'Assim é, se lhe parece'

Da reforma da Previdência às pessoas em situação de rua e à crise na Venezuela, os fatos sempre têm uma versão que reduz o papel do Estado

Muitas são as controvérsias acerca de coisas que tocam o dia a dia de cada cidadão, entre elas a reforma da Previdência; indicações políticas para órgão onde a primazia deveria ser da área técnica; fraude com o uso indevido de dinheiro público; escândalos sexuais com agentes públicos; combate à corrupção fajuto; o desgoverno Bolsonaro; a crise na Venezuela; e guerras pelo mundo afora. 

Em meio a tantos fatos e numerosas versões, me vem à mente uma peça teatral do escritor italiano Luigi Pirandello, falecido no século passado. Na peça Assim é, se lhe parece, o escritor utiliza o humor refinado para debater a verdade e a mentira, a partir de pontos de vistas individuais cuja origem está nos interesses de cada um.  

Embora a história se passe no final início do Século XX, é bastante atual nesses tempos em que as fake news se espalham como rastilho de pólvora e, acolhidas na mídia, fazem um estrago.

Um dos temas mais presentes na vida dos brasileiros, a reforma da Previdência, foi alvo de questionamentos na Assembleia Legislativa, com prós e contras ao projeto neoliberal de Paulo Guedes, o ministro da Economia, que causa prejuízos às camadas mais pobres da população e os idosos. 

Foram deixados fora setores e castas refesteladas há anos nas tetas da República, como os militares e juízes, parlamentares, bem como o combate à sonegação de impostos e alterações nas políticas de incentivos fiscais. Aqui mesmo no Estado, o governo abriu a chamada “caixa-preta de Hartung”, mas não revelou o volume de cada beneficiário. A transparência não está completa.

Enquanto isso, a miséria avança. Nessa quinta-feira (27), por exemplo, na esquina das ruas Eugênio Neto e Desembargador Sampaio, na Praia do Canto, em Vitória, um casal se debruçava sobre um latão de lixo. Recolhia restos de comida de um conhecido restaurante; logo à frente, dois homens dormiam na calçada, em cima de pedaços de papelão, o calor de 36 graus não os incomodava.

Na rua, um jovem, maltrapilho e sujo, pede uma “moedinha”. Está visivelmente fora de si. A cena é semelhante àquela mostrada na TV sobre a situação na Venezuela, onde o “povo está morrendo de fome, resultado do governo desastroso do ditador Nicolás Maduro, antidemocrata, que escraviza o povo”.

Essa referência rancorosa ao presidente do país vizinho, logo acolhida na mídia e espalhada no meio da população, foi feita pelo presidente norte-americano, Donald Trump, o mesmo que aperta a mão e se abre em sorrisos para o ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-Um, e diz que ele é “um grande líder”. 

Certamente, a referência elogiosa tem a ver com mísseis nucleares que o coreano possui, que Maduro não tem. Em seu país, só há petróleo, alvo da cobiça gerada na guerra econômica, que ameaça a todos.

Vale lembrar os programas sociais do governo e os pífios resultados alcançados. Os números revelam quase 300 pessoas vivendo em situação de rua em Vitória neste início de ano. Uma verdade que dói, mas encontra respaldo em ações ancoradas no marketing e formalizadas somente para atenuar a miséria, não para solucioná-la.  

As questões regionais, bem como problemas nacionais e internacionais, se encaixam em um contexto da “aldeia global” vislumbrado por Marshall Mcluhan, ainda em meados do Século XX, que resultou na globalização capitalista e nas desastrosas políticas neoliberais.

O dogma neoliberal de considerar a competição individual, a guerra econômica e o livre mercado como condições imprescindíveis à sobrevivência e ao bem-estar, reduzindo o papel do Estado, cria um cenário em que as ações políticas conseguem apenas atenuar a miséria, em permanente crescimento, pois o lucro sempre está em primeiro lugar.   

As economias desregulamentadas, privatizadas, alimentam o caos social ao extremo, e, mesmo assim, são exaltadas por grande parte da população, engabelada com o noticiário tendencioso. A reforma da Previdência para garantir o favorecimento empresarial; as articulações políticas do toma lá, da cá; a Justiça injusta; e a passividade diante da desigualdade social. São verdades encobertas pelo véu da indiferença. 

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