criancinhas, no que diz respeito ao sentimento e ao desejo." Ou ainda: "Fui e serei me deixam doente, um grama e com o sou fico contente. Com o soma a flor do presente desabrochava, inteiramente rósea." 
 
Bernard e Lenina vão para fora do Admirável Mundo Novo, chegam à região selvagem de Malpaís, a chamada tal Reserva em que as crianças ainda nascem. Lenina fica horrorizada com a sujeira do lugar, os montes de imundície, o pó, os cães, as moscas, diz que a limpeza está próxima da fordeza, Bernard cita ironicamente que civilização é esterilização, repetindo uma lição hipnopédica de higiene elementar. E conclui para Lenina: "Seja como for, faz cinco ou seis mil anos que vivem assim."
 
Bernard logo é advertido pelo Diretor de um dos setores do Admirável Mundo Novo, sua conduta é subversiva, "não há crime mais odioso que a falta de ortodoxia na conduta. A falta de ortodoxia, ameaça mais que a vida de um simples indivíduo, atinge a própria Sociedade." A segurança e a estabilidade da Sociedade estavam em perigo, Bernard poderia ser exonerado e mandado para a Islândia por subversão.
 
O Selvagem que veio com Bernard e Lenina da Reserva acaba por ser descoberto como filho do Diretor, tudo isso escandaliza a ordem social. John, o Selvagem, começa a descobrir o Admirável Mundo Novo, e naturalmente, começa a criticá-lo, e então ele tenta uma revolução contra o soma, fica enlouquecido, questiona: "Nem sequer compreendem o que significa ser homem, o que é a liberdade?" Com essa confusão, a ordem tem que ser restabelecida por um "Discurso Sintético", mais um dos recursos hipnóticos da estabilidade social deste mundo asséptico e sem reflexão. 
 
O conhecimento, nesta mecânica, portanto, e como consequência, perde qualquer ordem finalística de explicações, algo assim é logo censurado, se deveria viver o eterno presente, a vida era nada mais que a manutenção do bem-estar e sem nenhum refinamento da consciência ou ampliação do saber. No Admirável Mundo Novo o objetivo era a felicidade, nada de grande arte, muito menos tragédia, nada emocionalmente pesado, tudo pela estabilidade, em lugar da grande arte, o domínio das sensações: filmes sensíveis e órgão de perfumes. Grupos Bokanovsky: eles são o alicerce sobre o qual está edificado tudo o mais. 
A ciência também se torna um perigo público, o círculo de pesquisas, portanto, é cuidadosamente limitado, focado nos problemas imediatos. No Admirável Mundo Novo, a beleza e a verdade deixam de ser valores para se tornarem descartáveis em nome de uma felicidade pela estabilidade social. Acaba a arte e a ciência, esse é o preço da felicidade no Admirável Mundo Novo. Deus também tem um fim, e toda a religião. A angústia desaparece, a morte se torna indiferente. A droga de nome soma vira equivalente da ordem social.
Deus não é compatível com as máquinas, a medicina científica e a felicidade universal. Foi feita uma escolha: a civilização do bem-estar e da estabilidade social, alienada de sentimento religioso, desprovida da grande arte e de ciência ampla, nela não há processo de saber, há manipulação biológica para a manutenção de uma ordem social asséptica. Os impulsos naturais, por sua vez, são regulados pelo soma, os conflitos são suprimidos por uma sensação artificial condicionada para que cada um faça a sua parte pré-definida na ordem social. "O cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma." 
 
A virtude é construída na base da fuga da realidade, a estabilidade é artificial, o Admirável Mundo Novo é rechaçado devidamente pelo Selvagem John, ele rompe com Mustapha Mond, ente mor do mundo de Ford, e reclama pelo seu mundo natural, como refúgio da verdade e da vida. O mundo verdadeiro é Malpaís, a Reserva, lá onde as crianças nascem. Conclusão: o mundo imaginado por Huxley, mundo distópico que, no entanto, tenta ser um simulacro da felicidade, perde em sangue e fúria, não há tragédia shakespeareana que resista num mundo asseado em que os corpos não são livres e a docilidade foucaltiana é produzida de maneira hipnótica e pavloviana.
 
 
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com
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