Caminho sem volta

Extinção do Ministério do Trabalho pelo futuro governo provoca insegurança na sociedade, incluindo a classe política

“É, se eu pudesse voltar atrás?”. A queixa é do motorista do aplicativo enquanto conduz o carro no difícil trânsito formado nas ruas de Vitória com a paralisação dos ônibus, nessa terça-feira (4). 

Ele faz referência a um comentário meu sobre a notícia veiculada no rádio dando conta da extinção do Ministério do Trabalho, parte das projeções do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), a quem ele deu o voto em outubro passado.

Jovem, pouco mais de 20 anos, votou no embalo do antipetismo alimentado pela mídia, como deixa explícito ao apontar pesadas críticas ao ex-presidente Lula, preso desde abril em uma cela da Polícia Federal em Curitiba, com uma condenação sem provas de 12 anos e meio de cadeia, e “à roubalheira que levou a Petrobras à falência, como a gente via todo dia na TV”.  

Para ele, parece impossível ver o 13º salário, férias e outros direitos ameaçados, ao contrário do que o presidente eleito anunciou na peça de marketing montada em sua casa, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Ali, ele disse que o programa Bolsa Família também teria o 13º, que Magno Malta (PR) seria ministro e outras frases soltas.

Arrepende-se do voto, mas ainda afirma que o presidente sabe falar, “diz o que a gente quer ouvir”, e volta a bater na tecla do antipetismo cravada em sua consciência: “Em quem a gente ia votar, no Lula”?, pergunta, a resposta na ponta da língua: “Nesse aí, não dá”.

Foi assim que Bolsonaro subiu: o palavreado fácil, mesmo sem conteúdo, substituiu um inexistente programa de governo, motivo da ausência aos debates pré-eleitorais, e não a facada ainda não muito esclarecida e cheia de suspeições.

É um círculo de areia movediça que se movimenta sem direção certa e já começa a assustar até lideranças que o apoiaram. “O futuro do Brasil é incerto, ninguém sabe o que virá pela frente”, diz um desses apoiadores, integrante da classe política.  

A realidade assume outros cenários, a começar pelo número de ministérios, já na casa dos 22, sete acima dos 15 anunciados na campanha eleitoral, com possibilidade de aumentar mais dois ou três. Sem contar o nível dos futuros ministros.  

Os casos de corrupção de membros da equipe do primeiro escalão já não parecem tão graves, pois assim decide o juiz salvador da pátria Sérgio Moro, alçado a superministro, premiação por manter o líder nas pesquisas eleitorais na cadeia, mesmo sem provas.

Nessa nova posição, basta a Moro um pedido desculpa, como fez Onyx Lorenzoni, investigado por ter confessado corrupção com caixa-dois, acatado prontamente pelo agora colega respeitabilíssimo. 

A viagem chega ao fim, o condutor agradece o bate-papo e, antes de seguir, pergunta quando essas coisas irão acontecer. Teme perder as garantias do seu emprego como atendente de farmácia em Vila Velha (é motorista nas folgas do trabalho), onde tem carteira assinada, férias e vale-transporte, com o qual ajuda a pagar a faculdade de Farmácia. 

Não há resposta, mas ele sabe que as coisas vão de mal a pior.
 

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