As 'boas' companhias

Ao buscar aproximação com o vice de Bolsonaro, Casagrande toma o rumo do núcleo de poder em Brasília

O tato e a capacidade de articulação do governador eleito, Renato Casagrande (PSB), são conhecidos no meio político e estão plenamente demonstrados na formação do seu secretariado e nas incursões dele a Brasília. O objetivo, colocar o Espírito Santo na linha de atuação do governo federal, com maior possibilidade de viabilizar projetos de sua gestão, que se inicia em janeiro próximo. 

Em sua última visita à capital federal, nessa quarta-feira (12), Casagrande manteve contato, juntamente com outros governadores eleitos, com dois pesos-pesados da futura administração federal, o ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro e o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão (PRTB), a quem formulou convite para visitar o Estado. 

Essa aproximação, se analisada de forma mais extensa e colocada no cenário turbulento do chamado “Bolsogate”, decorrente da suspeita de formação de uma caixinha de depósitos bancários fraudulentos, demonstra que o governador eleito busca fortalecer vínculos com setores do futuro governo federal que tenham, de fato, o poder de mando.

O escândalo provocado pela transferência de valores por meio da conta de um ex-assessor do deputado estadual pelo Rio de Janeiro e senador eleito, Flávio Bolsonaro (PSL), com envolvimento de Michele Bolsonaro, desconstrói o discurso de arauto de moralidade de Jair Bolsonaro e o impede de falar contra a corrupção, como fez na campanha eleitoral, em discursos que agora soam como simples peças de marketing.

Embora ainda não sejam investigados, o filho, a mulher e toda a família do presidente eleito estão diretamente ligados ao caso, cuja repercussão tem sido extremamente negativa nos círculos militares que sustentam Bolsonaro desde a pré-campanha eleitoral, marca de um governo militarizado que deve afastar os partidos políticos em favor do ordenamento dos quartéis. 

A insatisfação chegou a fazer o general Mourão vir a público e declarar que o esquema de “rachid”, de apropriação indébita de salários de funcionários de gabinetes de Jair e Flávio é imoral e tem que ser apurado, ressaltando que a situação representa uma ameaça grave. Não a ponto de impedir a posse do presidente eleito. No entanto, a ilegalidade descoberta pelo Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) coloca uma tutela sobre o futuro governo federal e transfere, de certo modo, o núcleo de poder a outros setores.  

Nesse cenário, é ampliado o poder do vice, um general de quatro estrelas gozando das simpatias e prestígio de outros comandos militares, apesar de estar na reserva. Com o ex-juiz Sérgio Moro, forma a dupla de maior abrangência nas decisões do governo federal. 

É justamente esse o alvo do governador Renato Casagrande: estar junto com quem tem, realmente, o comando para tocar os projetos que ele pretende desenvolver no Espírito Santo nos próximos quatro anos. Reforça declarações suas que vieram a público antes do segundo turno eleitoral, em outubro passado. 

Casagrande disse que iria manter-se neutro, contrariando até mesmo decisão do seu partido, o PSB, que rejeitou a candidatura de Jair Bolsonaro. Agora, ele começa a definir o raio de aproximação com o poder central, que, pela direção que o “Bolsogate” toma, está mais para o vice e o ex-juiz da Lava Jato, do que para o Jair, que demonstra, a cada dia, que não passa de um grande engano.

Bolsonaro não é uma boa companhia, se é que algum tempo já foi. Da mesma forma, sua equipe de governo, conforme tem demonstrado, ressaltando-se o fato de que dos 22 ministros, nove estão debaixo de investigações por corrupção.

Mas, como é o que se tem, por enquanto, Casagrande busca pelo menos quem possa viabilizar algumas vantagens para o Estado durante a fase crítica projetada para o País a partir de janeiro.    

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