Blefe global

Enquanto a Vale chafurda na lama em Minas, a GM do Brasil chantageia seus empregados

O que a maior empresa automobilística do mundo está fazendo no Brasil é uma síntese escandalosa do espírito reinante na cúpula das grandes companhias multinacionais.

Alegando prejuízos financeiros na operação brasileira, a GM ameaçou deixar o país. Um ultimato? Não, chantagem grosseira. Os atuais executivos da empresa talvez ignorem que a GM opera no Brasil desde 1921, quando começou a montar veículos que chegavam ao país em partes, dentro de caixotes.

Conferindo as propostas e exigências da empresa aos seus empregados (veja abaixo a lista com 21 itens), custa crer que a líder do mercado brasileiro não tenha sido capaz de planejar antecipadamente a desaceleração de suas atividades nos próximos dois anos e, em plena temporada de verão, precise valer-se de um rol de chantagens, muitas delas baseadas na reforma trabalhista de novembro de 2017. É uma situação constrangedora para qualquer executivo.

Num primeiro momento, na manhã desta terça (29), uma assembléia com 1 mil empregados de Gravataí, RS, rejeitou de pronto as propostas, todas configurando perdas de benefícios e vantagens para eles, mas é claro que haverá reuniões formais entre dirigentes da empresa e representantes dos funcionários, que terão de ceder alguns anéis para não perder os dedos. Somando trabalhadores diretos e indiretos, a GM de Gravataí ocupa 6 mil pessoas.

Inaugurada há pouco menos de 20 anos pelo governador Olivio Dutra, do PT (1999-2002), a planta gaúcha foi construída com incentivos fiscais concedidos pelo governador Antonio Britto, do PMDB (1995-1998). Ainda é considerada uma das mais eficientes do mundo. É de onde sai o modelo Onix, atualmente líder de vendas no país (389,5 mil unidades vendidas em 2018).

O mais espantoso nessa história é que, recentemente, durante o governo José Ivo Sartori, do PMDB, (2015-2018), a GM obteve vantagens fiscais para investir R$ 1,5 bilhão numa ampliação da capacidade de produção que seria implementada em 2019. O abacaxi vai cair inteiro no colo do governador estreante Eduardo Leite, do PSDB (2019-2022).

Lista de propostas da GM:

1 - Formalização de Acordo Coletivo de longo prazo (2 anos renováveis por mais 2). O atual, assinado em 2018, vence no fim de 2019.

2 - Negociação de valor fixo e substituição de aumento salarial para empregados horista e congelamento ou redução da meritocracia para mensalistas.

3 - Negociação do Plano de Participação nos Resultados (PPR) com revisão das regras de aplicação, prevalência da proporcionalidade transição para aplicação de equivalência salarial e inclusão de produtividade.

4 - PPR zero em 2019, de 50% em 2020 e integral em 2021.

5 - Suspensão das contribuição da GMB à Previdência por 12 meses.

6 - Alteração do plano médico.

7 - Implementação de trabalho intermitente por acordo coletivo e individual.

8 - Terceirização de atividades meio e fim.

9 - Jornada de trabalho de 44 horas semanais para novas contratações.

10 - Piso salarial de R$ 1.300,00. (O atual está em torno de R$ 1.570,00).

11 - Redução do período de complementação do auxílio previdenciário para 60 dias para um evento no ano.

12 - Renovação de acordos de flexibilidade.

13 - Rescisão no curso de afastamento para empregados com tempo para aposentadoria.

14 - Desconsideração de horas extraordinárias.

15 - Trabalho em regime de tempo parcial.

16 - Jornada especial de trabalho (12/36 horas).

17 - Ajuste na cláusula de férias com parcelamento previsto em lei.

18 - Regramento do contrato de trabalho intermitente.

19 - Implicabilidade de isonomia salarial acima dos 48 meses para grade nova.

20 - Cláusula regrando a adoção de termo de quitação anual de obrigações trabalhistas.

21 - Congelamento por 12 meses da política de progressão salarial de horistas.
 

LEMBRETE DE OCASIÃO

“Pior que uma empresa perniciosa é uma empresa incompetente. Tão ruim quanto uma decisão errada é uma decisão postergada”. 

John Kenneth Galbraith, economista, na página 280 de “A Era da Incerteza”, falando da General Motors, considerada pelos americanos o suprassumo da livre empresa.

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