Alvos fáceis

A população jovem quer a abertura de diálogo como forma de reduzir a violência

O protesto de moradores do bairro Jesus de Nazareth, em Vitória, contra a violência policial, realizado nessa segunda-feira (24), retrata fielmente a situação em que vive a população que habita em áreas consideradas perigosas pelas autoridades policiais, especialmente jovens e negros.  

Estigmatizados pela cor da pele e a condição social,  se constituem em alvos fáceis do clima de ódio e preconceito que permeia a sociedade brasileira, que os transforma, de forma generalizada e muitas vezes injusta, em perigosos bandidos. 

Assim foi em Jesus de Nazareth: “a polícia chegou ao bairro com bairro com militares encapuzados, num carro descaracterizado, avistou um grupo de jovens e já desembarcou abrindo fogo contra eles”, relatam os moradores, assustados com a ação policial que deixou ferido um jovem gari, sem ligação com a criminalidade.   

Dados oficiais informam, e isso é festejado pelo governo, que o número de homicídios caiu no Espírito Santo.  De fato, mas um dado que fica esquecido é que o número de assassinatos entre os jovens e negros passou de 36,7% em 2003 para 46% por cada 100 mil habitantes, em 2014. 

Os programas oficiais não conseguem desenvolver ações efetivas de alcance a essas camadas populacionais, de modo a promover a interação dos jovens com os gestores das políticas públicas de inserção social. O máximo que avançam é medido pelo nível de espaços na mídia a fim de satisfazer vaidades pessoais. 

Visando mudar esse canário, o Conselho Estadual de Juventude do Espírito Santo (Cejuve) encaminhou documento aos candidatos ao governo do Estado nas eleições desse ano pedindo a abertura de diálogo, com sugestões de ações que considera essenciais para os jovens no Estado, estimados em mais de um milhão de pessoas.  

Os jovens pretendem maior abertura de diálogo, mediante a efetivação de políticas públicas de juventude com vista a assegurar direitos desta população nas mais diversas áreas. 

Defendem a instituição de uma política de enfrentamento à letalidade infanto-juvenil de modo a reduzir o número de homicídios que recai sob o segmento, sobretudo contra a juventude negra e periférica. 

Com uma frequência que assusta, os jovens de áreas periféricas sentem na pele o peso da desigualdade e do esquecimento, passando a ser alvo fácil da onda de ódio e preconceito. 

O gari do bairro Jesus de Nazareth representa um retrato desse clima, que precariza a vida de jovens negros, ampliando a chaga no tecido social que, secularmente, os gestores públicos ignoram.

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