Capote, a sangue frio

Romance seguiu o caminho literário de juntar um fato real, de repercussão nos jornais e na mídia em geral

 

Truman Capote foi um dos mais importantes escritores americanos do século XX, além de comediante. Escreveu contos, romances e peças teatrais e com o seu livro de maior sucesso “A Sangue Frio” entrou no gênero de romance de não-ficção que designa, também, o chamado jornalismo literário, que tem, além de Capote, na sua versão norte-americana, outros destaques, como Norman Mailer, Tom Wolfe e Gay Talese, estes três, junto com Capote, formando o time do “New Journalism” norte-americano.
 
O romance de não-ficção de Capote “A Sangue Frio” seguiu este caminho literário de juntar um fato real, de repercussão nos jornais e na mídia em geral, e daí tirar um relato romanceado que sai do fato objetivo e busca entrar na subjetividade dos personagens, neste método se faz um estudo de pessoas reais que, no romance não-ficcional, têm suas subjetividades mais valorizadas do que o simples relato noticioso das manchetes dos jornais, pois o fato jornalístico, isento de um aprofundamento literário, o qual Capote faz em seu livro, apenas é um retrato objetivo e frio de um acontecimento, que repercute por um tempo definido, e depois cai no esquecimento, logo substituído por outros fatos.
 
Esta voz interior dos personagens é ouvida no romance não-ficcional. Capote parte, em seu romance A Sangue Frio, do fato de um assassinato real, a morte da família Clutter, quatro pessoas assassinadas dentro de casa, seus corpos amarrados, nenhuma pista, a princípio, de quem foi ou de quem foram os assassinos, uma cidade tranquila do interior do Kansas em polvorosa, desconfiança total entre os habitantes da cidade, portas de casas que antes ficavam abertas, como as dos Clutter, trancadas, paranoia, pessoas fazendo vigílias em suas janelas, e enquanto isso, Capote faz um enredo do trajeto dos assassinos, Dick e Perry, ainda não descobertos, percorrendo os EUA em direção ao México, como se nada tivesse acontecido. Capote faz a alternância entre a história dos Clutter, e os caminhos feitos pelos dois assassinos após o fato brutal.
 
A investigação começa, Dewey toma a frente do caso junto com seus detetives, começa a especulação e o exame das provas deixadas no local do crime, Dewey ainda não tinha qualquer pista de quem tinha feito aquilo. O assassinato tinha sido bem extremo, o chefe da famíla, Sr. Clutter, sua esposa, sua filha Nancy e seu filho Kenyon, todos mortos, nenhuma suspeita ainda, o namorado de Nancy logo foi descartado como suspeito, Dewey estava
 
empenhado em resolver o caso o mais rápido possível, havia suspeitas de que tinha sido algum conhecido da família, o Sr. Clutter tinha dinheiro, mas a cena do crime não indicava roubo, ou pelo menos não dizia nada de que tinha sido um assalto, logo Dewey buscou possíveis motivos de algum desafeto do Sr. Clutter ter feito isso, mas nada foi provado, e neste ínterim, Capote alterna esse enredo com as viagens dos assassinos, Dick e Perry, em direção ao México.
 
Capote utiliza no romance duas histórias que correm paralelas, mas que estão unidas pelo mesmo fato, um crime, e a história, que começa em duas pistas simultâneas, vai ficando cada vez mais interessante, o que se espera é qual será o momento em que este caminho duplo do romance se juntará, quando Dewey descobrirá os culpados e o então na junção das peças, o romance junte o caminho duplo do enredo e se torne uma única história, a do assassinato dos Clutter e sua solução. É bem interessante notar que o romance de Capote tem um caminho duplo, mas o tempo inteiro se trata de uma única história, e o clímax é no momento em que esta história, que é uma, encontra a sua unidade, quando os assassinos são descobertos e o drama dos Clutter e da cidade e arredores em que morreram e a investigação encontram os seus algozes depois de um retorno tranquilo do México, sonhando com tesouros escondidos e passando cheques sem fundo pelo caminho.
 
Depois da condenação de Dick e Perry, a grande questão do romance gira em torno da pena de morte, alguns dizem que é correto, outros dizem que não, mas o fato também traz a reflexão da tradição de alguns estados norte-americanos aplicarem a pena capital, e no caso do estado de Kansas, seria um modo de evitar a fuga dos assassinos ou sua soltura, pois neste estado a prisão perpétua poderia num momento, após sete anos, ser comutada em liberdade condicional, a questão da morte, assassinato, encontra a questão da pena de morte, assassinato legal. Uns matam e são criminosos, outros matam e são a afirmação da legalidade. Este paradoxo Capote levanta, mas não resolve. E o romance se encerra com a execução na forca, a lei matando os que matam, a pena capital para os que não tiveram pena da vida de inocentes, a morte ao mesmo tempo como coisa abjeta e logo depois como justiça e punição.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
  • Palavras-Chaves
Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para manter ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.